Interregnos
0 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Sunday, April 27, 2008 at 2:54 AM.
Episódios
'Em 92 disse para a minha mulher: vou montar a arma!, o primero filho-da-puta que subir está morto.' Narrava histórias destas que nem uma metralhadora, enquanto um carro desengonçado deslocava claviculas e pontapeava a estrada.
Vai tu à frente que já lá vou ter, dizia, precisamente antes de aviar mais um. 'Esse cabrão matava sempre alguém ao acordar - devia ser comandante ou assim. Claro que os soldados, sabendo dessa intenção do chefe, arranjavam uma vítima para cumprir a sua vontade. Normalmente seriam prisioneiros ou desgraçados que estavam ali mesmo. Eram colocados à frente do tal homem, não fosse ele aniquilar os seus próprios soldados.'
Pum!
'Em 92 disse para a minha mulher: vou montar a arma!, o primero filho-da-puta que subir está morto.' Narrava histórias destas que nem uma metralhadora, enquanto um carro desengonçado deslocava claviculas e pontapeava a estrada.
Vai tu à frente que já lá vou ter, dizia, precisamente antes de aviar mais um. 'Esse cabrão matava sempre alguém ao acordar - devia ser comandante ou assim. Claro que os soldados, sabendo dessa intenção do chefe, arranjavam uma vítima para cumprir a sua vontade. Normalmente seriam prisioneiros ou desgraçados que estavam ali mesmo. Eram colocados à frente do tal homem, não fosse ele aniquilar os seus próprios soldados.'
Pum!
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Interregnos
1 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Monday, April 07, 2008 at 8:43 AM.
Parafraseando 'racismos' em forma de palavra
Ele é na rua, na boca de todos nós, desde o advogado ao 'almeida', passando pela ignóbil professora de História do 10º ano e ainda pelo vizinho que sai às 4 e 30 e regressa às 21 horas.
Ele é nas rádios (Ecclésia, TSF, na Cadena Ser e na BBC Radio One, na Rádio Nacional de Angola e no Rádio Clube Português), na BBC, na Globo brasileira e depois na TPA e na Record e na RTP.
Abro parêntesis - tenho alguma dificuldade em compreender determinados pré-conceitos ou preconceitos, melhor dizendo.
Há países que apresentam um sector metalúrgico (entre outros, sobretudo ao nível da capacidade transformadora) pujante, um nível de industrialização bastante elevado e depois uma série de instituições de renome e de capacidade reconhecida, ao nível das ciências (humanas, sociais), ao nível da construção, da engenharia e da arquitectura. Que tem uma produção intelectual e cultural acima de qualquer suspeita, por apresentar grande nível e por ser representativa em diversos domínios (literatura, teatro, cinema, música). Que tem instituições médicas e de ensino capazes de se baterem com as melhores do mundo. Este país ainda teve a visão de apostar e consolidar uma política energética do mais inovador que conhecemos, sobretudo no que respeita ao desenvolvimento do etanol enquanto propulsor de motores automóveis - mas há mais: é o maior produtor de carne do mundo; tem cerca de 180 milhões de habitantes e uma capacidade de gerar rendimentos provenientes do turismo como poucos se podem orgulhar; apresenta um crescimento económico, nos últimos cinco anos, bem próximo dos dois digitos e uma democracia que se tem vindo, quase heroicamente, a consolidar; se juntarmos a isto tudo uma história e um legado geracional extremamente rico, será que se pode classificar este país de 'atrasado' ou 'terceiro-mundista'? É uma aberração!,
fecho parêntesis.
Eles são os próprios brasileiros e angolanos e cabo-verdianos (ah, esperem, desde o ano passado ou quê, que a ONU veio dizer que Cabo Verde já não é 'muito pobre', agora já só é 'ligeiramente pobre') e os outros, os outros!, alemães, holandeses, americanos, quando atiram de Chivas '15 anos' a roçar nas barrigas proeminentes aqueles duas-palavras-juntas-com-hífen: 'terceiro-mundo'.
Assim, secos, de uísque seco em punho (no 'terceiro-mundo', normalmente quente, árido, difícil e injusto, o uísque, mesmo o '15 anos', tem de vir on the rocks) e uma estante e uma bagagem cheia de nada, nem sequer de vento. Nunca pensaram, nunca lhes passou pela cabeça que nesses longínquos 'terceiros-mundos' há pessoas que, estando perfeitamente abandonadas, sabem mais da vida e de nós todos.
