A televisão estava ligada, ligada mas com chuva, a mesma chuva que apareceu logo de manhãzinha, logo no dia seguinte. Estava dado o sinal: 'Bom dia Angola', o cacimbo acabou, vem aí aquela água interminável que escorre pelo corpo abaixo, pelos poros entupidos de poeira e pela cara, pelos olhos. No aeroporto, o funcionário da antiga DEFA (hoje SME):
- Agora vai ter de ir à entrevista, siga o meu colega.
- Com certeza - respondi, moralizado, numa típica resposta de brasileiro «artista-da-bola» .
E assim foi. Entrámos na sala e aquele ambiente pouco ventilado, sujo e desorganizado poderia sugerir uma qualquer sala de torturas. Como tinha acabado de chegar um avião de Ponta Negra, estavam três congoleses prostrados em três cadeiras para cada um. Uma senhora, gordíssima, anafada, transpirada e garrida. Esfregava o telemóvel, parecia um aladino. Os outros dois eram mais jovens, malandros, vivos. A ideia que dava é que estavam à espera do avião de volta para o sítio de onde vieram.
(Às tantas, já estavam os três esticados, dormiam - todos abraçados aos haveres, aos tesouros que traziam atrás, provavelmente uma vida inteira num saco de plástico, amarrotado, quase desfiado, quase rasgado).
Em cima de uma das duas mesas, estava literalmente tudo. Malas, pastas, sacos, saquinhos, pessoas, canetas, folhas da imigração (pareciam estar todas amontoadas, «porra, aquele muadiê baralhou esta merda toda - onde estão os papéis de Lisboa?», ouvi às tantas), bolachas, telemóveis. Tudo.
Comigo estava outro patrício - com uma barba «tipo nada», tipo árabe, ruiva e tudo - na mesma situação. Estava para ser entrevistado.
Esperámos Esperámos Esperámos Esperámos,
«meu mano, vai demorar muito?»,
Esperámos. Só.
De repente - um homem normal, estatura normal, chapéu na cabeça, rápido e solto - entra na sala, olha para todos os lados, «está ali o teu mano», e ele nervoso nervoso nervoso, eu estava a sentir a vibração dele parecia uma telenovela,
«meu mano!»,
«Hum, xé, hum, hi» (silêncio silêncio silêncio), e mais do mesmo «hum, hi», mãos a baterem nas costas e os ombros a encaixarem uns nos outros e a pele de galinha e tudo.
A noite corria num ritmo forte de grande calmaria. É mesmo assim. Um ritmo forte de grande calmaria. Repito para não deixar dúvidas. Não pode haver dúvidas numa cidade como Luanda, e os seguranças são a cara das poucas dúvidas. Como se duvida da integridade moral e civilizacional das pessoas, nomeadamente das mais pobres, toca a contratar seguranças. Adiante. Alguém chega apressado e de telemóvel na orelha. Falava com outra pessoa que está naquele prédio colonial, bonito (mas colonial), lá para a banda do Maculusso. Traz qualquer coisa na mão e precisa de subir a um dos apartamentos, mas a porta do edifício, por segurança, está fechada à chave.
‘Muanza!’. Primeira vez. ‘Mu-an-zaaa!’. Segunda vez. ‘MUANZA!!!’. Terceira vez. Nada se passou. O tal homem, alto e desengonçado, queixo proeminente, bigode e cabelo risco-ao-lado, tinha procurado e berrado pelo guarda. E nada. O receptor da encomenda, que entretanto tinha descido para a apanhar, denunciou Muanza através da porta-de-ferro-fechada-à-chave, informação logo seguida de um movimento elegante do braço, apontando a direcção justa, junto a dois carros que sempre estacionam naquele lugar. ‘Os guardas devem estar a dormir, encostados naquele carro, mesmo à frente dos caixotes de lixo da Elisal, aqueles ali, cor-de-laranja europeia’. O homem desengonçado avança, e apetece adivinhar o que passava pela cabeça dele, naquele preciso momento em que está a pisar o alcatrão já bem fresco.
