Angola, pelos meus olhos

Na "banda", de coração e língua afiada: considerações, dissertações e opiniões sopradas debaixo do Sahara


Interregnos

Parafraseando 'racismos' em forma de palavra

Ele é na rua, na boca de todos nós, desde o advogado ao 'almeida', passando pela ignóbil professora de História do 10º ano e ainda pelo vizinho que sai às 4 e 30 e regressa às 21 horas.

Ele é nas rádios (Ecclésia, TSF, na Cadena Ser e na BBC Radio One, na Rádio Nacional de Angola e no Rádio Clube Português), na BBC, na Globo brasileira e depois na TPA e na Record e na RTP.

Abro parêntesis - tenho alguma dificuldade em compreender determinados pré-conceitos ou preconceitos, melhor dizendo.

Há países que apresentam um sector metalúrgico (entre outros, sobretudo ao nível da capacidade transformadora) pujante, um nível de industrialização bastante elevado e depois uma série de instituições de renome e de capacidade reconhecida, ao nível das ciências (humanas, sociais), ao nível da construção, da engenharia e da arquitectura. Que tem uma produção intelectual e cultural acima de qualquer suspeita, por apresentar grande nível e por ser representativa em diversos domínios (literatura, teatro, cinema, música). Que tem instituições médicas e de ensino capazes de se baterem com as melhores do mundo. Este país ainda teve a visão de apostar e consolidar uma política energética do mais inovador que conhecemos, sobretudo no que respeita ao desenvolvimento do etanol enquanto propulsor de motores automóveis - mas há mais: é o maior produtor de carne do mundo; tem cerca de 180 milhões de habitantes e uma capacidade de gerar rendimentos provenientes do turismo como poucos se podem orgulhar; apresenta um crescimento económico, nos últimos cinco anos, bem próximo dos dois digitos e uma democracia que se tem vindo, quase heroicamente, a consolidar; se juntarmos a isto tudo uma história e um legado geracional extremamente rico, será que se pode classificar este país de 'atrasado' ou 'terceiro-mundista'? É uma aberração!,

fecho parêntesis.

Eles são os próprios brasileiros e angolanos e cabo-verdianos (ah, esperem, desde o ano passado ou quê, que a ONU veio dizer que Cabo Verde já não é 'muito pobre', agora já só é 'ligeiramente pobre') e os outros, os outros!, alemães, holandeses, americanos, quando atiram de Chivas '15 anos' a roçar nas barrigas proeminentes aqueles duas-palavras-juntas-com-hífen: 'terceiro-mundo'.

Assim, secos, de uísque seco em punho (no 'terceiro-mundo', normalmente quente, árido, difícil e injusto, o uísque, mesmo o '15 anos', tem de vir on the rocks) e uma estante e uma bagagem cheia de nada, nem sequer de vento. Nunca pensaram, nunca lhes passou pela cabeça que nesses longínquos 'terceiros-mundos' há pessoas que, estando perfeitamente abandonadas, sabem mais da vida e de nós todos.

Nunca lhes passou pela cabeça que eles próprios vivem em situações que eu posso considerar de 'terceiro-mundistas', mesmo só imaginando o que isso significa: ou será que fazer uma vida casa, trabalho, casa, e assim sucessivamente, sem estímulos de qualquer espécie, nem rasgos de vontade e intensidade próprias, é que é viver num edílico 'primeiro-mundo'?

Estas reminiscências das 'conferências de Berlim' e de um mundo ao contrário, habitado por pessoas que viveram séculos viradas do avesso, subsistem e deixam-me fatigado. A pergunta que fica será esta: alguém, na imagem em baixo, descortina um, dois, ou mesmo três 'mundos'?

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Eleições

Presente de Natal e Fim-de-ano

Angola vai às urnas nos dias 5 e 6 de Setembro de 2008, anunciou o actual Presidente da República, José Eduardo dos Santos.

Após as primeiras e únicas eleições realizadas no já longínquo ano de 1992 (e sem direito a segunda-volta), Angola procura agora acertar o seu processo democrático, de fortalecimento do Estado e das instituições que o representam. Neste sentido, a realização de eleições é fundamental.

JES cumpre com a palavra (mais ou menos, mas enfim, política é isto mesmo) dada aos angolanos e marca a data oficial com, parece-me, a devida distância temporal, até porque grande parte do Registo Eleitoral está cumprido. Agora a bola está do lado dos partidos políticos e do povo angolano.

Espera-se que após a 'fase troglodita', o processo de crescimento e construção deste país entre agora numa fase mais harmoniosa, na busca do desenvolvimento e de mais igualdade e justiça.

(Nota: O 'angolapelosmeusolhos' vai, evidentemente, acompanhar a realização das Eleições Legislativas '08 (as Presidenciais são para 2009) e para isso inaugura-se hoje a secção 'eleições'.)

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Sul

Só os olhos podem contar boas histórias

Aqueles pedaços de terra juntos e duros, avençados de outras paragens, quando estão juntos podem ter todas as formas. É uma verdade, verdadeira. Descarregam-nas, atiram-nas umas contra as outras, transportam-nas quilómetros e quilómetros de um lado para o outro, atrás de mais formas e novas ideias. São pedras, pedrinhas, pedronas esmigalhadas uma e outra vez, sempre. Imagino uns tractores grandes, ou bulldozers ou quê, rodas altas e perigosas, a estilhaçar brita em enormes desejos do homem e da sua legítima procura por algo feliz – e daí surgem estradas e casas de pedra e, enfim, algumas pessoas e histórias que se alimentam de uma fonte de informação e riqueza.

Naquela capital africana, naquela Luanda que parece o que não tem parecença, que parece aquilo que nunca se viu, que parece uma cidade. Naquela Luanda, dizia, há uma rotunda com umas senhoras em bronze (ou será ferro?) e uns canteiros ajardinados e pedras, claro, alguém já viu algum jardim sem pedras? (Até pode haver uns quantos sem flores, sem relva, sem estátuas em ferro – ou será bronze? -, agora, sem pedras, pequenas, largas, em forma de cubo, não me lembro de nenhum.) E depois, em frente a esta rotunda há um prédio alto e cheio de antenas, rádio, televisão, satélites, e pessoas que parecem antenas, captam tudo, vendem tudo, fazem tudo.

