Última Curva
3 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Wednesday, July 15, 2009 at 5:05 AM.
"Os jornais não perdem circulação porque as pessoas não gostam de ler. Os leitores não gostam de ler textos ruins e, por isso, deixam de ler jornais nos quais não há vez para boas histórias." Marcelo Rech, diretor de redação do jornal "Zero Hora", Brasil.
É como os blogues. E este morreu.
Agora. Pá!
(até ouvi o estalido do último prego a ser martelado no caixão, ao fundo escutam-se chinguilamentos vários, ai ué mamã ué, mamã, ai mamã, ai!, ué mamã ué, enquanto alguns molham os lábios em cerveja e vinhos pouco distintos, enquanto outros ainda descansam as mentes a recordar histórias de vidas e vidas sem história)
É como os blogues. E este morreu.
Agora. Pá!
(até ouvi o estalido do último prego a ser martelado no caixão, ao fundo escutam-se chinguilamentos vários, ai ué mamã ué, mamã, ai mamã, ai!, ué mamã ué, enquanto alguns molham os lábios em cerveja e vinhos pouco distintos, enquanto outros ainda descansam as mentes a recordar histórias de vidas e vidas sem história)
[Amin Maalouf] esgotou o Auditório 2, o átrio onde foi montado um ecrã, e a escadaria. As perguntas partiram do seu último livro, “Um Mundo Sem Regras”, acabado de traduzir na Difel.É um diagnóstico arrasador quanto ao esgotamento em que o mundo mergulhou. À tese do conflito de civilizações, Maalouf contrapõe a união numa só civilização como única hipótese de sobrevivência. Fala das mudanças climáticas, da crise económica e da crispação das identidades, que divide os homens em tribos. Depois de falharem comunismo, ateísmo, capitalismo, e religião, o século XXI, diz, será o da cultura ou não será.
Este livro apela à urgência. Defende que não há várias civilizações, só uma, e chegámos a um ponto em que morremos juntos ou nos salvamos juntos. É pessimista, mas há passagens em que o pessimismo parece mudar. Decidiu fazer o livro antes de Obama e entretanto Obama apareceu?
Exacto. Comecei a trabalhar neste livro em 2004. Li muito, sobre as mudanças climáticas ou o Iraque. E tinha a sensação de que as coisas estavam realmente a ficar más em muitos níveis.
Depois da reeleição de Bush?
Depois da reeleição foi ainda mais evidente. Mas há 10 ou 11 anos, quando escrevi As Identidades Assassinas, já sentia que as coisas estavam erradas. A seguir houve o 11 de Setembro, e a resposta da administração Bush criou uma situação realmente preocupante: Guantánamo, a presença no Iraque, todo o comportamento dos EUA. Não me opus totalmente à intervenção no Iraque. Tive sentimentos ambíguos. Por um lado, não gostava da construção de pretextos e daquela pressão sobre toda a gente: "Têm que alinhar connosco." Ao mesmo tempo, uma voz dizia-me: "Bem, se eles se livrarem de Saddam Hussein, talvez as coisas comecem a mexer-se neste Médio Oriente que não está a ir a lado nenhum..." E ainda penso que se os EUA se tivessem portado de forma diferente depois da guerra, se tivessem agido cautelosamente, tendo em conta os interesses verdadeiros das pessoas, tentando conduzi-las à democracia e à prosperidade, as coisas poderiam ter sido diferentes em toda a região. Mas começou a correr realmente mal. Então, demasiadas coisas estavam a correr mal: o Iraque; a questão das identidades e da coexistência; a relação do Ocidente com o mundo árabe e islâmico. E havia o problema das mudanças climáticas. Sentimos que é possível lidar com todos os outros problemas, mas esta bomba-relógio climática, de irmos rumo a algo irreversível se não mudarmos o nosso comportamento... Era preciso dizer que as coisas estão más, que tudo isso tem a ver com a incapacidade de ter em mente toda a nação humana, que já não é possível que cada um lute pelo seu interesse contra os outros. Depois, durante a escrita do livro, muitos acontecimentos vieram confirmar que as coisas estavam más. Em muitos países europeus a coexistência com os imigrantes não funcionava. E no fim há um verdadeiro raio de esperança, uma pessoa.
Obama.
Li os livros. Vi e ouvi os discursos. E ele não estava a falar ao instinto, estava a falar à razão. Só uma pequena minoria de políticos fala à razão. E essa é a verdadeira atitude democrática. Tentar convencer em vez de manipular. Desenvolver argumentos. Senti que intelectualmente e eticamente ele estava a um nível muito alto. E não fui indiferente ao seu background, porque é importante, sobretudo depois dos anos Bush, ter uma pessoa nos EUA com a qual o mundo se possa identificar. É essencial. E miraculosamente ele veio.
Isso reflecte-se no processo de ler o seu livro. Há passagens no princípio em que diz: as coisas só podem melhorar se a América perceber o que aconteceu no Iraque, se persuadir o mundo da sua legitimidade moral, etc., etc. Pequenos sinais que chamavam por alguém como Obama.
Absolutamente. Tinha todo um capítulo acerca do Presidente americano ser eleito pelos americanos mas ter jurisdição em todo o mundo.
A questão da legitimidade.
Sim. O mundo não podia identificar-se com aquelas pessoas eleitas, e de repente pôde. Foi fascinante.
O mundo não votou, mas celebrou.
Não votou fisicamente, mas na realidade votou. Não sei se alguma vez voltaremos a experimentar isto. O sentimento era: "Esta pessoa também nos representa. OK, está a ser escolhida pelos americanos, mas nós também a escolhemos." E é isso que é tão perturbador. Vivemos uma experiência muito precisa com uma pessoa, com um background particular, e havia esta convergência entre a América o mundo...
Está a dizer que se Obama falhar...?
... então o quê? É uma tragédia para a América, para o Ocidente e para o mundo. Se Obama conseguir o que pretende, terá enorme impacto na evolução do mundo. Se conseguir reconciliar o Ocidente com o mundo árabe e islâmico, e o mundo árabe com o mundo judeu; se começar um verdadeiro processo de reverter as mudanças climáticas e o aquecimento global; e se resolver a crise económica, que ao mesmo tempo é a mais difícil e a menos difícil das três tarefas. Esperemos que seja bem-sucedido. Sobretudo a reconciliação mundo árabe-Ocidente e as mudanças climáticas. Se conseguir isto, conseguiu o mais importante.
No seu diagnóstico sobre o estado do mundo começa por falar do resultado da Guerra Fria. O Ocidente venceu mas acabou por ficar mais fraco. China e Índia tornaram-se potências económicas. Houve uma passagem da ideologia para a identidade e o islão político [aliado do Ocidente na luta contra a URSS] saiu fortalecido. O choque do 11 de Setembro foi a revelação do verdadeiro resultado da Guerra Fria? Do que o Ocidente não soube resolver?
Absolutamente. Há três momentos importantes. No fim da Guerra Fria entrámos numa nova era, cheia de esperança, mas que precisava de ser abordada de forma muito responsável - tínhamos que construir algo. O 11 de Setembro foi o sintoma que revela que não conseguimos - devíamos ter construído todo um outro tipo de relação entre as nações, deixámos as identidades florescer, o mundo islâmico estava à deriva. O 11 de Setembro veio como sintoma de uma doença e depois veio o remédio.
A "Guerra Contra o Terror".
Que em vez de curar o doente agravou a situação.
Por ter reforçado a divisão do mundo?
A América portou-se depois do 11 de Setembro como os autores do 11 de Setembro esperavam. Foi uma provocação destinada a deixar que a América antagonizasse grandes partes do mundo. E foi exactamente o que a América fez. No dia em que os ataques aconteceram, 99 por cento do mundo estava com os americanos. Eles deviam ter conduzido o mundo a algo diferente. (...)
E era um espelho da visão do mundo que o islão político tem.
Era exactamente o que os inimigos da América esperavam. Uma vez ouvi Donald Rumsfeld responder a perguntas na TV. O jornalista perguntou-lhe se pretendiam respeitar a Convenção de Genebra e ele respondeu: "Respeitaremos mais ou menos." É chocante ouvir o representante da melhor democracia do mundo dizer que respeitará mais ou menos a legalidade. O dever de um governo democrático é dizer: "Nós somos os guardiães da legalidade internacional." Se diz que está disposto a não respeitar as regras, toda a gente fica ao mesmo nível.
Como um segundo ataque à América, forçá-la a descer o nível moral.