Ele olha, de soslaio, para o tal sítio junto ao carro. Sorri para dentro – os guardas estão mesmo ali. São três. Dá dois passos atrás. Vai fazer mesmo o que lhe está a apetecer. ‘PUM!’. A descompostura patronal recebida às 21 horas de uma jornada que terá começado pelas 8 da manhã, e as duas horas que gastou para resolver uma emergência, também ela patronal, deixaram-no assim. Descompensado. Desarranjado. Ele tinha acabado de arrear um pontapé “à Eusébio”, perna direita na bola que se vai enroscar na rede quadrada, esburacadamente quadrada. ‘PUM!’. Eram três caixotes do lixo, que chocaram como três peças de um dominó, aquele jogo apreciado pelos guardas, seguranças e taberneiros. Parecia combinado. ‘PUM! PUM! PUM!’.
No segundo seguinte uma reacção em cadeia revelou a incongruência do acto. Uma cidade segura por seguranças seguros não tem alarmes de três carros a tocar ao mesmo tempo, nem pessoas a correrem para a janela, nem caixotes do lixo pontapeados. Nem luzes a acenderem, de forma sincronizada, em toda a vizinhança. Nem pessoas que dormiam, no posto de trabalho, às 23 horas.
Um dos seguranças saiu disparado do ninho, no sentido contrário ao estrondo dos caixotes. Raspou-se, portanto. Outro, o Jorge, estava agachado por detrás do carro-abrigo, só se via a cabeça, ressuscitada de um sonho bonito que certamente estaria bem longe do Maculusso, da insegurança e de um trabalho mal pago. Muanza deslocava-se para ‘a posição’, como ele gosta de dizer. Camisa aberta, esgrouviado, atordoado por um pontapé Eusebiano, qual guardião depois de apanhar com uma bomba do moçambicano cara adentro. Parecia que ele é que tinha sido atingido, não os caixotes cor-de-laranja europeia.
O homem alto e desengonçado gesticula e promete vingança. Não foi possível ouvir a conversa, mas é fácil imaginá-la. Aliás, Muanza costuma repetir ‘nós não dormimos, estamos bem alerta a noite toda’. Está tudo dito - e agora vamos interromper a conversa. Chegou o jantar e Muanza sai disparado, ‘porque o carro que traz a comida, todos os dias à mesma hora, não vai passar mais’. É justo.
Muanza, figura de cinema
Durante os anos 80 e princípios de 90, em plena guerra MPLA – UNITA, ele andava no mercado Roque Santeiro a comprar imbambas para vender nas Lundas’. ‘Ia no Roque, comprava jeans, ténis, roupa, tudo o que as pessoas precisam, empacotava. Tinha um amigo numa agência de viagem que me levava no Antonov, no russo, o Antonov sabe?, para as províncias, e ia lá vender tudo. Passava vários dias fora, a família ficava em Luanda, fiz algum dinheiro’. Tanto que deu para construir uma ‘casa grande grande’, onde actualmente alberga os oito filhos - ‘eram nove’ -, e a mulher. A mais-velha, moça na casa dos vinte anos, ‘já recebeu a carta do pedido, por isso está para casar’. Esta frase Muanza, agora com 49 anos, diz com orgulho, olho brilhante. ‘Os outro sete estão todos comigo, estudam’, acrescenta.
Tem andado doente e por isso perdeu muitos quilos nos últimos dois meses. Em caso de necessidade, não terá arcaboiço para lutar com qualquer ladrão, mesmo que ele seja o brasileiro-brega-anão, aquele, “comé?”, o Nelson Ned. É, nem o Nelson Ned perdia um braço de ferro com o tio Muanza dos dias de hoje. ‘Estou com febre tifóide e paludismo. Mas já me estou a tratar. No final do tratamento vou estar normal. São 94 comprimidos’, explica, com os óculos de haste dourada empoleirados e enviesados, à direita, na sobrancelha, à esquerda, na menina-do-olho, excitado e confiante, agora que a patroa lhe tinha dado dinheiro para a consulta.