O ramalhete é composto por partículas que são classificadas como ‘cliché’ (mais à frente voltaremos a este assunto) – o ‘lixo’, a ‘poeira’, as águas ‘verdejantes-e-paradas’, as ‘Cucas amarelas e deslocadas’ no ‘chão quente de África’: o melhor de tudo é que, do cimo do tal prédio a vista é, com certeza, a melhor para o ‘melhor pôr-do-sol do Mundo’, segundo dizem os especialistas em ‘pores-do-sol’. O de África, claro. Permitam-me abrir parêntesis. Escrevi este parágrafo porque me apeteceu, apesar de desconfiar da sua validade poético-artística-inspiradora. Estou no meu direito. Fecho parêntesis.

Como esta história não pretende ser um cliché, nem um lugar-comum (até porque Luanda não é comum a nada, talvez seja por isso que é bonita), vou contar aquilo que realmente interessa.

Um homem, chinês, talvez 30 anos, estava sentado, de perna traçada, no cume de 3 metros de brita-em-forma-triângulo. Sozinho, no meio de uma urbe desenfreada que, às 18 horas de todos os dias ‘menos domingo’, faz aquilo que fazem as pessoas ditas normais: regressa a casa. A cidade regressa a casa. Tinha um ar sonhador mas apenas observava, sintético, suspenso. Ele, enquanto personagem daquele quadro, pintado a óleo mascarrado e besuntado pelo calor numa tela imperfeita, olhava. Apenas.

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Lusofonia

O acordo ortográfico

PORTUGUÊS-BRASILEIRO
por Pedro Lomba

'Hoje em dia as livrarias por essa Europa fora já não têm só dicionários bilingues de português.

Em vez do francês-português ou do italiano-português, a tendência recente é para o francês-brasileiro ou para o italiano-brasileiro. Eu, que gosto muito da literatura e do jornalismo brasileiro, que aprecio a forma como os brasileiros transformaram o português velho e chato que falamos, fico um pouco chocado. Tenho uma amiga italiana que me diz que não está nem quer aprender português; está a aprender brasileiro. E o seu dicionário de bolso confirma-o.

Há com certeza muitas razões para que isto se passe, para que muitos europeus prefiram mentalmente o brasileiro ao português, ao ponto de pensarem que têm de escolher entre um e outro. O Brasil criou uma cultura popular própria, espontânea e festiva, que tem exportado para o resto do mundo com apreciável sucesso. Nós, portugueses, somos mais apagados, não fazemos tanto estrondo e ninguém nos vê como um produto apetecível. Um mundo obcecado com o ludismo e com a euforia preferirá sempre o samba ao fado.

Agora, só há uma língua, o português, e parece-me óbvio que alguma coisa anda a falhar.

O acordo ortográfico que Portugal assinou há mais de 15 anos e nunca ratificou tem tudo a ver com esta cisão entre o português e o brasileiro. A forma como o Brasil projecta a língua portuguesa no mundo é, gostemos ou não, incomparavelmente superior à que está ao nosso alcance. Havendo uma língua única, devemos perguntar se será sensato insistir numa divisão desnecessária e complicativa das regras ortográficas dos dois países. É certo que a ortografia é, acima de tudo, uma aprendizagem.

Talvez nenhum acordo ou voluntarismo altere facilmente a maneira como escrevemos.

Acho que quem não se vê a escrever "úmido", "excetuando" ou "ótimo" porque nunca aprendeu a escrever assim, usa um argumento sério. Uma língua faz-se de códigos e normas que se aprendem e se transmitem como dados adquiridos. No entanto, quando se sabe que as actas das reuniões da CPLP são feitas em duas línguas ou que é preciso fazer traduções portuguesas de obras brasileiras só porque nós escrevemos "acção" e eles "ação", a pergunta que fica é qual a racionalidade de tudo isto. O acordo ortográfico não vem salvar, uniformizar ou destruir a língua portuguesa. Até porque a língua portuguesa não precisa de ser salva, nem pode ser destruída. O interesse do acordo é, no essencial, prático.

Continuaremos a dizer "giro" sem que os brasileiros nos percebam, tal como os brasileiros continuarão a falar em "propinas" sem que estejam a referir-se às nossas propinas. Uma língua comum é feita de várias tonalidades.

Pode ser que assim a minha amiga italiana se decida pelo português.' in DN, 13.13.07

É uma visão que me agrada bastante - o Pedro Lomba toca em todos os pontos fulcrais do famoso 'Acordo Ortográfico'. Faz sentido que existam dicionários 'francês-brasileiro'? Não, não faz, apesar de o Brasil ser, claramente, o maior e melhor transportador da língua portuguesa - através da música, da sua expressividade e, claro, através dos seus 175 milhões de brasileiros-a-falar-português.

Não pode haver dúvidas quanto a esta 'superioridade'.

Ora, o que está escrito na opinião aqui publicada, é bastante diferente daquilo que o 'incrível' e 'majestoso' (irmãos à parte, hellas...) Vasco Graça Moura tem vindo a debitar sobre o Acordo (aqui e aqui, mais aqui).

É incrível que se tome a língua portuguesa, hoje em dia, como um argumento 'Português de Portugal' - queria dizer ao Vasco Graça Moura que, infelizmente para ele, todos os outros países lusófonos contribuíram muito mais para o reforço e unidade da língua do que ele imagina. Ao contrário do que se possa pensar, isto é uma 'propriedade e uma qualidade' e não um 'defeito'.

Depois, as questões relacionadas com a vertente economicista da questão são um perfeito disparate, até arrepiam só de pensar (suspeito, e se calhar estou a ser ingénuo ou desinformado, que o Moura tem interesses financeiros na indústria editorial). Fará, porventura, sentido algum, fazerem-se edições duplicadas ('brasileiro' e 'português'), apenas porque não se convencionou o que é, afinal, o português?

É um logro. Até porque o mercado editorial lusófono continua uma fraude - só para exemplificar, o último livro do angolano José Eduardo Agualusa ('As mulheres do meu pai', edição portuguesa), custava, no acto de lançamento aqui em Luanda, 30 dólares americanos! Um roubo.

O mesmo Agualusa dizia, informalmente, que isto do Acordo Ortográfico 'se fosse bem feito, nem dariamos por ela'. Exacto.