A provocação era essa, fazê-la portar-se de modo a ficar mal. Então, a primeira data importante foi o começo da nova era depois da Guerra Fria. A segunda data foi o 11 de Setembro, sintoma de que a nova era não estava no bom caminho. E a terceira data foi 2008.
A correcção: Obama.
Exacto.
Na sua análise, diz que o Ocidente nunca conseguiu decidir entre civilizar e dominar, nunca levou o melhor que tinha - valores humanos e prosperidade - aos países que colonizou, e essa incapacidade criou uma falta de confiança que afecta as relações do Ocidente com o resto do mundo. Vemos isso até hoje, por exemplo no Afeganistão. A Europa é a guardiã dos melhores valores que a humanidade concebeu e falhou em estendê-los aos outros.
O meu ponto de partida é o de quem está dentro do retrato. Tenho relações com duas culturas [europeia e árabe]. Tento uni-las, construir pontes. E nos últimos anos tenho a sensação profunda de que as minhas duas culturas estão no mau caminho. Quando estou sentado na Europa e vejo o comportamento do mundo islâmico e árabe, fico profundamente chocado com muitas coisas. E quando me sento no mundo árabe e islâmico, há atitudes muito chocantes no Ocidente. A maioria das pessoas não vê isso dos dois lados.
Por isso, aqui, será importante focarmo-nos no que os leitores ocidentais não podem ver.
Claro que o Ocidente espalhou ideias, mas isso é sobretudo mítico, não é real. Claro que houve disseminação da democracia, mas isso não foi feito de forma que as pessoas sentissem: "Vocês trouxeram-nos democracia." Na Argélia ou na Índia, as pessoas souberam da democracia por olharem o Ocidente, mas sempre que o Ocidente foi ao país deles não tentou favorecer a democracia. Antagonizou os que estavam mais prontos para a modernidade. França, por exemplo, proclamava a separação do Estado e da religião. Ao mesmo tempo, na Argélia, chamava aos habitantes "franceses muçulmanos". A única razão para isso era não lhes querer dar direitos completos.
Manteve-os confinados à sua "tribo".
Privou-os de cidadania, de facto. Se votassem, talvez tivessem tido um papel maior. E isto é algo que as pessoas não esquecem. Portanto, quando os franceses dizem: "Trouxemos democracia à Argélia", não é verdade. Os ingleses não trouxeram democracia à Índia. Os indianos olharam a democracia inglesa, aprenderam coisas dos ingleses, tentaram aplicar o que achavam admirável, mas isso teve de ser conquistado, e o comportamento dos ingleses foi limitar a liberdade de imprensa, oprimir as pessoas, forçá-las a comprar isto e aquilo. Toda a história do colonialismo é uma história de opressão e de humilhação. Em França dizemos muito que espalhámos saber. Não é verdade. Veja o número de pessoas com diplomas em África no fim da colonização francesa. Quantos médicos havia? Muito poucos. E isso é verdade para os portugueses, para os ingleses. O papel de trazer civilização, modernidade e conhecimento foi abafado pelo desejo de dominar, e dominar eternamente, não dar oportunidade às pessoas de serem independentes e se governarem. Encontrei uma citação de Samuel Huntington, logo ele [o autor de O Choque de Civilizações]. Diz claramente que o Ocidente dominou o mundo não pelo conhecimento mas pela superioridade militar. Os ocidentais tendem a esquecê-lo, mas os outros nunca esquecem. Até porque, como disse, isso ainda não acabou. Não há razão para que 250 cerimónias de casamento tenham sido bombardeadas no Afeganistão. Devia haver um respeito pelas pessoas com quem se lida. Se não nos portamos assim no nosso país, porque nos portamos assim no Afeganistão ou no Iraque? Porquê disparar sobre um carro onde vai uma família? Não podemos ir a um país, tomar-lhe o destino nas mãos e portar-nos assim.
Acredita que a democracia é para todos. Acha um erro dizer que o Iraque não quer democracia quando os iraquianos fizeram filas para votar entre ataques suicidas. Mas há quem continue a defender que islão e democracia são incompatíveis.
Há uma atitude no Ocidente que é dizer: "Ah, o problema dos americanos foi tentarem impor a democracia a um povo que não estava preparado para ela." Acredito firmemente no contrário. Os iraquianos queriam democracia, esperaram prosperidade, paz, modernização, e os americanos não trouxeram nada disso. Todos os dias ouço essa atitude no Ocidente: "Sabe, essas pessoas são assim, nós também éramos, com o tempo as coisas mudarão." É a atitude de considerar que não precisamos de ter princípios quando atravessamos o mar, porque respeitamos a especificidade. Isto é profundamente hipócrita. Não é verdadeiro e é contraproducente. A aspiração das nações, das pessoas em toda a parte, é praticamente a mesma. As pessoas querem viver melhor, querem vidas melhores para os filhos, mandá-los para a escola. Em toda a parte querem viver com dignidade.O que acontece às vezes é que não lhes é dada alternativa. Há um ditador e a forma de as pessoas se organizarem é a religião. E todo o discurso se desenvolve a partir daí. Quando a verdadeira aspiração não é essa. Não penso que haja no islão algo que impeça as sociedades de se tornarem democráticas, modernas, avançadas. Precisamos de olhar para "o outro" como um vasto mundo de diferentes línguas, tradições, crenças. Há países islâmicos com eleições abertas, por exemplo, hoje mesmo, a Indonésia. A vasta maioria dos indonésios não vê contradição entre democracia e crença, e é a mais populosa nação islâmica do mundo. Isto pode acontecer em qualquer lado. A Indonésia teve uma mulher presidente, o Bangladesh, o Paquistão, a Turquia tiveram mulheres primeiras-ministras. Podemos empurrar as pessoas para o pior de si, mas é mais responsável empurrá-las para o melhor. Se resolvermos o problema do Médio Oriente e as relações entre Ocidente e mundo islâmico, talvez as pessoas mais teimosas fiquem isoladas e não sejam capazes de mobilizar massas.
O melhor que podemos tirar do desastre do Iraque é nessa direcção? O diagnóstico que faz é de catástrofe. No seu livro diz: claro que a América ultrapassará o trauma do Iraque, mas o Iraque não ultrapassará o trauma da América: 700 mil mortos, minorias milenares desaparecidas para sempre. E uma das razões foi esse confinamento das pessoas a uma tribo, a uma identidade. Temos sinais de que a América começou a aprender as lições do Iraque?
Quando ouço o que Obama diz, estou convencido de que ele realmente percebeu tudo. Ele sabe que é muito perigoso jogar com este tipo de rivalidade de comunidades, porque quando se começa não se consegue parar. Mas não estou certo de que o comportamento dos EUA e do Ocidente mude. As visões são as mesmas. Por exemplo, dizemos que o conflito entre xiitas e sunitas nunca devia ter sido incendiado, e as pessoas respondem: "Ah, mas isso é um conflito com 1400 anos." É verdade. Mas há muitos conflitos em todo o mundo em fase latente, e a habilidade política está em impedi-los de se transformarem em verdadeiros conflitos. Todo o fim da governação é impedir os conflitos potenciais.
O que achou do discurso de Obama ao mundo muçulmano? Ele fez um mea culpa em relação ao derrube do Governo democrático de Mohammed Mossadegh, no Irão, em 1953.
O que ele disse sobre o Irão foi cautelosamente medido: fizemos erros. Quantos americanos sabem e se importam com o que aconteceu no Irão em 1953? Não muitos. Mas para os iranianos ainda hoje é importante. Custou milhões de vidas. Eles não ultrapassaram esse trauma. Tinham um líder popular que só queria uma parte justa da riqueza do país.
Metade do petróleo.
Ele pediu metade e [os ingleses] queriam dar-lhe 5 ou 10 por cento. Algo humilhante. Foi eleito, era um homem aberto, secular, educado na Suíça, e foi humilhado pelo Ocidente quando era a pessoa mais próxima dos ideais do Ocidente. Houve um golpe de Estado, hoje sabe-se, organizado por americanos e ingleses, e não se pode esperar que os iranianos tenham esquecido isto, porque afectou a vida deles durante décadas.
E teve impacto na revolução islâmica de 1979, que cobriu como repórter. Como é que esse golpe de 1953 estava presente?
Está sempre presente. Há coisas que as pessoas não esquecem, porque ainda as afectam, não são o passado.
E Obama estava a dizer isso aos iranianos.
