Angola conquista 9º título africano de basquetebol e garante presença nos Jogos Olímpicos de Pequim


em cima: Luís Costa, Felizardo Ambrósio, Vitor de Carvalho, Kikas Gomes, Victor Muzadi, Carlos Almeida e Eduardo Mingas
em baixo: Olímpio Cipriano, Milton Barros, Carlos Morais, Armando Costa e Miguel Lutonda
(o meu) cinco ideal: Milton Barros, Miguel Lutonda, Olímpio Cipriano, Eduardo Mingas e Kikas Gomes
A final, contra os Camarões (86-72), foi disputada no renovado pavilhão da Cidadela, que quase rebentava pelas costuras.
Bem-vindo ao mundo real, família
A televisão estava ligada, ligada mas com chuva, a mesma chuva que apareceu logo de manhãzinha, logo no dia seguinte. Estava dado o sinal: 'Bom dia Angola', o cacimbo acabou, vem aí aquela água interminável que escorre pelo corpo abaixo, pelos poros entupidos de poeira e pela cara, pelos olhos. No aeroporto, o funcionário da antiga DEFA (hoje SME):
- Agora vai ter de ir à entrevista, siga o meu colega.
- Com certeza - respondi, moralizado, numa típica resposta de brasileiro «artista-da-bola» .
E assim foi. Entrámos na sala e aquele ambiente pouco ventilado, sujo e desorganizado poderia sugerir uma qualquer sala de torturas. Como tinha acabado de chegar um avião de Ponta Negra, estavam três congoleses prostrados em três cadeiras para cada um. Uma senhora, gordíssima, anafada, transpirada e garrida. Esfregava o telemóvel, parecia um aladino. Os outros dois eram mais jovens, malandros, vivos. A ideia que dava é que estavam à espera do avião de volta para o sítio de onde vieram.
(Às tantas, já estavam os três esticados, dormiam - todos abraçados aos haveres, aos tesouros que traziam atrás, provavelmente uma vida inteira num saco de plástico, amarrotado, quase desfiado, quase rasgado).
Em cima de uma das duas mesas, estava literalmente tudo. Malas, pastas, sacos, saquinhos, pessoas, canetas, folhas da imigração (pareciam estar todas amontoadas, «porra, aquele muadiê baralhou esta merda toda - onde estão os papéis de Lisboa?», ouvi às tantas), bolachas, telemóveis. Tudo.
Comigo estava outro patrício - com uma barba «tipo nada», tipo árabe, ruiva e tudo - na mesma situação. Estava para ser entrevistado.
Esperámos Esperámos Esperámos Esperámos,
«meu mano, vai demorar muito?»,
Esperámos. Só.
De repente - um homem normal, estatura normal, chapéu na cabeça, rápido e solto - entra na sala, olha para todos os lados, «está ali o teu mano», e ele nervoso nervoso nervoso, eu estava a sentir a vibração dele parecia uma telenovela,
«meu mano!»,
«Hum, xé, hum, hi» (silêncio silêncio silêncio), e mais do mesmo «hum, hi», mãos a baterem nas costas e os ombros a encaixarem uns nos outros e a pele de galinha e tudo.
A televisão estava ligada, ligada mas com chuva, a mesma chuva que apareceu logo de manhãzinha, logo no dia seguinte. Estava dado o sinal: 'Bom dia Angola', o cacimbo acabou, vem aí aquela água interminável que escorre pelo corpo abaixo, pelos poros entupidos de poeira e pela cara, pelos olhos. No aeroporto, o funcionário da antiga DEFA (hoje SME):
- Agora vai ter de ir à entrevista, siga o meu colega.
- Com certeza - respondi, moralizado, numa típica resposta de brasileiro «artista-da-bola» .
E assim foi. Entrámos na sala e aquele ambiente pouco ventilado, sujo e desorganizado poderia sugerir uma qualquer sala de torturas. Como tinha acabado de chegar um avião de Ponta Negra, estavam três congoleses prostrados em três cadeiras para cada um. Uma senhora, gordíssima, anafada, transpirada e garrida. Esfregava o telemóvel, parecia um aladino. Os outros dois eram mais jovens, malandros, vivos. A ideia que dava é que estavam à espera do avião de volta para o sítio de onde vieram.
(Às tantas, já estavam os três esticados, dormiam - todos abraçados aos haveres, aos tesouros que traziam atrás, provavelmente uma vida inteira num saco de plástico, amarrotado, quase desfiado, quase rasgado).
Em cima de uma das duas mesas, estava literalmente tudo. Malas, pastas, sacos, saquinhos, pessoas, canetas, folhas da imigração (pareciam estar todas amontoadas, «porra, aquele muadiê baralhou esta merda toda - onde estão os papéis de Lisboa?», ouvi às tantas), bolachas, telemóveis. Tudo.
Comigo estava outro patrício - com uma barba «tipo nada», tipo árabe, ruiva e tudo - na mesma situação. Estava para ser entrevistado.
Esperámos Esperámos Esperámos Esperámos,
«meu mano, vai demorar muito?»,
Esperámos. Só.
De repente - um homem normal, estatura normal, chapéu na cabeça, rápido e solto - entra na sala, olha para todos os lados, «está ali o teu mano», e ele nervoso nervoso nervoso, eu estava a sentir a vibração dele parecia uma telenovela,
«meu mano!»,
«Hum, xé, hum, hi» (silêncio silêncio silêncio), e mais do mesmo «hum, hi», mãos a baterem nas costas e os ombros a encaixarem uns nos outros e a pele de galinha e tudo.