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Lusofonia


Gonçalo M. Tavares ganha prémio PT que é, no Brasil, a maior distinção atribuída a escritores de língua portuguesa

'Com o romance Jerusalém, o autor torna-se o primeiro não brasileiro a ser distinguido com o Prémio Portugal Telecom em Língua Portuguesa no valor de 50 mil reais (cerca de 18 700 euros). O romance de Gonçalo M. Tavares foi o escolhido entre um total de 200 obras de ficção.

"Devia começar a pensar-se a sério em atribuir prémios à língua portuguesa, pensar a língua no global e não espartilhada por países. A língua é o mínimo denominador comum", defende o escritor que, na mesma filosofia, gostaria de ver aparecer editoras de língua portuguesa a editar obras em simultâneo em Lisboa, no Rio de Janeiro ou em Maputo.

"Todos teríamos a ganhar com isso e poderíamos olhar para a experiência dos espanhóis. Eles fazem isso com os prémios. Não distinguem nacionalidades, mas sim a língua." Por tudo isto, sublinha, é com "muito orgulho" que recebe um prémio destinado a todos os autores que escrevem em português.'

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Lusofonia

Sugestões, por Mia Couto, autor moçambicano (continuação da intervenção anterior)

Primeira sugestão — Concertar agendas nacionais e supranacionais

Os países africanos estão ainda a construir a sua própria lusofonia. Queremos que essa agenda nacional seja respeitada, e que outros programas se articulem em harmonia com esta construção interna. Todos sabemos que este edifício da lusofonia dentro dos nossos países é um assunto extremamente sensível exactamente porque tem a ver com a construção das nossas próprias identidades nacionais. É verdade que não podemos pedir que o nosso projecto comum fique à espera que se cumpram os programas de cada um. Mas podemos cuidar que a lusofonia supra-nacional se desenhe sem atropelar essas agendas nacionais.

Isso implica a existência de um fórum de consulta permanente para a definição e avaliação da programação das nossas estações comuns. Deve ser dito que somos todos vítimas da mesma lógica de governação, que coloca a prioridade nos assuntos económicos e relega para mais tarde as questões culturais e linguísticas. Deve ser dito ainda que, muitas vezes, falta nas nossas políticas domésticas coragem para defender interesses nacionais e não apenas conveniências políticas de ocasião.

Segunda sugestão — Respeitar individualidades

Os lusófonos são pensados e falados do seguinte modo: Portugal, Brasil e os PALOP. Surgimos como um triângulo com vértices um no Brasil, um em Portugal e um terceiro em África. Ora, os países africanos não são um bloco homogéneo que se possa tratar de modo tão redutor e simplificado. Não se pode conceber como uma única entidade os 5 países africanos que mantêm, entre si, diferenças culturais sensíveis. As nações lusófonas não são um triângulo, mas uma constelação em que cada um tem a sua própria individualidade. O respeito pela individualidade, contudo, não nasce de apelos nem de acusações. O respeito conquista-se. Em lugar da retórica política fácil espera-se que sejamos capazes de produzir obra que os outros reconheçam e admirem.

Terceira sugestão — Abandonar o apelo ao coitadismo

Nós, os africanos, devemos abandonar uma atitude apelativa, ficando à espera que outras nos recompensem de injustiças passadas. A energia que costumamos colocar nessa apelação deve ser investida na criação de alternativas e na produção da nossa própria riqueza. Reclamamos que a língua não tem dono e que a lusofonia é de todos nós, mas ficamos à espera que seja Portugal ou o Brasil a tomar a iniciativa. Escusamo-nos na falta de recursos, mas nem sempre usamos os primeiros grandes recursos que são a originalidade e a imaginação.

Quarta sugestão — Aplicar princípios de laicidade

A programação radiofónica e televisiva, por vezes se esquece de uma simples verdade: não somos uma população exclusivamente católica. E necessitamos respeitar a pluralidade religiosa do espaço lusófono. A nossa identidade linguística deve coexistir com outras identidades que nos tornam múltiplos e plurais. É urgente discutirmos, em conjunto, como aplicar nos órgãos de comunicação social os princípios de laicidade que caracterizam os nossos Estados.

Quinta sugestão — Evitar uma identidade refúgio

Ao escutar o noticiário das cadeias lusófonas eu noto o seguinte: existem notícias dos nossos países que abrem noticiários, mas que são insufladas de injustificada importância. São novidades de paróquia e dominam um noticiário que secundariza aquilo que de importante e actual está ocorrendo no mundo. As declarações de um coordenador de uma quase inexistente ONG podem abrir o noticiário no mesmo dia em que temas cruciais estão a estremecer o mundo. Não temos que fazer da lusofonia uma toca, um refúgio. Necessitamos, sim, de um instrumento para nos trocarmos com as outras comunidades linguísticas.

Importantes movimentos de pensamento inovador estão a ocorrer em diversas regiões do continente africano. Nós estamos cegos e surdos.

Literatura de grande qualidade está a surgir em África. Essa literatura só está a ser divulgada na Europa e na América.

A música africana de qualidade que não nasce nos nossos 5 países deve entrar nas nossas estações e contagiar a nossa própria produção musical. Se não fizermos, seremos lusófonos, sim, mas seremos uma ilha pobre e autista.

Sexta sugestão — Uma ideia folclórica do que somos quando estamos fora

Os programas que fazemos para os nossos cidadãos na diáspora quase sempre se fundamentam numa ideia folclórica dos nossos que estão fora. Os nossos cidadãos que vivem fora das suas fronteiras nacionais nem sempre se reconhecem no reviver dos ranchos folclóricos e na repetição sem qualquer imaginação daquilo que se entende por cultura tradicional. Posso-vos assegurar: as comunidades portuguesas em Moçambique e as comunidades moçambicanas em Portugal estão muito distantes desse estereótipo de gente conservadora, envelhecida em redor da evocação da saudade.

E porque não pensarmos em criar, para além de emissões para as comunidades no mundo, porque não criarmos, dizia, uma estação para o mundo? Porquê não pensarmos em ter uma Televisão e uma Rádio da Lusofonia que, a exemplo da BBC e da CNN, produzissem informação de referência sobre os nossos países? Imagino as dificuldades práticas de implementar tal projecto, mas a verdade é que não temos sequer ousadia de o pensarmos e de o sonharmos.

