Músicas da banda
0 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Friday, December 28, 2007 at 6:01 PM.
2 em 1
Começamos pela música 'Nzaji', do Ngola Ritmos.
Este agrupamento musical foi, durante as décadas de 50 e 60 do século XX, um dos pontos de viragem na luta contra o colonialismo. Contemporâneos do génio renovador de Liceu Vieira Dias (ele era o verdadeiro intervencionista político, chegando mesmo a marcar uma geração inteira de artistas) e através de um incrível 'erro feliz' político-estratégico, o Ngola Ritmos emergiu como uma das caras da cultura puramente angolana, cantada em língua nacional kimbundo (até então apenas era permitido gravar músicas cantadas em português - e isto incluia festivais e tudo), tocada com instrumentos tradicionais (a dikanza, ou reco-reco, marca toda a música) e com mensagens de certa forma subversivas, até porque o colono não percebia patavina do que se cantava.
Criaram uma imagem fostíssima e, para ajudar, arrebataram sucessos atrás de sucessos junto da população 'europeia', com digresssões pelo país (então 'distrito'...) inteiro.
É evidente que esta tentativa de apaziguar alguns ânimos teve precisamente o efeito contrário, ou seja, acabou por ser um sinal decisivo de consciencialização do povo angolano para certas batalhas que se seguiriam.
Escusado será dizer que ainda hoje as músicas do Ngola Ritmos são tocadas, reinventadas, rearranjadas, com destaque claro para a 'Muxima', talvez 'a' música de Angola (que a seu tempo será devidamente destacada).
Carlitos Vieira Dias é filho de Liceu Vieira Dias e continuou na senda do pai, tendo um papel activo na nova música angolana. Aqui com a música 'Mbirin Mbirin'.
Começamos pela música 'Nzaji', do Ngola Ritmos.
Este agrupamento musical foi, durante as décadas de 50 e 60 do século XX, um dos pontos de viragem na luta contra o colonialismo. Contemporâneos do génio renovador de Liceu Vieira Dias (ele era o verdadeiro intervencionista político, chegando mesmo a marcar uma geração inteira de artistas) e através de um incrível 'erro feliz' político-estratégico, o Ngola Ritmos emergiu como uma das caras da cultura puramente angolana, cantada em língua nacional kimbundo (até então apenas era permitido gravar músicas cantadas em português - e isto incluia festivais e tudo), tocada com instrumentos tradicionais (a dikanza, ou reco-reco, marca toda a música) e com mensagens de certa forma subversivas, até porque o colono não percebia patavina do que se cantava.
Criaram uma imagem fostíssima e, para ajudar, arrebataram sucessos atrás de sucessos junto da população 'europeia', com digresssões pelo país (então 'distrito'...) inteiro.
É evidente que esta tentativa de apaziguar alguns ânimos teve precisamente o efeito contrário, ou seja, acabou por ser um sinal decisivo de consciencialização do povo angolano para certas batalhas que se seguiriam.
Escusado será dizer que ainda hoje as músicas do Ngola Ritmos são tocadas, reinventadas, rearranjadas, com destaque claro para a 'Muxima', talvez 'a' música de Angola (que a seu tempo será devidamente destacada).
Carlitos Vieira Dias é filho de Liceu Vieira Dias e continuou na senda do pai, tendo um papel activo na nova música angolana. Aqui com a música 'Mbirin Mbirin'.
Labels: Carlitos Vieira Dias, Músicas da banda, Ngola Ritmos
Eleições
0 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Thursday, December 27, 2007 at 9:52 AM.
Presente de Natal e Fim-de-ano
Angola vai às urnas nos dias 5 e 6 de Setembro de 2008, anunciou o actual Presidente da República, José Eduardo dos Santos.
Após as primeiras e únicas eleições realizadas no já longínquo ano de 1992 (e sem direito a segunda-volta), Angola procura agora acertar o seu processo democrático, de fortalecimento do Estado e das instituições que o representam. Neste sentido, a realização de eleições é fundamental.
JES cumpre com a palavra (mais ou menos, mas enfim, política é isto mesmo) dada aos angolanos e marca a data oficial com, parece-me, a devida distância temporal, até porque grande parte do Registo Eleitoral está cumprido. Agora a bola está do lado dos partidos políticos e do povo angolano.