"Fizemos erros, derrubámos um governo eleito democraticamente, também somos culpados." Também falou de comportamentos indesculpáveis dos iranianos. Foi uma aproximação muito decente. Provavelmente será ouvida um dia.
A recente revolta nas ruas do Irão podia ter acontecido sem esse discurso de Obama? Quando ele estava a dizer isso, não se estava a dirigir às ruas?
O que está a dizer é algo que me passou pela cabeça e surpreende-me que poucas pessoas tenham pensado nisso. Acho que o que ele disse foi instrumental em fazer as pessoas agir. Ele disse as palavras que podiam reconciliar. As pessoas no Irão querem ouvir essas palavras, e estão satisfeitas com elas.
(...)
Obama ouviu críticas por não reagir de imediato à revolta iraniana nas ruas, e isso é realmente surpreendente. Porque o silêncio dele era muito inteligente. Os iranianos nas ruas sentir-se-iam divididos se Obama tivesse falado.
Tem toda a razão. O único argumento da actual liderança é dizer: vocês são os instrumentos da América.
E as pessoas não querem sentir que são isso.
A ideia de Obama foi dizer: "Deixem as pessoas fazer o que têm a fazer e mantenham-se em silêncio, é a melhor maneira de ajudar." Infelizmente, a maior parte das pessoas não entende isto. Não está realmente preocupada. Reage como costumava reagir. E quando reage assim, infelizmente, nem o presidente dos EUA se pode manter calado. Ele não podia explicar que o que estava a fazer era o que devia ser feito para ajudar estas pessoas, sem serem acusadas de ser manipuladas por ninguém.
Como lê o que aconteceu no Irão? É irreversível? É o início de uma revolução?
A noção de legitimidade é muito importante. E o que aconteceu foi que o regime iraniano perdeu a sua legitimidade. Poderá ficar no poder por algum tempo mas não creio que possa recuperar a sua moralidade. O melhor que pode ser feito é evitar interferências. Deixar as pessoas reagir ao seu ritmo e não as misturar com alguma intervenção estrangeira. Há um paralelo entre o Verão de 78 e o que aconteceu agora. Em 78, a revolução começou quando as pessoas foram para a rua e foram reprimidas. Aconteceu muito depressa, então. Não penso que agora seja assim. Mas é evidente que a aspiração do povo iraniano é a outra coisa. Eles não pensam que o actual regime lhes possa dar liberdade, prosperidade, progresso, mas querem dignidade. Portanto se alguém vem e diz "nós fizemos erros, vocês fizeram erros", acho que as pessoas estão prontas. O meu feeling é que provavelmente, naquela parte do mundo, o povo iraniano é o que está mais perto de construir um estado moderno e secular. Penso que há uma verdadeira aspiração a isso. Por causa do que aconteceu positiva e negativamente nos últimos 30 anos. Este regime deu-lhes dignidade como nação e ao mesmo tempo revelou-se opressivo e ineficiente. As pessoas precisam da dignidade mas sem opressão e sem ineficiência. Uma nação moderna, mas não vassala do Ocidente.
(...)
[Obama] Tem um plano para israelitas e palestinianos?
Sim, acho que tem.
Decidiu que vai ser ele a resolver isto?
Acho que sim. E terá um apoio forte de israelitas e palestinianos quando o plano for posto em cima da mesa. Acho que estamos mais perto de poder fazer a paz ali do que em muitos anos.
Mesmo com este Governo israelita?
Sim. Não penso que Netanyahu vá ser um obstáculo. Se houver uma solução nas linhas definidas por Obama...
Os israelitas vão aceitá-la?
Acho que sim, incluindo Netanyahu.
Porque no fim de tudo confiarão no Presidente americano.
Ninguém dirá aos israelitas: "Larguem as armas e confiem em nós." Ainda será um país com um Exército muito poderoso e todo o tipo de armas. Se o plano for aceite, haverá dois Estados, relações normais entre Israel e os vizinhos, e garantias internacionais para as fronteiras com os palestinianos. Com tudo isto, nenhum líder israelita razoável diria que não. Mesmo parte dos colonos. Aqueles na área de Jerusalém, poderá encontrar uma solução de troca de terra.
Se Obama não puder, ninguém pode?
Vi tantos planos levar a nada que não é fácil estar optimista. Mas acho que há uma vontade e uma visão que parece credível. O que aconteceu no Irão criou uma perturbação, abrandou o processo. Mas acho que Obama percebeu que sem solução para esse problema não há solução para nenhum. E se houver solução aí, é possível começar a construir algo.Sem paz no Médio Oriente não haverá Governo que possa ser amigo do Ocidente entre o oceano Atlântico e a Índia. É preciso arranjar uma solução em que haja segurança e dignidade para todos. Se as pessoas virem os seus irmãos ser bombardeados e oprimidos, a desconfiança continuará. E não penso que Israel queira continuar um conflito em que não há solução pela guerra.
A sua convicção central é que já não há civilizações, há uma só civilização, e que os imigrantes podem ser os intermediários fundamentais. Vê sinais de que isto pode acontecer na Europa?
Vejo sinais. Se isso significa uma nova abordagem, não creio.
O que deveria ser feito?
Primeiro, deixar as pessoas à vontade com as duas culturas - têm de poder aprender a língua do novo país e não esquecer a sua língua e transmiti-la aos filhos. Depois, dignidade cultural. É muito humilhante sentir que a nossa cultura é completamente ignorada. Claro que nunca teremos milhões de franceses a falar árabe, enquanto milhões de árabes falam francês, mas se tivermos dezenas de milhares interessados em árabe, bengali ou persa, quem vem de fora não sentirá que a sua cultura é ignorada. Devia haver uma insistência no conhecimento e respeito de outras culturas. Por exemplo, não permitir escolas inteiramente de imigrantes. Em cada escola devia haver uma percentagem de 5 ou 10 por cento de gente vinda de outros países. A integração seria muito mais fácil. Não deve haver guetos.
Há uma frase sua no livro: "Já não há estrangeiros." Podemos relacioná-la com a ideia de que a pré-história do homem acaba quando todos formos "o outro".
Somos todos uma nação, e não podemos resolver problemas se não nos virmos assim: uma nação com muitas culturas. Quando começarmos a pensar dessa forma, entramos no que chamo o verdadeiro princípio da história.
Escandalosamente roubado à jornalista Alexandra Lucas Coelho e ao Público, aqui. Agora é só reflectir.
Este livro apela à urgência. Defende que não há várias civilizações, só uma, e chegámos a um ponto em que morremos juntos ou nos salvamos juntos. É pessimista, mas há passagens em que o pessimismo parece mudar. Decidiu fazer o livro antes de Obama e entretanto Obama apareceu?
Exacto. Comecei a trabalhar neste livro em 2004. Li muito, sobre as mudanças climáticas ou o Iraque. E tinha a sensação de que as coisas estavam realmente a ficar más em muitos níveis.
Depois da reeleição de Bush?
Depois da reeleição foi ainda mais evidente. Mas há 10 ou 11 anos, quando escrevi As Identidades Assassinas, já sentia que as coisas estavam erradas. A seguir houve o 11 de Setembro, e a resposta da administração Bush criou uma situação realmente preocupante: Guantánamo, a presença no Iraque, todo o comportamento dos EUA. Não me opus totalmente à intervenção no Iraque. Tive sentimentos ambíguos. Por um lado, não gostava da construção de pretextos e daquela pressão sobre toda a gente: "Têm que alinhar connosco." Ao mesmo tempo, uma voz dizia-me: "Bem, se eles se livrarem de Saddam Hussein, talvez as coisas comecem a mexer-se neste Médio Oriente que não está a ir a lado nenhum..." E ainda penso que se os EUA se tivessem portado de forma diferente depois da guerra, se tivessem agido cautelosamente, tendo em conta os interesses verdadeiros das pessoas, tentando conduzi-las à democracia e à prosperidade, as coisas poderiam ter sido diferentes em toda a região. Mas começou a correr realmente mal. Então, demasiadas coisas estavam a correr mal: o Iraque; a questão das identidades e da coexistência; a relação do Ocidente com o mundo árabe e islâmico. E havia o problema das mudanças climáticas. Sentimos que é possível lidar com todos os outros problemas, mas esta bomba-relógio climática, de irmos rumo a algo irreversível se não mudarmos o nosso comportamento... Era preciso dizer que as coisas estão más, que tudo isso tem a ver com a incapacidade de ter em mente toda a nação humana, que já não é possível que cada um lute pelo seu interesse contra os outros. Depois, durante a escrita do livro, muitos acontecimentos vieram confirmar que as coisas estavam más. Em muitos países europeus a coexistência com os imigrantes não funcionava. E no fim há um verdadeiro raio de esperança, uma pessoa.