Num mundo americanizado e dominado pelo idioma inglês, a lusofonia deve ser um pólo de diversidade criativa, não apenas no plano linguístico mas cultural, político e filosófico. A nossa força não se traduz apenas na quantidade de falantes espalhados pelo mundo. Seremos fortes apenas se produzirmos um pensamento próprio, original e interventivo.

O território do futuro

Voltemos aos jovens que se entreajudavam para não fazer nada e que, nessa ausência de tarefa, se iam saindo até muito bem. Pois essas mesmas personagens poderiam tecer entre eles o seguinte diálogo:

— É muito cedo para fazermos qualquer coisa, diria o primeiro.

— E esperamos até quando? Perguntaria o segundo.

E o primeiro responderia:

— Esperamos até que seja demasiado tarde.

Temos um modo estranho de lidar com a realidade, como se o real fosse um contrabando a transportar para territórios que não são nossos. Um dos territórios a que nos habituamos que não fosse nunca nosso é o futuro. Os outros, de outras línguas, parecem sentir-se mais à vontade nesse lado de lá do tempo. Tanto nos disseram que éramos pequenos para ter presente que acabamos por encarar o futuro com suspeição. Contentamo-nos com viver de desbotadas memórias de um passado longínquo: é verdade que não podemos criar história fora do passado.

Mas não podemos é fazer do passado a nossa História. Falo da dificuldade de nos projectarmos no Tempo porque aquilo que nos traz aqui hoje — a lusofonia – existe no futuro para ser pensado ontem e produzido hoje.

A lusofonia é algo estranho, pois é um ser que existe para nascer. A lusofonia é qualquer coisa que já é nosso, mas que parece ainda não nos pertencer a todos por igual. De uma criatura assim seria mais fácil dizer mal e lançar suspeições. O projecto da lusofonia tem essa enorme desvantagem de ser preciso fazer qualquer coisa e de nos empurrar para fora desse invisível muro onde descansamos existências e lançamos culpas sobre os outros.

O debate sobre o que somos e seremos deve prosseguir. Mas será no que fizermos que nos converteremos realmente numa comunidade capaz de propor discursos inovadores e introduzir mudanças. Dizemos que a língua portuguesa não é apenas dos portugueses. E acreditamos que isso seja a manifestação de uma intenção política, de uma vontade adoptada. Mas não se trata de intenção ou vontade.

Trata-se de uma questão histórica: há séculos que a língua portuguesa é também africana. O que seria do idioma português se não tivesse beneficiado das contribuições linguísticas dos árabes que ocuparam e viveram na Península Ibérica? Esses árabes ajudaram a tecer este grande tapete onde se deitam as nossas almas. Esses árabes são africanos, tanto como nós, os que habitamos mais a Sul. Há séculos que o idioma lusitano é um filho mestiço de namoros feitos entre as duas margens do Mediterrâneo.

E mesmo se nos quisermos abster à influência das línguas bantus nascidas depois do tempo das caravelas: há quanto tempo palavras como minhoca, cambada e candonga e tantas outras se instalaram na língua portuguesa?

Pois eu vos digo, tomando apenas um exemplo: a palavra minhoca instalou-se no século XVI e hoje a maior parte dos portugueses nem sequer suspeita da sua origem longínqua.

Meus amigos, a verdade é a seguinte: a lusofonia não começou hoje.

A nossa língua comum foi construída por laços antigos, tão antigos que por vezes lhes perdemos o rasto.

De uma vez por todas, superemos receios e fantasmas. De uma vez por todas namoremos o futuro para que ele se enamore de nós.

(Estes dois textos são, quase exactamente, os textos que andam a azucrinar os meus neurónios nas últimas semanas, meses, talvez. Era isto que gostaria de ter escrito sobre a 'lusofonia'. Ordeno!, sinceramente, que TODOS mas mesmo TODOS aqueles que visitam este blogue, sejam 'lusófonos' ou não, contribuam para uma discussão que, parece-me, ainda está por fazer.

O que é, para vocês, essa coisa de 'lusofonia'? Identificam-se com o que o Mia Couto escreveu? Alguma vez se debruçaram sobre este tema?

Digam-me, porque estou louco por saber.

A minha sugestão começa pelo principio - como nos dicionários que consultei não encontrei (priberam.pt à parte) nem o termo 'lusofonia', nem o termo 'lusófono', sugiro a imediata - e obrigatória! - entrada destes termos em todos os dicionários de Língua Portuguesa.)

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Lusofonia

Desmontando e reconstruindo a ideia de lusofonia, por Mia Couto, autor moçambicano

(com o pretexto de discutir o serviço público de rádio e televisão, o mais consagrado dos escritores moçambicanos da actualidade foi a Lisboa desmontar algumas ideias feitas e preconceitos a propósito de assuntos sérios, como são a língua portuguesa e o conceito de lusofonia)

Há uns dias, em Maputo, deparei com dois jovens sentados no muro da minha empresa e a um deles perguntei o que ele fazia ali. A resposta veio célere:

— Não estou a fazer.

Fiz a mesma pergunta ao outro jovem que me respondeu com a mesma prontidão:

— Eu? Eu estou aqui a ajudar o meu amigo.

Haver alguém que ajuda um outro a não fazer nada é do domínio da mais pura metafísica. Lembro este episódio e penso na habilidade notável que os nossos povos partilham de produzirem este tipo de atitude filosófica. Coexiste em nós, lusófonos, uma certa sabedoria que nos diz que a felicidade se constrói, sim, mas que também se pode ser feliz só por preguiça. O destino, o fado, os deuses: esses são os autores dessa narrativa a que chamamos Vida.

Lembro este episódio para dizer o seguinte: nós não falamos apenas uma mesma língua. Nós sentimos de modo semelhante aquilo que não pode ser dito em língua nenhuma: o peso do Tempo, o sentido da existência, uma certa ideia da eternidade. O vazio do nada é algo que, em português, se preenche do mesmo modo em qualquer indolente muro de qualquer das nossas cidades. É nesse muro que nos sentamos para nos dedicarmos a esse desporto que, na nossa família linguística, é mais popular que o futebol: a saudade do que aconteceu, a lamentação do que podia ter acontecido e o lançar de culpas sobre o que não chegou a suceder.