Muanza e Jorge são guardas do mesmo prédio, mas de pessoas diferentes. O dia-a-dia deles submete-se a uma rotina quase non-sense. De manhã, cada um deve dizer uns cinquenta e cinco ‘bom dia, sim’. É o trabalho deles, dizer ‘ok, bom dia, sim’. (Pelo meio ouve-se um rádio, jibóia-se e trocam-se ideias). De tarde, o calor aperta e o exercício é deveras estimulante – encontrar a melhor sombra ‘para descansar depois do funje’, como diz Muanza. Passam do passeio oposto à entrada do prédio, para depois se sentarem debaixo da pala da entrada do prédio, para finalizarem o dia nas arcadas junto da galeria comercial. Chega a noite e aqui é fácil – pitar e dormir.
Então e os ladrões? ‘Estou aqui como segurança há 5 anos e só por uma vez houve maka com bandido’, começa por dizer Jorge, o mais experiente de todos. ‘Fui o primeiro guarda daqui’, repete de forma profundamente concisa e, até certo ponto, orgulhosa, olho bem aberto na cara redonda e marcada pelo tempo, pelas peripécias de uma vida pouco fácil. ‘Naquele dia havia umas motas grandes dentro do prédio, os bandidos quiseram entrar’. Desconseguiram. Jorge chamou a polícia e depois de muita discussão eles desapareceram.
Como quase todos os guardas da cidade (digamos melhor, ‘como quase todos os homens da cidade’) Muanza e Jorge têm um passado ligado à guerra e à vida militar. ‘Ah, eu estive no mato mesmo, com as FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola), sei ver bem longe um bandido – se tem arma ou se vem com intenção de roubar, eu já estou a vê-lo’, afirma Jorge. Muanza é mais tranquilo e da guerra só fala dos ‘6 anos passados no Lubango, a lutar contra os sul-africanos. Eles só atacavam com aviação, sabia disso? As bomba saiam do cú do avião cá para baixo!, os cubanos tinham radares e binóculos, foram a nossa salvação’.
Muanza, alegoria anti-bandido
Jorge vive na Estalagem, pouco antes de Viana, subúrbio desenfreado de Luanda. Lá é que estão os bandidos. ‘Ah, tem muito bandido mesmo, ainda ontem bateram na minha porta – querem levar tudo, aparelho, rádio, antena, dinheiro. Ainda há os seguranças que parecem bandidos, a própria polícia também é bandida e nas áreas difíceis nunca aparece, não gira e não vê nada, nunca’.
Manuel, 33 anos, é guarda de uma pastelaria que não tem cadeiras, nem mesas, nem bolos, nem Cuca, sequer. Ainda não abriu, mas já tem segurança. É no Alvalade, uma das zonas nobres de Luanda. Em frente à pastelaria tem uma casa, de um qualquer general que possui uma gazela fechada no quintal. Se calhar foi o mesmo que o ameaçou quando estava de serviço num condomínio privado, perto da Samba.
- Sai da frente senão vou-te bater e levar na unidade. Abre o portão!
- Senhor, todas as pessoas que queiram entrar têm de se identificar. De seguida eu vou perguntar à pessoa a quem se dirige, para saber se o conhece, se está à sua espera. Só depois pode subir.
- O quê?! Você não sabe quem eu sou?
- Não meu senhor, não sei.
Manuel foi obrigado a telefonar para o administrador do prédio, e foi ele que resolveu o problema. ‘Quando o general bazou, me deu uma olhada! Xé!’. Tem dois filhos e mora para a banda do Morro Bento, zona sul da cidade. ‘Ah, lá é Centro de Bandidagem mesmo, celular?, eh!, é bom para bandido’. Na ‘posição’ em que se encontra, lá no Alvalade, o dia passa-o como todos os outros seguranças da cidade. ‘Ok, bom dia, sim’. ‘Ya, boa tarde, sim’. ‘Obrigado, obrigado’. Sentado numa cadeira de plástico branco, daquelas bem agradáveis numa esplanada virada para o mar.