Obama.
Li os livros. Vi e ouvi os discursos. E ele não estava a falar ao instinto, estava a falar à razão. Só uma pequena minoria de políticos fala à razão. E essa é a verdadeira atitude democrática. Tentar convencer em vez de manipular. Desenvolver argumentos. Senti que intelectualmente e eticamente ele estava a um nível muito alto. E não fui indiferente ao seu background, porque é importante, sobretudo depois dos anos Bush, ter uma pessoa nos EUA com a qual o mundo se possa identificar. É essencial. E miraculosamente ele veio.
Isso reflecte-se no processo de ler o seu livro. Há passagens no princípio em que diz: as coisas só podem melhorar se a América perceber o que aconteceu no Iraque, se persuadir o mundo da sua legitimidade moral, etc., etc. Pequenos sinais que chamavam por alguém como Obama.
Absolutamente. Tinha todo um capítulo acerca do Presidente americano ser eleito pelos americanos mas ter jurisdição em todo o mundo.
A questão da legitimidade.
Sim. O mundo não podia identificar-se com aquelas pessoas eleitas, e de repente pôde. Foi fascinante.
O mundo não votou, mas celebrou.
Não votou fisicamente, mas na realidade votou. Não sei se alguma vez voltaremos a experimentar isto. O sentimento era: "Esta pessoa também nos representa. OK, está a ser escolhida pelos americanos, mas nós também a escolhemos." E é isso que é tão perturbador. Vivemos uma experiência muito precisa com uma pessoa, com um background particular, e havia esta convergência entre a América o mundo...
Está a dizer que se Obama falhar...?
... então o quê? É uma tragédia para a América, para o Ocidente e para o mundo. Se Obama conseguir o que pretende, terá enorme impacto na evolução do mundo. Se conseguir reconciliar o Ocidente com o mundo árabe e islâmico, e o mundo árabe com o mundo judeu; se começar um verdadeiro processo de reverter as mudanças climáticas e o aquecimento global; e se resolver a crise económica, que ao mesmo tempo é a mais difícil e a menos difícil das três tarefas. Esperemos que seja bem-sucedido. Sobretudo a reconciliação mundo árabe-Ocidente e as mudanças climáticas. Se conseguir isto, conseguiu o mais importante.
No seu diagnóstico sobre o estado do mundo começa por falar do resultado da Guerra Fria. O Ocidente venceu mas acabou por ficar mais fraco. China e Índia tornaram-se potências económicas. Houve uma passagem da ideologia para a identidade e o islão político [aliado do Ocidente na luta contra a URSS] saiu fortalecido. O choque do 11 de Setembro foi a revelação do verdadeiro resultado da Guerra Fria? Do que o Ocidente não soube resolver?
Absolutamente. Há três momentos importantes. No fim da Guerra Fria entrámos numa nova era, cheia de esperança, mas que precisava de ser abordada de forma muito responsável - tínhamos que construir algo. O 11 de Setembro foi o sintoma que revela que não conseguimos - devíamos ter construído todo um outro tipo de relação entre as nações, deixámos as identidades florescer, o mundo islâmico estava à deriva. O 11 de Setembro veio como sintoma de uma doença e depois veio o remédio.
A "Guerra Contra o Terror".
Que em vez de curar o doente agravou a situação.
Por ter reforçado a divisão do mundo?
A América portou-se depois do 11 de Setembro como os autores do 11 de Setembro esperavam. Foi uma provocação destinada a deixar que a América antagonizasse grandes partes do mundo. E foi exactamente o que a América fez. No dia em que os ataques aconteceram, 99 por cento do mundo estava com os americanos. Eles deviam ter conduzido o mundo a algo diferente. (...)
E era um espelho da visão do mundo que o islão político tem.
Era exactamente o que os inimigos da América esperavam. Uma vez ouvi Donald Rumsfeld responder a perguntas na TV. O jornalista perguntou-lhe se pretendiam respeitar a Convenção de Genebra e ele respondeu: "Respeitaremos mais ou menos." É chocante ouvir o representante da melhor democracia do mundo dizer que respeitará mais ou menos a legalidade. O dever de um governo democrático é dizer: "Nós somos os guardiães da legalidade internacional." Se diz que está disposto a não respeitar as regras, toda a gente fica ao mesmo nível.
Como um segundo ataque à América, forçá-la a descer o nível moral.
A provocação era essa, fazê-la portar-se de modo a ficar mal. Então, a primeira data importante foi o começo da nova era depois da Guerra Fria. A segunda data foi o 11 de Setembro, sintoma de que a nova era não estava no bom caminho. E a terceira data foi 2008.
A correcção: Obama.
Exacto.
Na sua análise, diz que o Ocidente nunca conseguiu decidir entre civilizar e dominar, nunca levou o melhor que tinha - valores humanos e prosperidade - aos países que colonizou, e essa incapacidade criou uma falta de confiança que afecta as relações do Ocidente com o resto do mundo. Vemos isso até hoje, por exemplo no Afeganistão. A Europa é a guardiã dos melhores valores que a humanidade concebeu e falhou em estendê-los aos outros.
O meu ponto de partida é o de quem está dentro do retrato. Tenho relações com duas culturas [europeia e árabe]. Tento uni-las, construir pontes. E nos últimos anos tenho a sensação profunda de que as minhas duas culturas estão no mau caminho. Quando estou sentado na Europa e vejo o comportamento do mundo islâmico e árabe, fico profundamente chocado com muitas coisas. E quando me sento no mundo árabe e islâmico, há atitudes muito chocantes no Ocidente. A maioria das pessoas não vê isso dos dois lados.
Por isso, aqui, será importante focarmo-nos no que os leitores ocidentais não podem ver.
Claro que o Ocidente espalhou ideias, mas isso é sobretudo mítico, não é real. Claro que houve disseminação da democracia, mas isso não foi feito de forma que as pessoas sentissem: "Vocês trouxeram-nos democracia." Na Argélia ou na Índia, as pessoas souberam da democracia por olharem o Ocidente, mas sempre que o Ocidente foi ao país deles não tentou favorecer a democracia. Antagonizou os que estavam mais prontos para a modernidade. França, por exemplo, proclamava a separação do Estado e da religião. Ao mesmo tempo, na Argélia, chamava aos habitantes "franceses muçulmanos". A única razão para isso era não lhes querer dar direitos completos.
Manteve-os confinados à sua "tribo".
Privou-os de cidadania, de facto. Se votassem, talvez tivessem tido um papel maior. E isto é algo que as pessoas não esquecem. Portanto, quando os franceses dizem: "Trouxemos democracia à Argélia", não é verdade. Os ingleses não trouxeram democracia à Índia. Os indianos olharam a democracia inglesa, aprenderam coisas dos ingleses, tentaram aplicar o que achavam admirável, mas isso teve de ser conquistado, e o comportamento dos ingleses foi limitar a liberdade de imprensa, oprimir as pessoas, forçá-las a comprar isto e aquilo. Toda a história do colonialismo é uma história de opressão e de humilhação. Em França dizemos muito que espalhámos saber. Não é verdade. Veja o número de pessoas com diplomas em África no fim da colonização francesa. Quantos médicos havia? Muito poucos. E isso é verdade para os portugueses, para os ingleses. O papel de trazer civilização, modernidade e conhecimento foi abafado pelo desejo de dominar, e dominar eternamente, não dar oportunidade às pessoas de serem independentes e se governarem. Encontrei uma citação de Samuel Huntington, logo ele [o autor de O Choque de Civilizações]. Diz claramente que o Ocidente dominou o mundo não pelo conhecimento mas pela superioridade militar. Os ocidentais tendem a esquecê-lo, mas os outros nunca esquecem. Até porque, como disse, isso ainda não acabou. Não há razão para que 250 cerimónias de casamento tenham sido bombardeadas no Afeganistão. Devia haver um respeito pelas pessoas com quem se lida. Se não nos portamos assim no nosso país, porque nos portamos assim no Afeganistão ou no Iraque? Porquê disparar sobre um carro onde vai uma família? Não podemos ir a um país, tomar-lhe o destino nas mãos e portar-nos assim.
Acredita que a democracia é para todos. Acha um erro dizer que o Iraque não quer democracia quando os iraquianos fizeram filas para votar entre ataques suicidas. Mas há quem continue a defender que islão e democracia são incompatíveis.