Quando a lusofonia foi proclamada como um projecto supranacional houve interrogações que foram levantadas. Eu mesmo questionei o sentido desse projecto numa realidade plural em que parte dos seus cidadãos não fala português ou fala português como segunda língua. Evidentemente que eu me posicionava tendo, sobretudo, em conta a realidade do meu país. Não seria justo inventarmos um patamar de cidadania que excluía, à partida, mais de metade dos moçambicanos. A verdade é esta: apenas uma das nações de Moçambique já vive na lusofonia. Apenas parte dos moçambicanos já se reconhecem como falando e sendo falados pela língua portuguesa. Mas também é verdade que toda a grande nação moçambicana encontra no português a sua língua de construção, o idioma que a projecta num corpo unitário e que a torna capaz de viver na modernidade.

Da ideia de lusofonia

Vale a pena, como exercício breve e sumário, relembrar algumas das incompreensões que emergiram no início da nossa constituição em família. Porque motivo, por exemplo, o meu país não parecia abraçar com o mesmo entusiasmo essa proposta de criação de uma comunidade inspirada na língua? O lugar e o papel da língua portuguesa como idioma oficial em Moçambique foram debatidos, em 1962, no primeiro congresso da Frente de Libertação de Moçambique realizado na clandestinidade perto de Dar-es-Salaam. A maior parte das actas — incluindo a decisão de adoptar o português como língua oficial – foram redigidas em inglês.Os quadros com maior formação escolar tinham estudado nos países vizinhos.

O português foi adoptado não como uma herança mas como, talvez, a mais valiosa ferramenta para forjar a unidade da futura nação. Se a adopção do português foi um acto de soberania, já a criação da lusofonia não resultou de iniciativa própria de Moçambique. O projecto lusófono surgiu, afinal, pouco tempo depois daquilo que em Portugal se chamou de "descolonização". Detenho-me na palavra "descolonização" porque ela é um exemplo claro de divergentes modos de ler o passado. O termo "descolonização" é emblemático do que Bernard Shaw disse do inglês: podemos ter uma língua comum para melhor nos desentendermos.

Ainda hoje, para muitos portugueses, o que aconteceu em África foi que Portugal, com o 25 de Abril, aceitou, enfim, descolonizar os territórios africanos. Ora, parece a nós, africanos, que é preciso acertar o sujeito do verbo. Não foi Portugal que descolonizou os países africanos. A descolonização só pode ser feita pelos próprios colonizados. E nós, todos nós, sem excepção, éramos colonizados. Descolonizámo-nos uns aos outros, uns e outros.

Parece um detalhe, coisa de uma simples palavra. E as palavras traduzem modos de pensar.

E esse passado que nos feriu a todos não pode ser superado apenas com apelos ao esquecimento. Não é de esquecer o passado que necessitamos. Mas de o entender.

De qualquer modo, para Moçambique, o projecto da lusofonia surgiu pouco depois da ruptura colonial. Era natural que houvessem dúvidas. E parecia óbvio que os países africanos não se podiam reclamar da lusofonia do mesmo modo dos portugueses e brasileiros. A maior parte dos africanos ama as suas outras línguas maternas e esperava (e ainda espera) que esses idiomas não sejam votados ao esquecimento ou arrumados naquilo que se chama o património tradicional.

Estamos, pois, perante um processo que necessitou de vencer inércias e superar desconfianças. A falta de confiança, porém, não estava reservada apenas à antiga potência colonizadora. Havia suspeições de parte a parte. Vale a pena recordar aqui uma espécie de "tesourinho deprimente" da nossa história recente. Todos nos lembramos como certos sectores da política portuguesa entraram em pânico com a adesão de Moçambique à Commonwealth. O que se passava? Os moçambicanos haviam traído a sua fidelidade ao idioma luso? As reacções de algumas facções foram de tal modo excessivas que só podiam ser explicadas por um sentimento de perda de um antigo império.

A exemplo da síndrome do marido traído que, não reconhecendo autonomia e maioridade na ex-mulher, sempre se pergunta: com quem é que ela anda agora? Moçambique andaria, assim, com o inglês.

Quem contribuiu com o quê?

Na realidade, as autoridades moçambicanas não mudaram a sua política linguística e o português permaneceu na sua condição de língua oficial e unificadora. Fala-se hoje mais português em Moçambique que se falava na altura da Independência. O Governo moçambicano fez mais pela língua portuguesa que séculos de colonização. Mas não o fez por causa de um projecto chamado "lusofonia". Nem o fez para demonstrar nada aos outros ou para lançar culpas ao antigo colonizador. Fê-lo pelo seu próprio interesse nacional, pela defesa da coesão interna, pela construção da sua própria interioridade.

Há poucos dias a televisão moçambicana contou a história de dois jovens aliciados na província de Nampula para virem trabalhar em Maputo. Era um triste exemplo das novas redes de trabalho escravo. Os jovens foram, sem o saber, transferidos para a Suazilândia onde foram mantidos numa espécie de cativeiro. Os contactos com a gente local estavam limitados: os jovens falavam apenas a sua língua (e-makua) e não entendiam uma palavra de seswati. Até que um dia, junto ao rio onde lavavam roupa, escutaram um grupo de jovens falando em português. Foi então que entenderam onde estavam e, ali mesmo em português, planearam a sua fuga para Moçambique.

Este episódio parece isolado e circunstancial, mas ele traduz o quanto a língua portuguesa nos serve como cartão de identidade numa realidade linguística tão dispersa e fragmentada. Esta é a ironia da História e do modo como ela baralha os destinos: sabemos quem somos e onde estamos por via de um idioma que, antes, parecia ser dos outros e vinha de fora. Demorei-me a relembrar algumas das ressalvas e receios que ainda recentemente se colocavam sobre o assunto da lusofonia. Ora, hoje, eu creio que há que ter uma postura prática, voltada para a construção de soluções. Agora, é preciso e é urgente desenharmos acções que afirmem a nossa individualidade num mundo globalizado.

Passaram-se anos e não podemos prolongar eternamente os debates sobre a nossa própria existência. Não temos senão duas alternativas: ou ficamos no muro da retórica ou descemos para o chão da realidade, mesmo aceitando que essa realidade se diz no plural. Teremos a comunidade que entendermos ser a nossa e aquela que melhor nos servir. Basta que a façamos.