No Maculusso a luz passou de baça e amarelada, quase chinesa, para a ausência total. Está escuro. O trânsito desapareceu, as pessoas também, apenas alguns jovens escorregam Luanda fora, noite fora, Cucas fora. Por volta das zero horas os dois únicos carros que circulavam nas imediações da Liga Africana beijaram-se. Boca com boca, violentos, quase loucamente apaixonados. Apaixonados demais – deu bronca, deu estoiro e travões a fazerem de reco-reco e chapa com chapa. Vermelha contra cinzenta.
- Não diz porra, tá a ouvir? Ele tem a culpa, e da próxima vez que este jovem disser porra eu vou-lhe dar!, berra um dos condutores na direcção de um daqueles mirones que logo surgem debaixo das pedras, quais lagartos à espera da presa ideal.
Os intervenientes e os ‘lagartos’ discutiram, gritaram, a energia da rede foi e voltou, apareceu a polícia. Bazaram, voltaram todos e voltaram a bazar. Fizeram barulho, ameaçaram-se. Muanza nem se mexeu. Continua enroscado nele mesmo, posição fetal, junto dos carros estacionados em frente aos caixotes cor-de-laranja europeia, provavelmente a sonhar com o dia do casamento da filha mais-velha.
(nota: este texto é uma 'reportagem' - não ficcionado, portanto)
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Interregnos
2 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Wednesday, June 27, 2007 at 3:49 AM.Luanda-maracujá
(Sorrisos leves em dias de quentura e desleixo. É assim. Vida mulata, ou não, pessoas vivem. ‘Mas vivem sempre’, dizem os pragmáticos, ‘enquanto estamos vivos, estamos sempre a viver e esse nem é um bom mote para uma história boa, seja ela qual for’. Os pragmáticos, segundo o brasileiro e escritor e cronista-quase-génio Nelson Rodrigues, procuram a objectividade, aquele conceito que é tudo e não é nada, insensível, porque a objectividade é isso mesmo: um objectivo (a não ser cumprido, de preferência). Tal como todas as histórias. Tal como o Mundo. Tal como a vida – todas as vidas são boas histórias, mesmo as de maracujás, mesmo que sejam tudo e nada, sem futuro e sem peripécias e sem objectivos, quase como um fruto pendurado na árvore uma vida inteira, até cair esborrachado ao lado das formigas e dos lagartos.)
Girar e arrancar do galho
Dona Jamélia, 33 anos feitos ontem, era a cara chapada do filho, ou vice-versa, o pequeno Zinho, de 5 anos. Passavam a vida no alcatrão-cimentado que no Verão parece plasticina. Vendiam maracujás. Amarelos, grenás, de cor mais bordeux, não interessa. Eram coloridos, pronto. Tinham muitas cores, que, curiosamente, não acompanhavam o dia-a-dia e o estado de espírito daquele casal, mãe e filho, tranquilos e empoeirados, refastelados e pobres.
‘O pai?’ franzia Jamélia as sobrancelhas quando lhe perguntavam por Artur-pai. O filho era Zinho, de Arturzinho, nome de registo. ‘Hum, desconfirmou, e coiso, vazou’, atirava logo de seguida, sem engolir nem um pouco de oxigénio, e sem um bocadinho assim que fosse de saudade, acompanhando a frase com um leve movimento manual, indicativo.
Eram só os dois. (Aliás, seriam três. Os maracujás fazem parte da vida desta mãe e deste filho.) Não se pense que vendiam maracujás para não vender banana ou abacaxi ou batata-rena, isto não lhes era indiferente. Jamélia é uma moça inteligente, sensível, bonita, ui, para lá de bonita – mas ‘deseducada’. Mal saberia ler. Contas, eram uma desgraça. Enganava-se, repetia-se, perdia-se. Tinha crescido sem escola, só na escola dos homens e das amigas e das tragédias todas de um país e de um continente sem fôlego.
Precisava respirar um ar mais puro e justo. É assim com todas as pessoas e com todos os maracujás, até: para sermos justos, precisamos conhecer a justiça; para sermos limpos necessitamos saber o que é a limpeza, o asseio; para apanhar o fruto da árvore, é preciso saber o que é deitar a mão, arrancar qualquer coisa de um qualquer sítio. Esta não é uma conversa moralista, nem profunda, sequer. Podemos todos ser inteligentes sem ser educados e sem saber comer com faca e garfo, sem beber vinho nos copos de cristal em forma de balão-de-chiclet.