Nunca lhes passou pela cabeça que eles próprios vivem em situações que eu posso considerar de 'terceiro-mundistas', mesmo só imaginando o que isso significa: ou será que fazer uma vida casa, trabalho, casa, e assim sucessivamente, sem estímulos de qualquer espécie, nem rasgos de vontade e intensidade próprias, é que é viver num edílico 'primeiro-mundo'?
Estas reminiscências das 'conferências de Berlim' e de um mundo ao contrário, habitado por pessoas que viveram séculos viradas do avesso, subsistem e deixam-me fatigado. A pergunta que fica será esta: alguém, na imagem em baixo, descortina um, dois, ou mesmo três 'mundos'?

Ele é na rua, na boca de todos nós, desde o advogado ao 'almeida', passando pela ignóbil professora de História do 10º ano e ainda pelo vizinho que sai às 4 e 30 e regressa às 21 horas.
Ele é nas rádios (Ecclésia, TSF, na Cadena Ser e na BBC Radio One, na Rádio Nacional de Angola e no Rádio Clube Português), na BBC, na Globo brasileira e depois na TPA e na Record e na RTP.
Abro parêntesis - tenho alguma dificuldade em compreender determinados pré-conceitos ou preconceitos, melhor dizendo.
Há países que apresentam um sector metalúrgico (entre outros, sobretudo ao nível da capacidade transformadora) pujante, um nível de industrialização bastante elevado e depois uma série de instituições de renome e de capacidade reconhecida, ao nível das ciências (humanas, sociais), ao nível da construção, da engenharia e da arquitectura. Que tem uma produção intelectual e cultural acima de qualquer suspeita, por apresentar grande nível e por ser representativa em diversos domínios (literatura, teatro, cinema, música). Que tem instituições médicas e de ensino capazes de se baterem com as melhores do mundo. Este país ainda teve a visão de apostar e consolidar uma política energética do mais inovador que conhecemos, sobretudo no que respeita ao desenvolvimento do etanol enquanto propulsor de motores automóveis - mas há mais: é o maior produtor de carne do mundo; tem cerca de 180 milhões de habitantes e uma capacidade de gerar rendimentos provenientes do turismo como poucos se podem orgulhar; apresenta um crescimento económico, nos últimos cinco anos, bem próximo dos dois digitos e uma democracia que se tem vindo, quase heroicamente, a consolidar; se juntarmos a isto tudo uma história e um legado geracional extremamente rico, será que se pode classificar este país de 'atrasado' ou 'terceiro-mundista'? É uma aberração!,
fecho parêntesis.
Eles são os próprios brasileiros e angolanos e cabo-verdianos (ah, esperem, desde o ano passado ou quê, que a ONU veio dizer que Cabo Verde já não é 'muito pobre', agora já só é 'ligeiramente pobre') e os outros, os outros!, alemães, holandeses, americanos, quando atiram de Chivas '15 anos' a roçar nas barrigas proeminentes aqueles duas-palavras-juntas-com-hífen: 'terceiro-mundo'.
Assim, secos, de uísque seco em punho (no 'terceiro-mundo', normalmente quente, árido, difícil e injusto, o uísque, mesmo o '15 anos', tem de vir on the rocks) e uma estante e uma bagagem cheia de nada, nem sequer de vento. Nunca pensaram, nunca lhes passou pela cabeça que nesses longínquos 'terceiros-mundos' há pessoas que, estando perfeitamente abandonadas, sabem mais da vida e de nós todos.
Nunca lhes passou pela cabeça que eles próprios vivem em situações que eu posso considerar de 'terceiro-mundistas', mesmo só imaginando o que isso significa: ou será que fazer uma vida casa, trabalho, casa, e assim sucessivamente, sem estímulos de qualquer espécie, nem rasgos de vontade e intensidade próprias, é que é viver num edílico 'primeiro-mundo'?
Estas reminiscências das 'conferências de Berlim' e de um mundo ao contrário, habitado por pessoas que viveram séculos viradas do avesso, subsistem e deixam-me fatigado. A pergunta que fica será esta: alguém, na imagem em baixo, descortina um, dois, ou mesmo três 'mundos'?

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