As paredes que já edificámos

Felizmente, nós já estamos a realizar esse exercício construtivo. Em muitos terrenos, nós já não somos mais os amigos sentados no muro da metafísica. Em muitas áreas, já fizemos descer a enxada sobre a terra. Uma dessas áreas foi exactamente a da comunicação social, e mais particularmente, da rádio e da televisão. Na sala da minha casa em Maputo, no rádio do meu carro quando circulo pelo meu país, eu vou sendo sujeito e objecto dessa construção. Centenas de milhares de moçambicanos vão-se inventando parceiros desta entidade feita sem pais nem filhos, desta família que se quer feita só de irmãos.

Por essa razão, por todo esse empenho, eu quero congratular os fazedores deste grande fórum de trocas de alma e cultura. Todos os nossos países estão a transbordar de consultores e assessores que nos vêm dizer como fazer. Mas há poucos que têm as mãos sujas-de-terra e que podem dizer: vejam, eu fiz, eu semeei, plantei e colhi. Um dos mais emblemáticos estereótipos de África é a imagem da fogueira nocturna, em volta da qual os mais velhos contam histórias. Pois, de alguma maneira, a Rádio e a Televisão que aqui festejamos hoje se converteram nessas fogueiras que aconchegam as almas e encenam para nós a ilusão de que o mundo todo se senta no mesmo pátio da nossa aldeia.

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Lusofonia

Falar português

O barulho dos talheres a esfregar os pratos é igual em toda a parte do mundo, mesmo numa cozinha desarrumada, estrambelhada, coentros num lado, fuba do outro, cabrito e carne e peixe no meio de uma copa e de uma cozinha.

Falam e almoçam e contam histórias de casa, do bairro, da família e de deus, talvez até seja um deus diferente do 'deus-branco', um deus pecaminoso e deslustrado mas humano, tal qual a cozinha que serve de ambiente a esta história, vivida no meio de outras muito mais interessantes, apesar do cliché - as nossas histórias, as nossas vivências sobrevivem e alimentam-se deles, exactamente como a palavra Lusofonia.

Mergulha de Portugal em direcção ao Brasil nas bocas de uns quantos 'políticos' e de uns quantos 'intelectuais', surdos - o conceito zarpa de São Salvador para Mbanza Congo, quase afogado quase a afogar-se quase a morrer na praia, das ilhas moçambicanas e das cabo-verdianas, dos Açores e de Fernando Noronha.

Eram duas: uma cabo-verdiana, outra angolana. Para mim, são a Lusofonia em estado puro, virgem e intocável. O que fazer com este tesouro que tem o potencial de uma fé?

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Sul

Angola conquista 9º título africano de basquetebol e garante presença nos Jogos Olímpicos de Pequim



em cima: Luís Costa, Felizardo Ambrósio, Vitor de Carvalho, Kikas Gomes, Victor Muzadi, Carlos Almeida e Eduardo Mingas


em baixo: Olímpio Cipriano, Milton Barros, Carlos Morais, Armando Costa e Miguel Lutonda


(o meu) cinco ideal: Milton Barros, Miguel Lutonda, Olímpio Cipriano, Eduardo Mingas e Kikas Gomes


A final, contra os Camarões (86-72), foi disputada no renovado pavilhão da Cidadela, que quase rebentava pelas costuras.

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Sul

Bem-vindo ao mundo real, família

A televisão estava ligada, ligada mas com chuva, a mesma chuva que apareceu logo de manhãzinha, logo no dia seguinte. Estava dado o sinal: 'Bom dia Angola', o cacimbo acabou, vem aí aquela água interminável que escorre pelo corpo abaixo, pelos poros entupidos de poeira e pela cara, pelos olhos. No aeroporto, o funcionário da antiga DEFA (hoje SME):

- Agora vai ter de ir à entrevista, siga o meu colega.
- Com certeza - respondi, moralizado, numa típica resposta de brasileiro «artista-da-bola» .

E assim foi. Entrámos na sala e aquele ambiente pouco ventilado, sujo e desorganizado poderia sugerir uma qualquer sala de torturas. Como tinha acabado de chegar um avião de Ponta Negra, estavam três congoleses prostrados em três cadeiras para cada um. Uma senhora, gordíssima, anafada, transpirada e garrida. Esfregava o telemóvel, parecia um aladino. Os outros dois eram mais jovens, malandros, vivos. A ideia que dava é que estavam à espera do avião de volta para o sítio de onde vieram.

(Às tantas, já estavam os três esticados, dormiam - todos abraçados aos haveres, aos tesouros que traziam atrás, provavelmente uma vida inteira num saco de plástico, amarrotado, quase desfiado, quase rasgado).

Em cima de uma das duas mesas, estava literalmente tudo. Malas, pastas, sacos, saquinhos, pessoas, canetas, folhas da imigração (pareciam estar todas amontoadas, «porra, aquele muadiê baralhou esta merda toda - onde estão os papéis de Lisboa?», ouvi às tantas), bolachas, telemóveis. Tudo.

Comigo estava outro patrício - com uma barba «tipo nada», tipo árabe, ruiva e tudo - na mesma situação. Estava para ser entrevistado.

Esperámos Esperámos Esperámos Esperámos,

«meu mano, vai demorar muito?»,

Esperámos. Só.

De repente - um homem normal, estatura normal, chapéu na cabeça, rápido e solto - entra na sala, olha para todos os lados, «está ali o teu mano», e ele nervoso nervoso nervoso, eu estava a sentir a vibração dele parecia uma telenovela,

«meu mano!»,

«Hum, xé, hum, hi» (silêncio silêncio silêncio), e mais do mesmo «hum, hi», mãos a baterem nas costas e os ombros a encaixarem uns nos outros e a pele de galinha e tudo.

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Sul

Glossário angolano, três meses depois.

Savana, verde e amarela Inspiração Expiração Transpiração; Beleza Corrupção Energia e água (ou falta dela) Maka Kumbu Mambo Kimbo Camba Maiuia no Cazenga, na Mutamba, no São Paulo e no Sambizanga (e o Makulusso sempre a bater). Praia de Sangano, Cabo Ledo, Restinga do Lobito.

Benguela.

Rio Kwanza, Rio Cavaco, Rio Dande, Rio Keve.

A beleza das pessoas e a falta de dignidade de outras. O esforço de algumas, contra a ignorância de outras. Os que se levantam, todos os dias, às 4 da manhã, contra os que faltam ao trabalho, dia sim dia sim.

A Cuca, a Super Bock (é GTI!), Os Lambas e as outras cervejas todas.