Jamélia era assim – cuspia no chão, não tinha meias palavras (quando ofendia era de fodido para cima), terminava quase todas as frases em ‘coiso’, palitava os dentes, não bebia vinho (só Cuca, e pela garrafa), não tinha o cubico a brilhar, até porque seria impossível. A terra vermelha é sempre baça e aquele quadrado rodeado de chapa e cartão-mais-pó não tinha remédio. Ela também não se importava. Pronto, era deseducada mas inteligente.
(Era era. Ela olhava os maracujás, observava-os com atenção, horas a fio, dias inteiros, dias em que quase não os vendia, inebriada e pensativa.)
A sabedoria de Jamélia seria metafórica, exactamente assim, metafórica e sem maquilhagem – de tão pura, tornava-se uma quase santa. Uma mulher de metáforas, que as debitava num estado semi-inconsciente, semi-educada, semi-maracujá. ‘O meu palácio di lama’, era como se referia, grossa e sempre jocosa, à sua ‘vivenda’ no bairro do Golf, subúrbio da Luanda dos nossos dias. Uma cidade à procura de o ser, à procura de mais uma chance, de uma oportunidade para ser maior e mais bonita e justa e tudo isso que as cidades boas são. Esta, que nos serve de pano de fundo, cresceu cresceu e cresceu mas nunca passou do complexo de Édipo – foi elaborada na barriga de uma Lisboa que também já não existe, e nunca saiu daquela caixa de ar, segura da guerra, dos tiros e da luta fratricida.
(‘Amor de mãe’ – dá para tatuar este cliché, com âncora e tudo, num dos braços da cidade.)
Enfim, a Luanda, Jamélia deu o apelido de ‘Cidade dá justiça’. Porque era aqui que tinha feito justiça e arrematado um belo pontapé-no-traseiro do pai do Zinho. O seus pensamentos não eram rebuscados, e era mesmo por isso que seriam interessantes. As amigas-colegas destravavam-se em gargalhadas, rebolavam e riam. ‘Dá justiça! Xé, justiça quê? Justiça dessa nem na novela das 20, moça. Esses cabritos só roubam o povo, é só sofrer sofrer, sofrer bué. Que vida fodida, sem kumbú, sem energia, sem água, sem escola, ah Jámélia não brinca mais assim’.
(Pois é, levavam os dizeres de Jamélia a sério, não os transpondo para a vida de cada uma delas - descontextualizadas como eram, assemelhavam-se a um editor de jornal sem editar notícias. Passava tudo em seco, incoerente e inconsciente. Sim, ela brincava mas entregava-lhes a sabedoria, todos-os-dias-menos-Domingo, naquela esquina do Largo da 'Oliva' com as arcadas dos Registos Centrais.)
Tirar a faca do bolso, abrir o maracujá
Tinha uns olhos castanhos, cor de bombom. Condizia bem com a sua pele, leite com carradas de café. Mas Jamélia era uma espécie de feiticeira, mãe de todas as verdades. Quando vendia maracujás, o pregão era mais ou menos assim:
- Moça, pssst moça! Não queres levar a nossa cidade? Leva só… 500!, 500 Kwanza!
Trabalhava enquanto esticava aqueles cabelos difíceis mas de beleza singular. Jamélia também não fazia por menos. Enquanto os maracujás amadureciam ao sol quase fulminante, ela ia tratando da sua imagem. Chegava a ficar com meia cabeça em trancinhas, perfeitinhas e bonitinhas, e outra meia de cabelo electrificado, espigadão e mal-encarado. Isto de manhã, porque por volta das 12, não, 13 horas, esticava o pano verde, (vermelho, rabiscado, azul-forte e azul-claro), das crianças e jibóiava só.