Há uma atitude no Ocidente que é dizer: "Ah, o problema dos americanos foi tentarem impor a democracia a um povo que não estava preparado para ela." Acredito firmemente no contrário. Os iraquianos queriam democracia, esperaram prosperidade, paz, modernização, e os americanos não trouxeram nada disso. Todos os dias ouço essa atitude no Ocidente: "Sabe, essas pessoas são assim, nós também éramos, com o tempo as coisas mudarão." É a atitude de considerar que não precisamos de ter princípios quando atravessamos o mar, porque respeitamos a especificidade. Isto é profundamente hipócrita. Não é verdadeiro e é contraproducente. A aspiração das nações, das pessoas em toda a parte, é praticamente a mesma. As pessoas querem viver melhor, querem vidas melhores para os filhos, mandá-los para a escola. Em toda a parte querem viver com dignidade.O que acontece às vezes é que não lhes é dada alternativa. Há um ditador e a forma de as pessoas se organizarem é a religião. E todo o discurso se desenvolve a partir daí. Quando a verdadeira aspiração não é essa. Não penso que haja no islão algo que impeça as sociedades de se tornarem democráticas, modernas, avançadas. Precisamos de olhar para "o outro" como um vasto mundo de diferentes línguas, tradições, crenças. Há países islâmicos com eleições abertas, por exemplo, hoje mesmo, a Indonésia. A vasta maioria dos indonésios não vê contradição entre democracia e crença, e é a mais populosa nação islâmica do mundo. Isto pode acontecer em qualquer lado. A Indonésia teve uma mulher presidente, o Bangladesh, o Paquistão, a Turquia tiveram mulheres primeiras-ministras. Podemos empurrar as pessoas para o pior de si, mas é mais responsável empurrá-las para o melhor. Se resolvermos o problema do Médio Oriente e as relações entre Ocidente e mundo islâmico, talvez as pessoas mais teimosas fiquem isoladas e não sejam capazes de mobilizar massas.
O melhor que podemos tirar do desastre do Iraque é nessa direcção? O diagnóstico que faz é de catástrofe. No seu livro diz: claro que a América ultrapassará o trauma do Iraque, mas o Iraque não ultrapassará o trauma da América: 700 mil mortos, minorias milenares desaparecidas para sempre. E uma das razões foi esse confinamento das pessoas a uma tribo, a uma identidade. Temos sinais de que a América começou a aprender as lições do Iraque?
Quando ouço o que Obama diz, estou convencido de que ele realmente percebeu tudo. Ele sabe que é muito perigoso jogar com este tipo de rivalidade de comunidades, porque quando se começa não se consegue parar. Mas não estou certo de que o comportamento dos EUA e do Ocidente mude. As visões são as mesmas. Por exemplo, dizemos que o conflito entre xiitas e sunitas nunca devia ter sido incendiado, e as pessoas respondem: "Ah, mas isso é um conflito com 1400 anos." É verdade. Mas há muitos conflitos em todo o mundo em fase latente, e a habilidade política está em impedi-los de se transformarem em verdadeiros conflitos. Todo o fim da governação é impedir os conflitos potenciais.
O que achou do discurso de Obama ao mundo muçulmano? Ele fez um mea culpa em relação ao derrube do Governo democrático de Mohammed Mossadegh, no Irão, em 1953.
O que ele disse sobre o Irão foi cautelosamente medido: fizemos erros. Quantos americanos sabem e se importam com o que aconteceu no Irão em 1953? Não muitos. Mas para os iranianos ainda hoje é importante. Custou milhões de vidas. Eles não ultrapassaram esse trauma. Tinham um líder popular que só queria uma parte justa da riqueza do país.
Metade do petróleo.
Ele pediu metade e [os ingleses] queriam dar-lhe 5 ou 10 por cento. Algo humilhante. Foi eleito, era um homem aberto, secular, educado na Suíça, e foi humilhado pelo Ocidente quando era a pessoa mais próxima dos ideais do Ocidente. Houve um golpe de Estado, hoje sabe-se, organizado por americanos e ingleses, e não se pode esperar que os iranianos tenham esquecido isto, porque afectou a vida deles durante décadas.
E teve impacto na revolução islâmica de 1979, que cobriu como repórter. Como é que esse golpe de 1953 estava presente?
Está sempre presente. Há coisas que as pessoas não esquecem, porque ainda as afectam, não são o passado.
E Obama estava a dizer isso aos iranianos.
"Fizemos erros, derrubámos um governo eleito democraticamente, também somos culpados." Também falou de comportamentos indesculpáveis dos iranianos. Foi uma aproximação muito decente. Provavelmente será ouvida um dia.
A recente revolta nas ruas do Irão podia ter acontecido sem esse discurso de Obama? Quando ele estava a dizer isso, não se estava a dirigir às ruas?
O que está a dizer é algo que me passou pela cabeça e surpreende-me que poucas pessoas tenham pensado nisso. Acho que o que ele disse foi instrumental em fazer as pessoas agir. Ele disse as palavras que podiam reconciliar. As pessoas no Irão querem ouvir essas palavras, e estão satisfeitas com elas.
(...)
Obama ouviu críticas por não reagir de imediato à revolta iraniana nas ruas, e isso é realmente surpreendente. Porque o silêncio dele era muito inteligente. Os iranianos nas ruas sentir-se-iam divididos se Obama tivesse falado.
Tem toda a razão. O único argumento da actual liderança é dizer: vocês são os instrumentos da América.
E as pessoas não querem sentir que são isso.
A ideia de Obama foi dizer: "Deixem as pessoas fazer o que têm a fazer e mantenham-se em silêncio, é a melhor maneira de ajudar." Infelizmente, a maior parte das pessoas não entende isto. Não está realmente preocupada. Reage como costumava reagir. E quando reage assim, infelizmente, nem o presidente dos EUA se pode manter calado. Ele não podia explicar que o que estava a fazer era o que devia ser feito para ajudar estas pessoas, sem serem acusadas de ser manipuladas por ninguém.
Como lê o que aconteceu no Irão? É irreversível? É o início de uma revolução?
A noção de legitimidade é muito importante. E o que aconteceu foi que o regime iraniano perdeu a sua legitimidade. Poderá ficar no poder por algum tempo mas não creio que possa recuperar a sua moralidade. O melhor que pode ser feito é evitar interferências. Deixar as pessoas reagir ao seu ritmo e não as misturar com alguma intervenção estrangeira. Há um paralelo entre o Verão de 78 e o que aconteceu agora. Em 78, a revolução começou quando as pessoas foram para a rua e foram reprimidas. Aconteceu muito depressa, então. Não penso que agora seja assim. Mas é evidente que a aspiração do povo iraniano é a outra coisa. Eles não pensam que o actual regime lhes possa dar liberdade, prosperidade, progresso, mas querem dignidade. Portanto se alguém vem e diz "nós fizemos erros, vocês fizeram erros", acho que as pessoas estão prontas. O meu feeling é que provavelmente, naquela parte do mundo, o povo iraniano é o que está mais perto de construir um estado moderno e secular. Penso que há uma verdadeira aspiração a isso. Por causa do que aconteceu positiva e negativamente nos últimos 30 anos. Este regime deu-lhes dignidade como nação e ao mesmo tempo revelou-se opressivo e ineficiente. As pessoas precisam da dignidade mas sem opressão e sem ineficiência. Uma nação moderna, mas não vassala do Ocidente.
(...)
[Obama] Tem um plano para israelitas e palestinianos?
Sim, acho que tem.
Decidiu que vai ser ele a resolver isto?
Acho que sim. E terá um apoio forte de israelitas e palestinianos quando o plano for posto em cima da mesa. Acho que estamos mais perto de poder fazer a paz ali do que em muitos anos.
Mesmo com este Governo israelita?
Sim. Não penso que Netanyahu vá ser um obstáculo. Se houver uma solução nas linhas definidas por Obama...
Os israelitas vão aceitá-la?
Acho que sim, incluindo Netanyahu.
Porque no fim de tudo confiarão no Presidente americano.
Ninguém dirá aos israelitas: "Larguem as armas e confiem em nós." Ainda será um país com um Exército muito poderoso e todo o tipo de armas. Se o plano for aceite, haverá dois Estados, relações normais entre Israel e os vizinhos, e garantias internacionais para as fronteiras com os palestinianos. Com tudo isto, nenhum líder israelita razoável diria que não. Mesmo parte dos colonos. Aqueles na área de Jerusalém, poderá encontrar uma solução de troca de terra.