Espera-se que após a 'fase troglodita', o processo de crescimento e construção deste país entre agora numa fase mais harmoniosa, na busca do desenvolvimento e de mais igualdade e justiça.
(Nota: O 'angolapelosmeusolhos' vai, evidentemente, acompanhar a realização das Eleições Legislativas '08 (as Presidenciais são para 2009) e para isso inaugura-se hoje a secção 'eleições'.)
Angola vai às urnas nos dias 5 e 6 de Setembro de 2008, anunciou o actual Presidente da República, José Eduardo dos Santos.
Após as primeiras e únicas eleições realizadas no já longínquo ano de 1992 (e sem direito a segunda-volta), Angola procura agora acertar o seu processo democrático, de fortalecimento do Estado e das instituições que o representam. Neste sentido, a realização de eleições é fundamental.
JES cumpre com a palavra (mais ou menos, mas enfim, política é isto mesmo) dada aos angolanos e marca a data oficial com, parece-me, a devida distância temporal, até porque grande parte do Registo Eleitoral está cumprido. Agora a bola está do lado dos partidos políticos e do povo angolano.
Espera-se que após a 'fase troglodita', o processo de crescimento e construção deste país entre agora numa fase mais harmoniosa, na busca do desenvolvimento e de mais igualdade e justiça.
(Nota: O 'angolapelosmeusolhos' vai, evidentemente, acompanhar a realização das Eleições Legislativas '08 (as Presidenciais são para 2009) e para isso inaugura-se hoje a secção 'eleições'.)
Só os olhos podem contar boas histórias
Aqueles pedaços de terra juntos e duros, avençados de outras paragens, quando estão juntos podem ter todas as formas. É uma verdade, verdadeira. Descarregam-nas, atiram-nas umas contra as outras, transportam-nas quilómetros e quilómetros de um lado para o outro, atrás de mais formas e novas ideias. São pedras, pedrinhas, pedronas esmigalhadas uma e outra vez, sempre. Imagino uns tractores grandes, ou bulldozers ou quê, rodas altas e perigosas, a estilhaçar brita em enormes desejos do homem e da sua legítima procura por algo feliz – e daí surgem estradas e casas de pedra e, enfim, algumas pessoas e histórias que se alimentam de uma fonte de informação e riqueza.
Naquela capital africana, naquela Luanda que parece o que não tem parecença, que parece aquilo que nunca se viu, que parece uma cidade. Naquela Luanda, dizia, há uma rotunda com umas senhoras em bronze (ou será ferro?) e uns canteiros ajardinados e pedras, claro, alguém já viu algum jardim sem pedras? (Até pode haver uns quantos sem flores, sem relva, sem estátuas em ferro – ou será bronze? -, agora, sem pedras, pequenas, largas, em forma de cubo, não me lembro de nenhum.) E depois, em frente a esta rotunda há um prédio alto e cheio de antenas, rádio, televisão, satélites, e pessoas que parecem antenas, captam tudo, vendem tudo, fazem tudo.
O ramalhete é composto por partículas que são classificadas como ‘cliché’ (mais à frente voltaremos a este assunto) – o ‘lixo’, a ‘poeira’, as águas ‘verdejantes-e-paradas’, as ‘Cucas amarelas e deslocadas’ no ‘chão quente de África’: o melhor de tudo é que, do cimo do tal prédio a vista é, com certeza, a melhor para o ‘melhor pôr-do-sol do Mundo’, segundo dizem os especialistas em ‘pores-do-sol’. O de África, claro. Permitam-me abrir parêntesis. Escrevi este parágrafo porque me apeteceu, apesar de desconfiar da sua validade poético-artística-inspiradora. Estou no meu direito. Fecho parêntesis.
Como esta história não pretende ser um cliché, nem um lugar-comum (até porque Luanda não é comum a nada, talvez seja por isso que é bonita), vou contar aquilo que realmente interessa.
Um homem, chinês, talvez 30 anos, estava sentado, de perna traçada, no cume de 3 metros de brita-em-forma-triângulo. Sozinho, no meio de uma urbe desenfreada que, às 18 horas de todos os dias ‘menos domingo’, faz aquilo que fazem as pessoas ditas normais: regressa a casa. A cidade regressa a casa. Tinha um ar sonhador mas apenas observava, sintético, suspenso. Ele, enquanto personagem daquele quadro, pintado a óleo mascarrado e besuntado pelo calor numa tela imperfeita, olhava. Apenas.