(Aquele pregão não era normal.) ‘Ai é?’, pensavam os transeuntes quando ouviam a dona. Alguns. Outros esbugalhavam os olhos, surpresos. Mas a realidade é esta: quem se iria empertigar com uma oferta daquelas? Quem comprava maracujás nem se questionava, nem discutia com a kitandeira. (A não ser o preço.) Pagavam e pronto.
Jamélia também não era, sejamos coerentes e verdadeiros, uma pessoa extrovertida. Os diálogos com os clientes, por exemplo, roçavam o monocórdico:
- Bom dia mãe. Dá-me 500 de maracujá, ya?
- Hum Hum. Zinho, vem praqui, não faiz isso. (O ruído de fundo, bip bip, vruuuuum, bip bip, ‘ó senhor!’, e os escapes abertos quais assassinos de pistola-com-silenciador também não eram propícios a grandes debates.)
- Zinhou! Já te falei e coiso, não faiz isso porra!
- Dona, porquê dizes se não queremos ‘levar a nossa cidade’?
- Ah, é maneira de falar uê?
As conversas seguiam sempre o mesmo caminho. (Muitos consideravam Jamélia um ser perdido, sem rumo e desfigurado – as pessoas passam a ser ‘loucas’, logo, automaticamente. Basta o contexto ser desfavorável e a mensagem pouco credível.)
Comer o maracujá
- Zinhou!, toma o coiso, vais comer já!
Jamélia estende a mão e despeja na boca de Zinho mais um maracujá.
- Filho, bebe um pouco da nossa cidade. Está a ver, tem semente, muita semente. Tem vida. Tem cor, mas alguns estão apodrecer, velhos, desmotivados. Num parece uma coiso, hum, uma cidade qualquer?
(Zinho bebia, só. Não atendia ao processo de libertação metafórica em que a mãe se encontrava, sozinha na rua, sozinha num mundo achatado, de cabeças achatadas e corações achatados.)
À volta daquele casal, mãe e filho, todos se comportam como citadinos, como frutos de uma árvore que já deu muitos rebentos, que depois se transformaram em galhos e que deram folhas e flores e frutos. E foram comidos e outros caíram de podre, no chão sujo da poeira vermelha, branca, cinzenta-escura e outra vez vermelha, mas baça ainda e sempre, quase descolorida. Outros foram trespassados por mosquitos e melgas e moscas e abelhas, que ferram tudo o que for doce e comestível, belo mas enjoativo, quase um misto de pato-à-pequim com mufete e vinagrete e mandioca e tudo o resto, acre doce tropical e doce, outra vez e a dobrar.
É isso, Luanda é quase um barco à deriva, enjoado, saltitante e desencorajador, bonito como a dureza de um mar azul que se perde de vista. Nojento, porco e malcriado e mal-amanhado, mas caramelado, com moças carameladas, com um sol caramelado (e, por vezes, acre e forte mas saboroso) e pessoas carameladas e arrrrgh, às vezes áspero e sensaborão e bonacheirão, sem pinta e sem estilo.
Jamélia é, ela própria, a metáfora que guia o candongueiro da vida.
A metáfora que pode ser transposta para um maracujá qualquer – uma mulher de trabalho, com filhos, com problemas e desequilíbrios. Um fruto por amadurecer, que depois de maduro não dá em nada. Falta-lhe uma boca boa para trincar, uma vida para amar – circular, endémico, doentio e palpável. Os maracujás, pendurados no galho como se estivessem debruçados no parapeito das varandas-quase-corredores, típicos de uma época de arquitecturas arriscadas e de injustiças para lá de arriscadas, nascem, desenvolvem-se, reproduzem-se e morrem.
(Jamélia, ao olhar anos a fio para aquelas bolas que parecem rostos – marcadas com buracos de acne e covas de expressão, marcas da vida e das sementes que fizeram crescer outras sementes e outros rostos – via elementos que só ela descortinava. Só uma mulher poderia engendrar uma cidade tal qual um fruto, uma vida. Instintivamente, Jamélia sabia que havia uma ressalva: ao contrário das vidas de nós todos, as cidades, esta cidade, esta Luanda-maracujá, não pode morrer, nunca.)