Voltarei em breve (mas enquanto não acontecer, o blogue, salvo motivo de força maior, estará de baixa).

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Norte & Sul

No mesmo dia, (quase) há mesma hora



Isaías Samakuva, presidente da UNITA, sofreu na pele (tem sofrido na pele, talvez seja mais correcto assim) a falta de consciência democrática de uns quantos angolanos, sim, aqueles em quem vocês todos estão a pensar, que se julgam donos do país, da verdade e da história de Angola. Ontem, domingo, dia 4 de Março, Samakuva foi alvo de um atentado, na província do Kwanza-norte (na localidade de Camabatela) talvez não à sua vida, mas talvez à sua liberdade política, social e cívica. Espero que siga o seu caminho, o papel dele e do seu partido é fundamental.

Esquecem-se "eles" que, tal qual as outras pessoas todas (lá está, as "pessoas", sempre elas), são mortais e vão morrer. Mais dia menos dia. Em vez de aproveitarem uma ocasião única - já são multimilionários, poderosos, empresários... e velhos - de ficar na história de um país (de um continente, do Mundo, até) potencialmente rico, mas que é perniciosamente pobre. Não.

Preferem ter medo até do chão que pisam, preferem não dar espaço ao debate e à cultura da informação pela informação, preferem agrilhoar os partidos políticos (e consta que são mais de 30, revelador de uma vontade de participação cívica dificilmente vista noutro qualquer país) num esquema de toma-lá-dinheiro-mas-não-façam-muito-barulho-senão-...

Curiosamente, na Tuga, mesmo dia, mesma hora. Um misto de saloios, provincianos e radicais de extrema-direita faziam as figuras que podemos constatar numa das imagens supra. Mas, pergunto eu, que devo ser burro: não há vergonha?

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Sul


As lambadas d'Os Lambas (made in Super Bock Super Rock, Luanda 2007)



(Os meus olhos são aquilo que observo. Eu sou o que os meus olhos me deixam ver.)

Sozinho, desci às "feras" - muitos alertavam-me, «no relvado é perigoso, vais ser o único branco lá em baixo». E era mesmo. Facto: "feras", só no circo. "Os Lambas", grupo de kuduristas made in Sambizanga, entraram em palco e a vibração mudou, quase como se tivéssemos mudado de canal, de frequência. Houve quem tivesse lá ido apenas para os ver, muitos sabiam as letras na ponta da língua. (Entretanto, na Bancada VIP, comiam-se rissóis, bebia-se cerveja à pala, e falava-se de negócios e negociatas - música, zero).

Os olhos (sempre eles), naturalmente, arregalavam-se com a minha presença, espantados, primeiro, divertidos, depois. Senti-me em casa. O ambiente estava ao rubro, muitos pareciam extasiados com a mistura Super Bock-Lambas-calor-festa-kuduro. Posso garantir que, nem que seja um bocadinho assim, muito pequeno, aquela noite mudou a minha vida.

Deixemo-nos de tangas: o preconceito é um mal que tem fodido a cabeça das pessoas.

Tudo é preconceito. A côr, o cheiro, a cabeça, a roupa, a casa, o país, o continente, o Mundo, a puta-que-os-pariu. Talvez sejam mecanismos de defesa, numa opção social do género «se eu estiver longe de certas atitudes, estou bem». Também há uma dose grande de má-vontade: não queremos conhecer os outros, aqueles que serão diferentes de nós mas que, no fundo e por uma questão de princípio, são pessoas. Pessoas. Pessoas, porra.

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Sul



4 de Fevereiro

Angola assinala hoje, dia 4 de Fevereiro, mais um aniversário sobre o início da Luta Armada de Libertação Nacional, que culminou com a proclamação da Independência do país, a 11 de Novembro de 1975. O feito de Fevereiro de 1961 "foi o produto da afirmação da consciência nacionalista e patriótica dos angolanos, contra a recusa, pelo regime colonial português, das propostas oficiais que lhe haviam sido apresentadas”. in Jornal de Angola

(Mais pormenores aqui.)

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Sul



Candongar

Andar Viver Cheirar - umas vezes a rosas, outras é uma catingada que até doi a fossa nasal - «Samba 2 Samba 2» Rapidez Eficácia !!! Espanto 50 Kwanzas Calor, muito calor «Mano, saio ali na clínica, ya?» Africanizar «Sãpalo Sãpalo» Mulheres bonitas feias crianças altos magros velhos novos amputados esclerosados Pretos, brancos poucos Trabalhar «Porra meu kota, porqué não avançaste?, o sinal estava a cair...».

Viajar de candongueiro é tudo isso. E talvez mais um bocadinho assim. À falta de viatura própria, «vamos de candongueiro». Bora.

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Sul

Benguela, a cidade das acácias rubras

Acácias rubras. Em Benguela elas estão por toda a parte. São árvores, mas de tamanho médio, tipo arbusto (desculpem a imprecisão mas de botânico ainda tenho pouco), pintadas por rebentos vermelhos. Daí as "rubras". Adiante - porque que isto não interessa para nada.

Esta cidade fez-me entrar num registo mais pessoal, familiar, genético. Podem chamar-lhe tudo. Até "mixuruca".

Mas permitam-me abrir parênteses, se faz favor. Conhecida como a "Capital da Mestiçagem", a sede da província de Benguela é diferente das demais. Plana mas "direccionada" para o mar, estendida no espaço mas pequena (deve rondar os 300 mil habitantes). Glamorosa. Agrada pelo traço largo das avenidas, pela familiariedade dos trajectos e pela Casa do Benfica de Benguela.

É madrugada de 25 de Dezembro de 2006 e as tradições, aqui, são para manter: os benguelenses circulam pela rua (Esburacadas? Sim, todas, porque raio seria diferente das demais? Mesmo assim, "eles" fazem questão de nos lembrar que estão «Ao serviço do Povo Angolano». Rua sim rua não. Enfim, para se "fazer" política é preciso ter uma certa lata), mas sem luzes chinesas, botas de snowboard ou "playstations". Cirandam, só. Convivem. Natal? Talvez, mas para melhor. Fecho parênteses.