Aqueles pedaços de terra juntos e duros, avençados de outras paragens, quando estão juntos podem ter todas as formas. É uma verdade, verdadeira. Descarregam-nas, atiram-nas umas contra as outras, transportam-nas quilómetros e quilómetros de um lado para o outro, atrás de mais formas e novas ideias. São pedras, pedrinhas, pedronas esmigalhadas uma e outra vez, sempre. Imagino uns tractores grandes, ou bulldozers ou quê, rodas altas e perigosas, a estilhaçar brita em enormes desejos do homem e da sua legítima procura por algo feliz – e daí surgem estradas e casas de pedra e, enfim, algumas pessoas e histórias que se alimentam de uma fonte de informação e riqueza.
Naquela capital africana, naquela Luanda que parece o que não tem parecença, que parece aquilo que nunca se viu, que parece uma cidade. Naquela Luanda, dizia, há uma rotunda com umas senhoras em bronze (ou será ferro?) e uns canteiros ajardinados e pedras, claro, alguém já viu algum jardim sem pedras? (Até pode haver uns quantos sem flores, sem relva, sem estátuas em ferro – ou será bronze? -, agora, sem pedras, pequenas, largas, em forma de cubo, não me lembro de nenhum.) E depois, em frente a esta rotunda há um prédio alto e cheio de antenas, rádio, televisão, satélites, e pessoas que parecem antenas, captam tudo, vendem tudo, fazem tudo.
O ramalhete é composto por partículas que são classificadas como ‘cliché’ (mais à frente voltaremos a este assunto) – o ‘lixo’, a ‘poeira’, as águas ‘verdejantes-e-paradas’, as ‘Cucas amarelas e deslocadas’ no ‘chão quente de África’: o melhor de tudo é que, do cimo do tal prédio a vista é, com certeza, a melhor para o ‘melhor pôr-do-sol do Mundo’, segundo dizem os especialistas em ‘pores-do-sol’. O de África, claro. Permitam-me abrir parêntesis. Escrevi este parágrafo porque me apeteceu, apesar de desconfiar da sua validade poético-artística-inspiradora. Estou no meu direito. Fecho parêntesis.
Como esta história não pretende ser um cliché, nem um lugar-comum (até porque Luanda não é comum a nada, talvez seja por isso que é bonita), vou contar aquilo que realmente interessa.
Um homem, chinês, talvez 30 anos, estava sentado, de perna traçada, no cume de 3 metros de brita-em-forma-triângulo. Sozinho, no meio de uma urbe desenfreada que, às 18 horas de todos os dias ‘menos domingo’, faz aquilo que fazem as pessoas ditas normais: regressa a casa. A cidade regressa a casa. Tinha um ar sonhador mas apenas observava, sintético, suspenso. Ele, enquanto personagem daquele quadro, pintado a óleo mascarrado e besuntado pelo calor numa tela imperfeita, olhava. Apenas.
Labels: Sul
O acordo ortográfico
PORTUGUÊS-BRASILEIRO
por Pedro Lomba
'Hoje em dia as livrarias por essa Europa fora já não têm só dicionários bilingues de português.
Em vez do francês-português ou do italiano-português, a tendência recente é para o francês-brasileiro ou para o italiano-brasileiro. Eu, que gosto muito da literatura e do jornalismo brasileiro, que aprecio a forma como os brasileiros transformaram o português velho e chato que falamos, fico um pouco chocado. Tenho uma amiga italiana que me diz que não está nem quer aprender português; está a aprender brasileiro. E o seu dicionário de bolso confirma-o.
Há com certeza muitas razões para que isto se passe, para que muitos europeus prefiram mentalmente o brasileiro ao português, ao ponto de pensarem que têm de escolher entre um e outro. O Brasil criou uma cultura popular própria, espontânea e festiva, que tem exportado para o resto do mundo com apreciável sucesso. Nós, portugueses, somos mais apagados, não fazemos tanto estrondo e ninguém nos vê como um produto apetecível. Um mundo obcecado com o ludismo e com a euforia preferirá sempre o samba ao fado.
Agora, só há uma língua, o português, e parece-me óbvio que alguma coisa anda a falhar.