Se Obama não puder, ninguém pode?
Vi tantos planos levar a nada que não é fácil estar optimista. Mas acho que há uma vontade e uma visão que parece credível. O que aconteceu no Irão criou uma perturbação, abrandou o processo. Mas acho que Obama percebeu que sem solução para esse problema não há solução para nenhum. E se houver solução aí, é possível começar a construir algo.Sem paz no Médio Oriente não haverá Governo que possa ser amigo do Ocidente entre o oceano Atlântico e a Índia. É preciso arranjar uma solução em que haja segurança e dignidade para todos. Se as pessoas virem os seus irmãos ser bombardeados e oprimidos, a desconfiança continuará. E não penso que Israel queira continuar um conflito em que não há solução pela guerra.
A sua convicção central é que já não há civilizações, há uma só civilização, e que os imigrantes podem ser os intermediários fundamentais. Vê sinais de que isto pode acontecer na Europa?
Vejo sinais. Se isso significa uma nova abordagem, não creio.
O que deveria ser feito?
Primeiro, deixar as pessoas à vontade com as duas culturas - têm de poder aprender a língua do novo país e não esquecer a sua língua e transmiti-la aos filhos. Depois, dignidade cultural. É muito humilhante sentir que a nossa cultura é completamente ignorada. Claro que nunca teremos milhões de franceses a falar árabe, enquanto milhões de árabes falam francês, mas se tivermos dezenas de milhares interessados em árabe, bengali ou persa, quem vem de fora não sentirá que a sua cultura é ignorada. Devia haver uma insistência no conhecimento e respeito de outras culturas. Por exemplo, não permitir escolas inteiramente de imigrantes. Em cada escola devia haver uma percentagem de 5 ou 10 por cento de gente vinda de outros países. A integração seria muito mais fácil. Não deve haver guetos.
Há uma frase sua no livro: "Já não há estrangeiros." Podemos relacioná-la com a ideia de que a pré-história do homem acaba quando todos formos "o outro".
Somos todos uma nação, e não podemos resolver problemas se não nos virmos assim: uma nação com muitas culturas. Quando começarmos a pensar dessa forma, entramos no que chamo o verdadeiro princípio da história.
Escandalosamente roubado à jornalista Alexandra Lucas Coelho e ao Público, aqui. Agora é só reflectir.
Eleições
0 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Tuesday, November 04, 2008 at 4:00 AM.
»"Yes, he can"Oba Oba, Obama
Fixem este dia - o dia em que um preto assume a presidência de um país que ainda em 1920 tinha lugares marcados, uns para os 'whites', outros para os 'blacks'. 04-11-2008 - Bem sei que estou a ser optimista, felizmente.
De facto é incontornável, também eu não me pude deixar ficar de lado nesta contenda em direcção à Casa Branca. O inquilino que lá está agora deixou as rendas por pagar, mesmo depois dos vizinhos o terem visto a abandonar a vivenda pela janela e com duas malas entremãos, cheias de dólares e umas quantas .38, presume-se.
Enfim, gostaria de dizer que Bush (ou é McCain?) é parvo, mas não é burro.
Quanto ao candidato McCain, gostaria de dizer que não tenho nada a dizer. Aliás, também McCain é assim,
(Eh!, 'também' significa que serei comparável a este avô, será? Não quero!),
também McCain é assim, dizia: fala pouco, repete uns quantos 'tough' e uns quantos 'God' e that's it. É velho, tem a mania das guerras (já vi isto em qualquer lado) e... talvez seja como uma grande parcela do eleitorado americano. Rural, conservador (muito conservador), liberal em termos económicos (agora entalei-o ya?), racista (não me levem a mal, condenem os racistas) e elitista.
Enfim, gostaria de dizer que Bush (ou é McCain?) é parvo, mas não é burro.
Já Obama rompe com todos os adjectivos colados ao seu rival de hoje.
Obama tem ainda a vantagem de ser coerente. Ele é o verdadeiro sonho americano, aquele filme onde tudo é possível, desde que se trabalhe. Filho de pai queniano e mãe americana do Havai, Obama encarna a terra das oportunidades e dos chavões, mas onde uma minoria pode eleger um seu semelhante, só porque é portador de uma mensagem, de um futuro, de humanismo e de vontade. Isto é democracia.
Da minha geração, não conheci nenhum líder dos EUA que tivesse um perfil assim, nem Clinton conseguia gerar esta aura. Talvez JFK, por tudo e por ter sido o primeiro presidente preto dos EUA (esta é uma classificação oficiosa, atenção, made in APMO). Por outro lado, esta campanha assume também uma acção de pedagogia para muitas regiões do mundo - será que Angola, por exemplo, está preparada para ter um presidente da república branco? Nem pensar!, mesmo quando todos, mas mesmo todos os angolanos votariam Obama.
Pelas razões erradas, mas votariam. A questão é que, daqui em diante, os angolanos, caso sejam confrontados com uma situação parecida, vão pensar duas vezes. Obama oblige.
Enfim, gostaria de terminar dizendo que Obama tem tudo para ganhar e inaugurar um novo estilo, mas não sou assim tão burro. Vamos ver para crer.
Labels: Barack Obama, Eleições
Eleições
1 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Friday, September 05, 2008 at 6:36 PM.
Hoje é dia de Angola e da Democracia (V)
Como vêem o angolapelosmeusolhos é um blogue de confiança - confirmou-se o que aqui tinha avançado em primeira-mão, a votação (apenas em Luanda) foi alargada até ao dia de amanhã. 320 Assembleias de voto vão continuar a funcionar durante o dia 6, sábado.
Mas não deixa de pairar um ambiente de grande tristeza pelo redondo falhanço da CNE.
Falta de cabines de voto, de boletins, de mesas, de alimentação para os delegados, contagens de votos à luz da vela e até dos faróis automóveis (custava muito ter comprado umas lanternas?, parece que quem organizou isto é francês ou quê - todos os angolanos sabem da escassez de energia eléctrica no país), urnas a caminharem de um lado para outro. Enfim. Para quem queria dar um "exemplo a África e ao mundo", as irregularidades cometidas são de bradar aos céus.
A sensação foi também de grande surpresa, todos os angolanos esperavam uma boa organização. Talvez estivessem mais receosos com o apuramento dos resultados do que com a votação propriamente dita.
Uma vez mais deixo uma deferência ao povo e aqueles que votaram - tirando um episódio aqui e acolá, os angolanos estiveram perfeitos. Deixaram uma mensagem bastante clara: resolvão-se e resolvam-nos de uma vez por todas!
Vamos ver durante o dia de sábado o que vai suceder. Samakuva (UNITA) e Ngola Kabangu (FNLA), líderes dos dois partidos históricos, utilizaram expressões como "colapso" e "viciação". Parece-me que se preparam para rejeitar os resultados do pleito - o que traria instabilidade política a um país que deve evitar este tipo de sentimentos. Hoje as coisas pareciam querer aquecer, mas depois tudo amainou.
Por outro lado, a contagem de votos já está a ser efectuada e, segundo informações recolhidas por mim junto de contagens independentes, o MPLA está a dar um banho na concorrência. Um sinal não muito positivo, mas se for essa a vontade de quem votou - força!
Até amanhã.
Como vêem o angolapelosmeusolhos é um blogue de confiança - confirmou-se o que aqui tinha avançado em primeira-mão, a votação (apenas em Luanda) foi alargada até ao dia de amanhã. 320 Assembleias de voto vão continuar a funcionar durante o dia 6, sábado.
Mas não deixa de pairar um ambiente de grande tristeza pelo redondo falhanço da CNE.
Falta de cabines de voto, de boletins, de mesas, de alimentação para os delegados, contagens de votos à luz da vela e até dos faróis automóveis (custava muito ter comprado umas lanternas?, parece que quem organizou isto é francês ou quê - todos os angolanos sabem da escassez de energia eléctrica no país), urnas a caminharem de um lado para outro. Enfim. Para quem queria dar um "exemplo a África e ao mundo", as irregularidades cometidas são de bradar aos céus.
A sensação foi também de grande surpresa, todos os angolanos esperavam uma boa organização. Talvez estivessem mais receosos com o apuramento dos resultados do que com a votação propriamente dita.
Uma vez mais deixo uma deferência ao povo e aqueles que votaram - tirando um episódio aqui e acolá, os angolanos estiveram perfeitos. Deixaram uma mensagem bastante clara: resolvão-se e resolvam-nos de uma vez por todas!