É fácil. Mãe, tia, avó, tio-avô, bisavô. Todos naturais de Benguela. 26 anos de histórias e tertúlias e mais memórias e raízes e tudo isso. A Caota, "A Geração da Utopia" e o comandante-"Pepeteliano"-que-hibernou-para-os-lados-da-Caotinha, a Baía Azul, o Tan-Tan, o Colégio das Madres, a casa «da bi-vó», «do José Canalha», «do Sr. Vilas» e a «do Tio Fernando». Muitos destes locais fizeram parte da minha memória colectiva e de uma curiosidade familiar sugestivamente próxima.

É intrigante pensar que, apesar de tudo, nunca me disseram: - «Para chegar a Benguela é necessário passar pela Kanjala, atenção!». Aka, que canalhas. Sim, tenho "as cruzes" (não só mas também) traumatizadas.

Agora, o prazer de ter passado cinco dias em Benguela, finalmente!, esse ninguém me tira. Nem a (prostituta! da) Kanjala. Para a próxima talvez vá de avião, não sei. Mas vou.

Nota: tenho registos audiovisuais desta jornada. Eu sei que já sabem, desta vez não é para pedir desculpas. É só para desabafar: epá, puta da máquina, foda-se!

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Sul

Lobito - a cidade "figura de estilo"

A cidade do Lobito, situada na província de Benguela, a cerca de 30 km da capital provincial (que é Benguela, precisamente) e a uns 500, 550 km da capital do país, Luanda, poderia ser a metáfora que define Angola.

Vejamos, então - e vou ter de começar pelos aspectos negativos, que ainda hoje apertam a minha garganta. Já dói e tudo.

Mas dói ainda mais ver uma cidade linda com as ruas todas partidas, sem alcatrão e sem vias de circulação dignas; dói inspirar aquela mistela de pó, CO2 e lixo; dói ver uma recolha de resíduos que classificaria de inexistente, com toda uma panóplia de cheiros e doenças adjacentes; dói entrar na cidade e ver aqueles musseques cheios de pessoas (sim, também são pessoas, não parece mas são) que vivem sem um pingo de respeito - a sua condição passou a ser de extra-terrestres, nem os animais mais perigosos são colocados num jardim zoológico sem água, luz e esgotos.

Confesso a minha depressão quando pude observar com "olhos de ver" aquela paisagem desoladora - o mar, a Restinga e o porto do Lobito, no mesmo plano visual dos musseques, das pessoas (sim, também são pessoas, não parece mas são) e daquela água fétida e podre e assassinada que descia a ladeira... É perturbador da minha saúde mental.
Não obstante, a cidade goza de uma condição geográfica fantástica, para ser comedido. O Lobito situa-se junto ao mar, mas forma uma baía interior e abrigada, que deu origem ao mais importante porto comercial do país (claro). Já assim seria no tempo do outro senhor, aquele que bateu com os cornos no chão.
Ainda por cima é um porto natural - a natureza assim quis, seja feita a sua vontade.
Continuando, chegamos facilmente a uma conclusão óbvia. Devido ao tal do porto, o Lobito é bem capaz de ser a segunda capital económica do país, logo a seguir a Luanda. É ainda um pólo potenciador e gerador de empresas, empregos, negócios e negociatas.
Mais: o Lobito arrisca-se facilmente a ser uma das cidades mais bonitas de Angola. O mar, a baía interior, a Restinga (língua de areia que separa a baía do mar aberto e que tem praia para os dois lados - e que praia maravilhosa fiz eu!), a entrada na cidade (no sentido Norte/Sul), as cordilheiras verdes que a rodeiam (a Kanjala, a puta da Kanjala!!), a beleza e história da arquitectura colonial (lagarto, lagarto, lagarto)... O potencial económico, nomeadamente nas áreas do comércio, turismo e hotelaria está lá todo. E nota-se, ainda assim.

Mas não deixa de ser uma vergonha - a cidade que poderia ser tudo e não é nada. O país que poderia ser tudo e não é nada.

Lobito é Angola. (Arrisco.) Agora batam-me se quiserem.

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Sul

A caminho da cidade das acácias rubras

Já com cinco horas de caminho no corpo, aproxima-se a famosa Kanjala. Digamos que é famosa pelas razões menos boas para um automobilista de origens europeias: são cerca de 70 km de troço destruído (não, não é o mesmo que esburacado), irritante, exasperante. O pó é tipo post-it - fino, pequeno e cola-se em toda a superfície disponível, seja ela de grande ou pequena dimensão. A coluna vertebral, entretanto, já assumiu uma postura naturalmente serpenteada. Juntemos pimenta a esta festa: o troço faz-se, ainda por cima em dia de estreia, quando a noite já está velha. Nem Carlos Sainz rasparia as mãos de contente.

Minto: a determinada altura do caminho (enfim, há que nomear aquela "coisa"), num kimbo pequeno mas com cerveja, um pastor - a Kanjala é uma zona alta e húmida, fértil e boa para a pecuária -, com certeza inebriado por uma qualquer música, dançava de forma frenética abraçado ao seu cajado. Contente. Enquanto isso, camiões, ligeiros, jipes e quejandos continuavam uma jornada que não parecia ter fim. Afinal tinha: ao fim de duas horas e qualquer coisa, lá estava ele, o Fim. Se Deus existe, deve ser, com certeza, o fim da Kanjala.

Neste caso até teve a denominação de "Operação Sprite" - uma barricada policial ordenava a paragem de quase todas as viaturas. As palavras de ordem eram "Boas Festas" e "Gasosa" (daí a "Operação Sprite"). Simpáticos, estes agentes "de Deus", não é? Depois de uma viagem desgastante ainda nos desejam boas festas e oferecem gasosa.

Mentira. Como a língua portuguesa é traiçoeira e mal-tratada, os termos referidos, em Angola, significam kumbu, dinheiro, graveto, pasta. Passámos sem dar (nem receber) troco.

O destino era a cidade do Lobito, primeiro, e depois, à laia de destino final, Benguela.

Fiquem com os números, então: cerca de 10 horas de viagem; 600 km por estradas esburacadas, "achinesadas" (são eles que se preparam para reparar todo o trajecto), estrupiadas; dezenas de paisagens deslumbrantes; 10 horas de sono no dia seguinte.

Sobre as cidades do Lobito e Benguela, outras postas de seguirão.

Nota: devido a problemas técnicos ainda por apurar, não é possível publicar a Foto Reportagem do evento. Espero poder fazê-lo nos próximos dias.

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