(também publicado em http://www.cidadepossivel.blogspot.com/)
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Luanda
Legenda: Hotel Panorama, Ilha de Luanda. Chegou a ser um dos bons hotéis da cidade (diz-se, porque eu nunca lá entrei, nem "hoje", nem "ontem"), actualmente talvez caricature a transformação de uma cidade à procura de si própria, da sua "cara" e do seu destino.
Curiosamente, o destino do Panorama já está traçado: ou rejuvenesce, ou desaparece. (Tal como a própria cidade, diria.)
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As lambadas d'Os Lambas (made in Super Bock Super Rock, Luanda 2007)
(Os meus olhos são aquilo que observo. Eu sou o que os meus olhos me deixam ver.)
Sozinho, desci às "feras" - muitos alertavam-me, «no relvado é perigoso, vais ser o único branco lá em baixo». E era mesmo. Facto: "feras", só no circo. "Os Lambas", grupo de kuduristas made in Sambizanga, entraram em palco e a vibração mudou, quase como se tivéssemos mudado de canal, de frequência. Houve quem tivesse lá ido apenas para os ver, muitos sabiam as letras na ponta da língua. (Entretanto, na Bancada VIP, comiam-se rissóis, bebia-se cerveja à pala, e falava-se de negócios e negociatas - música, zero).
Os olhos (sempre eles), naturalmente, arregalavam-se com a minha presença, espantados, primeiro, divertidos, depois. Senti-me em casa. O ambiente estava ao rubro, muitos pareciam extasiados com a mistura Super Bock-Lambas-calor-festa-kuduro. Posso garantir que, nem que seja um bocadinho assim, muito pequeno, aquela noite mudou a minha vida.
Deixemo-nos de tangas: o preconceito é um mal que tem fodido a cabeça das pessoas.
Tudo é preconceito. A côr, o cheiro, a cabeça, a roupa, a casa, o país, o continente, o Mundo, a puta-que-os-pariu. Talvez sejam mecanismos de defesa, numa opção social do género «se eu estiver longe de certas atitudes, estou bem». Também há uma dose grande de má-vontade: não queremos conhecer os outros, aqueles que serão diferentes de nós mas que, no fundo e por uma questão de princípio, são pessoas. Pessoas. Pessoas, porra.

Chuva em Luanda, 22.01.2007
«Estas são algumas imagens dos efeitos das chuvas em Luanda, há uma semana.
Enquanto aqui morreram quase cem pessoas, milhares ficaram desalojadas, Luanda transformou-se numa ilha, pontes cairam, estradas foram engolidas, as comunicações ficaram (e continuam) intermitentes, crianças desapareceram, a cólera reaparece em força, etc, etc, etc, aí reinava a ignorância sobre o que por cá se passava.
É nestas alturas que um gajo reafirma aquela certeza que, para Portugal, Angola, este "país irmão", não passa de uma máquina de fazer dinheiro. O resto é pretalhada.»
Interregnos
0 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Tuesday, January 02, 2007 at 3:53 PM.«O surgimento do Belas Shopping representa bem este momento [económico], já que um shopping é o maior símbolo de desenvolvimento e modernidade para uma cidade.» in Angola Acontece
Se assim for, estamos mal.
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Foto Reportagem
5 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Friday, December 22, 2006 at 11:52 AM.(bom) Natal




Mussulo, Província de Luanda, dias 19, 20, 21 e 22 de Dezembro de 2006
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Makuluso*
2 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Sunday, December 17, 2006 at 5:09 PM.
* Bairro central de Luanda cidade e que será a minha morada nos próximos tempos.
É uma artéria buliçosa, com alguma actividade comercial (kitandeiras são aos magotes, alguns supermercados, restaurantes e um ou outro café) e bastante central.
Aqui como lá (na Tuga) o centro da cidade é uma rotunda, o Kinaxixi, que se situa a algumas centenas de metros.
Na imagem, está o edifício (claramente colonial, como, aliás, toda a parte velha da cidade) da Liga de Solidariedade Entre os Povos Africanos. O que é que se faz por lá?
Boa pergunta.
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