Vamos ver durante o dia de sábado o que vai suceder. Samakuva (UNITA) e Ngola Kabangu (FNLA), líderes dos dois partidos históricos, utilizaram expressões como "colapso" e "viciação". Parece-me que se preparam para rejeitar os resultados do pleito - o que traria instabilidade política a um país que deve evitar este tipo de sentimentos. Hoje as coisas pareciam querer aquecer, mas depois tudo amainou.
Por outro lado, a contagem de votos já está a ser efectuada e, segundo informações recolhidas por mim junto de contagens independentes, o MPLA está a dar um banho na concorrência. Um sinal não muito positivo, mas se for essa a vontade de quem votou - força!
Até amanhã.
Labels: Eleições
Hoje é dia de Angola e da Democracia (IV)
Este blogue hoje está com cara de jornal online e, sendo assim, vai avançar com uma notícia em primeira-mão. São agora 17 e 30 minutos, faltam 90 para o encerrar das urnas. Segundo informações recolhidas por este blogue, está confirmada a prorrogação do período de votação para o dia 6 de Setembro, amanhã, sábado.
Como escrevi no texto anterior, é uma vergonha. Também não deixa de levantar algumas dúvidas relativamente ao escrutínio e aos resultados finais.
Por outro lado e para já, nada me demove de pensar que esta situação foi premeditada. Porquê?
1. Os maiores problemas deram-se em Luanda, que é a capital, ou seja, onde estão os dirigentes, as instituições e também os eleitores - cerca de 2 milhões só nesta província, dos 8 milhões inscritos. Se me viessem dizer que no Kuando Kubango havia problemas para chegar/instalar mesas de voto ainda compreendia, agora, em Luanda?!
2. Não nos esqueçamos do que sugeriu o presidente quando anunciou a convocação de eleições - 5 e 6 de Setembro. Mais tarde e porque os partidos da oposição sempre discordaram desta fórmula (nem sequer aceitaram discutir a possibilidade na Assembleia Nacional), ficou-se pelo dia 5, apenas. O MPLA parece que conseguiu levar a sua ideia avante, ainda que por enviesamento.
Apesar destas dúvidas todas, a CNE tem o respaldo da Lei, que prevê a possibilidade de passar para o dia seguinte a votação.
Em Luanda, o ambiente continua super-tranquilo, parece domingo.
Este blogue hoje está com cara de jornal online e, sendo assim, vai avançar com uma notícia em primeira-mão. São agora 17 e 30 minutos, faltam 90 para o encerrar das urnas. Segundo informações recolhidas por este blogue, está confirmada a prorrogação do período de votação para o dia 6 de Setembro, amanhã, sábado.
Como escrevi no texto anterior, é uma vergonha. Também não deixa de levantar algumas dúvidas relativamente ao escrutínio e aos resultados finais.
Por outro lado e para já, nada me demove de pensar que esta situação foi premeditada. Porquê?
1. Os maiores problemas deram-se em Luanda, que é a capital, ou seja, onde estão os dirigentes, as instituições e também os eleitores - cerca de 2 milhões só nesta província, dos 8 milhões inscritos. Se me viessem dizer que no Kuando Kubango havia problemas para chegar/instalar mesas de voto ainda compreendia, agora, em Luanda?!
2. Não nos esqueçamos do que sugeriu o presidente quando anunciou a convocação de eleições - 5 e 6 de Setembro. Mais tarde e porque os partidos da oposição sempre discordaram desta fórmula (nem sequer aceitaram discutir a possibilidade na Assembleia Nacional), ficou-se pelo dia 5, apenas. O MPLA parece que conseguiu levar a sua ideia avante, ainda que por enviesamento.
Apesar destas dúvidas todas, a CNE tem o respaldo da Lei, que prevê a possibilidade de passar para o dia seguinte a votação.
Em Luanda, o ambiente continua super-tranquilo, parece domingo.
Labels: Eleições
Hoje é dia de Angola e da Democracia (III)
15 horas e ainda há Assembleias de voto que não abriram. Parece-me que vem aí um pedido para adiar a votação até ao dia de amanhã.
Se isso acontecer, será uma vergonha para a Comissão Nacional Eleitoral (que é constituída por representantes das diversas formações políticas e não depende directamente do presidente da República) e para quem se envolveu de forma directa na organização de todo este processo.
Acabei de chegar à redacção e, no trajecto, constatei que as pessoas começam a sair à rua, preparando os seus almoços e as suas actividades para o resto do dia. Foi possível também perceber que no centro da cidade algumas das Assembleias de voto estão praticamente vazias, o que leva a querer que a maioria dos eleitores daquela zona já exerceu o seu direito.
15 horas e ainda há Assembleias de voto que não abriram. Parece-me que vem aí um pedido para adiar a votação até ao dia de amanhã.
Se isso acontecer, será uma vergonha para a Comissão Nacional Eleitoral (que é constituída por representantes das diversas formações políticas e não depende directamente do presidente da República) e para quem se envolveu de forma directa na organização de todo este processo.
Acabei de chegar à redacção e, no trajecto, constatei que as pessoas começam a sair à rua, preparando os seus almoços e as suas actividades para o resto do dia. Foi possível também perceber que no centro da cidade algumas das Assembleias de voto estão praticamente vazias, o que leva a querer que a maioria dos eleitores daquela zona já exerceu o seu direito.
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Hoje é dia de Angola e da Democracia (II)
Acabei de votar.

Todas as mesas e Assembleias de voto começam a entrar em velocidade de cruzeiro, apesar de já se falar na prorrogação do período de votação.
Espero que isto não aconteça.
Mais informações durante a tarde.
Acabei de votar.
Todas as mesas e Assembleias de voto começam a entrar em velocidade de cruzeiro, apesar de já se falar na prorrogação do período de votação.
Espero que isto não aconteça.
Mais informações durante a tarde.
Labels: Eleições
Hoje é dia de Angola e da Democracia
Ponto de situação às 12 horas:
- A votação começou às 7 horas em todo o território nacional.
- Informações dizem que nas diversas províncias tudo está a correr dentro do previsto e de forma tranquila, honesta e calma.
- Circulei a pé desde as 8 da manhã sem qualquer problema, pelo contrário, muitas saudações e manifestações de confiança e vontade de votar.
- Por incrível que pareça, Luanda centraliza tudo, mesmo os principais problemas: neste momento ainda não estão abertas todas as Assembleias e Mesas de voto. Justificação oficial? Nenhuma. Oficiosa? Falta de material e de pessoal. Estranho.
Durante a tarde farei mais um balanço deste dia histórico onde, devido ao meu trabalho, vou ter o privilégio do o viver bem por dentro.
Ponto de situação às 12 horas:
- A votação começou às 7 horas em todo o território nacional.
- Informações dizem que nas diversas províncias tudo está a correr dentro do previsto e de forma tranquila, honesta e calma.
- Circulei a pé desde as 8 da manhã sem qualquer problema, pelo contrário, muitas saudações e manifestações de confiança e vontade de votar.
- Por incrível que pareça, Luanda centraliza tudo, mesmo os principais problemas: neste momento ainda não estão abertas todas as Assembleias e Mesas de voto. Justificação oficial? Nenhuma. Oficiosa? Falta de material e de pessoal. Estranho.
Durante a tarde farei mais um balanço deste dia histórico onde, devido ao meu trabalho, vou ter o privilégio do o viver bem por dentro.
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Fotografias
0 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Thursday, July 17, 2008 at 4:19 PM.
(Faz sempre bem, mesmo quando é realizado sem nenhum motivo.)
Interregnos
0 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Sunday, April 27, 2008 at 2:54 AM.
Episódios
'Em 92 disse para a minha mulher: vou montar a arma!, o primero filho-da-puta que subir está morto.' Narrava histórias destas que nem uma metralhadora, enquanto um carro desengonçado deslocava claviculas e pontapeava a estrada.
Vai tu à frente que já lá vou ter, dizia, precisamente antes de aviar mais um. 'Esse cabrão matava sempre alguém ao acordar - devia ser comandante ou assim. Claro que os soldados, sabendo dessa intenção do chefe, arranjavam uma vítima para cumprir a sua vontade. Normalmente seriam prisioneiros ou desgraçados que estavam ali mesmo. Eram colocados à frente do tal homem, não fosse ele aniquilar os seus próprios soldados.'
Pum!
'Em 92 disse para a minha mulher: vou montar a arma!, o primero filho-da-puta que subir está morto.' Narrava histórias destas que nem uma metralhadora, enquanto um carro desengonçado deslocava claviculas e pontapeava a estrada.
Vai tu à frente que já lá vou ter, dizia, precisamente antes de aviar mais um. 'Esse cabrão matava sempre alguém ao acordar - devia ser comandante ou assim. Claro que os soldados, sabendo dessa intenção do chefe, arranjavam uma vítima para cumprir a sua vontade. Normalmente seriam prisioneiros ou desgraçados que estavam ali mesmo. Eram colocados à frente do tal homem, não fosse ele aniquilar os seus próprios soldados.'
Pum!
Labels: Interregnos
Interregnos
1 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Monday, April 07, 2008 at 8:43 AM.
Parafraseando 'racismos' em forma de palavra
Ele é na rua, na boca de todos nós, desde o advogado ao 'almeida', passando pela ignóbil professora de História do 10º ano e ainda pelo vizinho que sai às 4 e 30 e regressa às 21 horas.
Ele é nas rádios (Ecclésia, TSF, na Cadena Ser e na BBC Radio One, na Rádio Nacional de Angola e no Rádio Clube Português), na BBC, na Globo brasileira e depois na TPA e na Record e na RTP.
Abro parêntesis - tenho alguma dificuldade em compreender determinados pré-conceitos ou preconceitos, melhor dizendo.
Há países que apresentam um sector metalúrgico (entre outros, sobretudo ao nível da capacidade transformadora) pujante, um nível de industrialização bastante elevado e depois uma série de instituições de renome e de capacidade reconhecida, ao nível das ciências (humanas, sociais), ao nível da construção, da engenharia e da arquitectura. Que tem uma produção intelectual e cultural acima de qualquer suspeita, por apresentar grande nível e por ser representativa em diversos domínios (literatura, teatro, cinema, música). Que tem instituições médicas e de ensino capazes de se baterem com as melhores do mundo. Este país ainda teve a visão de apostar e consolidar uma política energética do mais inovador que conhecemos, sobretudo no que respeita ao desenvolvimento do etanol enquanto propulsor de motores automóveis - mas há mais: é o maior produtor de carne do mundo; tem cerca de 180 milhões de habitantes e uma capacidade de gerar rendimentos provenientes do turismo como poucos se podem orgulhar; apresenta um crescimento económico, nos últimos cinco anos, bem próximo dos dois digitos e uma democracia que se tem vindo, quase heroicamente, a consolidar; se juntarmos a isto tudo uma história e um legado geracional extremamente rico, será que se pode classificar este país de 'atrasado' ou 'terceiro-mundista'? É uma aberração!,
fecho parêntesis.
Eles são os próprios brasileiros e angolanos e cabo-verdianos (ah, esperem, desde o ano passado ou quê, que a ONU veio dizer que Cabo Verde já não é 'muito pobre', agora já só é 'ligeiramente pobre') e os outros, os outros!, alemães, holandeses, americanos, quando atiram de Chivas '15 anos' a roçar nas barrigas proeminentes aqueles duas-palavras-juntas-com-hífen: 'terceiro-mundo'.
Assim, secos, de uísque seco em punho (no 'terceiro-mundo', normalmente quente, árido, difícil e injusto, o uísque, mesmo o '15 anos', tem de vir on the rocks) e uma estante e uma bagagem cheia de nada, nem sequer de vento. Nunca pensaram, nunca lhes passou pela cabeça que nesses longínquos 'terceiros-mundos' há pessoas que, estando perfeitamente abandonadas, sabem mais da vida e de nós todos.
Nunca lhes passou pela cabeça que eles próprios vivem em situações que eu posso considerar de 'terceiro-mundistas', mesmo só imaginando o que isso significa: ou será que fazer uma vida casa, trabalho, casa, e assim sucessivamente, sem estímulos de qualquer espécie, nem rasgos de vontade e intensidade próprias, é que é viver num edílico 'primeiro-mundo'?
Estas reminiscências das 'conferências de Berlim' e de um mundo ao contrário, habitado por pessoas que viveram séculos viradas do avesso, subsistem e deixam-me fatigado. A pergunta que fica será esta: alguém, na imagem em baixo, descortina um, dois, ou mesmo três 'mundos'?

Ele é na rua, na boca de todos nós, desde o advogado ao 'almeida', passando pela ignóbil professora de História do 10º ano e ainda pelo vizinho que sai às 4 e 30 e regressa às 21 horas.
Ele é nas rádios (Ecclésia, TSF, na Cadena Ser e na BBC Radio One, na Rádio Nacional de Angola e no Rádio Clube Português), na BBC, na Globo brasileira e depois na TPA e na Record e na RTP.
Abro parêntesis - tenho alguma dificuldade em compreender determinados pré-conceitos ou preconceitos, melhor dizendo.
Há países que apresentam um sector metalúrgico (entre outros, sobretudo ao nível da capacidade transformadora) pujante, um nível de industrialização bastante elevado e depois uma série de instituições de renome e de capacidade reconhecida, ao nível das ciências (humanas, sociais), ao nível da construção, da engenharia e da arquitectura. Que tem uma produção intelectual e cultural acima de qualquer suspeita, por apresentar grande nível e por ser representativa em diversos domínios (literatura, teatro, cinema, música). Que tem instituições médicas e de ensino capazes de se baterem com as melhores do mundo. Este país ainda teve a visão de apostar e consolidar uma política energética do mais inovador que conhecemos, sobretudo no que respeita ao desenvolvimento do etanol enquanto propulsor de motores automóveis - mas há mais: é o maior produtor de carne do mundo; tem cerca de 180 milhões de habitantes e uma capacidade de gerar rendimentos provenientes do turismo como poucos se podem orgulhar; apresenta um crescimento económico, nos últimos cinco anos, bem próximo dos dois digitos e uma democracia que se tem vindo, quase heroicamente, a consolidar; se juntarmos a isto tudo uma história e um legado geracional extremamente rico, será que se pode classificar este país de 'atrasado' ou 'terceiro-mundista'? É uma aberração!,
fecho parêntesis.
Eles são os próprios brasileiros e angolanos e cabo-verdianos (ah, esperem, desde o ano passado ou quê, que a ONU veio dizer que Cabo Verde já não é 'muito pobre', agora já só é 'ligeiramente pobre') e os outros, os outros!, alemães, holandeses, americanos, quando atiram de Chivas '15 anos' a roçar nas barrigas proeminentes aqueles duas-palavras-juntas-com-hífen: 'terceiro-mundo'.
Assim, secos, de uísque seco em punho (no 'terceiro-mundo', normalmente quente, árido, difícil e injusto, o uísque, mesmo o '15 anos', tem de vir on the rocks) e uma estante e uma bagagem cheia de nada, nem sequer de vento. Nunca pensaram, nunca lhes passou pela cabeça que nesses longínquos 'terceiros-mundos' há pessoas que, estando perfeitamente abandonadas, sabem mais da vida e de nós todos.
Nunca lhes passou pela cabeça que eles próprios vivem em situações que eu posso considerar de 'terceiro-mundistas', mesmo só imaginando o que isso significa: ou será que fazer uma vida casa, trabalho, casa, e assim sucessivamente, sem estímulos de qualquer espécie, nem rasgos de vontade e intensidade próprias, é que é viver num edílico 'primeiro-mundo'?
Estas reminiscências das 'conferências de Berlim' e de um mundo ao contrário, habitado por pessoas que viveram séculos viradas do avesso, subsistem e deixam-me fatigado. A pergunta que fica será esta: alguém, na imagem em baixo, descortina um, dois, ou mesmo três 'mundos'?

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Eleições
0 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Thursday, March 06, 2008 at 3:35 AM.
Faltam precisamente 6 meses para as eleições legislativas em Angola (a 5 e 6 de Setembro) - longe de querer ser pessimista e/ou obtuso relativamente a este tema, parece-me que, apesar do Verão se aproximar do fim, a temperatura será sempre, sempre a subir.
P.S. - A partir de agora vamos ouvir uma série de considerações relativamente a este processo e ao próprio sistema político angolano - a maior delas debitadas por pessoas que, muito provavelmente, nunca baixaram do Sahara. E, sendo assim, falam à toa (sinto-me bem à vontadinha porque já fui um deles...).
P.S. - A partir de agora vamos ouvir uma série de considerações relativamente a este processo e ao próprio sistema político angolano - a maior delas debitadas por pessoas que, muito provavelmente, nunca baixaram do Sahara. E, sendo assim, falam à toa (sinto-me bem à vontadinha porque já fui um deles...).
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