O acordo ortográfico que Portugal assinou há mais de 15 anos e nunca ratificou tem tudo a ver com esta cisão entre o português e o brasileiro. A forma como o Brasil projecta a língua portuguesa no mundo é, gostemos ou não, incomparavelmente superior à que está ao nosso alcance. Havendo uma língua única, devemos perguntar se será sensato insistir numa divisão desnecessária e complicativa das regras ortográficas dos dois países. É certo que a ortografia é, acima de tudo, uma aprendizagem.
Talvez nenhum acordo ou voluntarismo altere facilmente a maneira como escrevemos.
Acho que quem não se vê a escrever "úmido", "excetuando" ou "ótimo" porque nunca aprendeu a escrever assim, usa um argumento sério. Uma língua faz-se de códigos e normas que se aprendem e se transmitem como dados adquiridos. No entanto, quando se sabe que as actas das reuniões da CPLP são feitas em duas línguas ou que é preciso fazer traduções portuguesas de obras brasileiras só porque nós escrevemos "acção" e eles "ação", a pergunta que fica é qual a racionalidade de tudo isto. O acordo ortográfico não vem salvar, uniformizar ou destruir a língua portuguesa. Até porque a língua portuguesa não precisa de ser salva, nem pode ser destruída. O interesse do acordo é, no essencial, prático.
Continuaremos a dizer "giro" sem que os brasileiros nos percebam, tal como os brasileiros continuarão a falar em "propinas" sem que estejam a referir-se às nossas propinas. Uma língua comum é feita de várias tonalidades.
Pode ser que assim a minha amiga italiana se decida pelo português.' in DN, 13.13.07
É uma visão que me agrada bastante - o Pedro Lomba toca em todos os pontos fulcrais do famoso 'Acordo Ortográfico'. Faz sentido que existam dicionários 'francês-brasileiro'? Não, não faz, apesar de o Brasil ser, claramente, o maior e melhor transportador da língua portuguesa - através da música, da sua expressividade e, claro, através dos seus 175 milhões de brasileiros-a-falar-português.
Não pode haver dúvidas quanto a esta 'superioridade'.
Ora, o que está escrito na opinião aqui publicada, é bastante diferente daquilo que o 'incrível' e 'majestoso' (irmãos à parte, hellas...) Vasco Graça Moura tem vindo a debitar sobre o Acordo (aqui e aqui, mais aqui).
É incrível que se tome a língua portuguesa, hoje em dia, como um argumento 'Português de Portugal' - queria dizer ao Vasco Graça Moura que, infelizmente para ele, todos os outros países lusófonos contribuíram muito mais para o reforço e unidade da língua do que ele imagina. Ao contrário do que se possa pensar, isto é uma 'propriedade e uma qualidade' e não um 'defeito'.
Depois, as questões relacionadas com a vertente economicista da questão são um perfeito disparate, até arrepiam só de pensar (suspeito, e se calhar estou a ser ingénuo ou desinformado, que o Moura tem interesses financeiros na indústria editorial). Fará, porventura, sentido algum, fazerem-se edições duplicadas ('brasileiro' e 'português'), apenas porque não se convencionou o que é, afinal, o português?
É um logro. Até porque o mercado editorial lusófono continua uma fraude - só para exemplificar, o último livro do angolano José Eduardo Agualusa ('As mulheres do meu pai', edição portuguesa), custava, no acto de lançamento aqui em Luanda, 30 dólares americanos! Um roubo.
O mesmo Agualusa dizia, informalmente, que isto do Acordo Ortográfico 'se fosse bem feito, nem dariamos por ela'. Exacto.
PORTUGUÊS-BRASILEIRO
por Pedro Lomba
'Hoje em dia as livrarias por essa Europa fora já não têm só dicionários bilingues de português.
Em vez do francês-português ou do italiano-português, a tendência recente é para o francês-brasileiro ou para o italiano-brasileiro. Eu, que gosto muito da literatura e do jornalismo brasileiro, que aprecio a forma como os brasileiros transformaram o português velho e chato que falamos, fico um pouco chocado. Tenho uma amiga italiana que me diz que não está nem quer aprender português; está a aprender brasileiro. E o seu dicionário de bolso confirma-o.
Há com certeza muitas razões para que isto se passe, para que muitos europeus prefiram mentalmente o brasileiro ao português, ao ponto de pensarem que têm de escolher entre um e outro. O Brasil criou uma cultura popular própria, espontânea e festiva, que tem exportado para o resto do mundo com apreciável sucesso. Nós, portugueses, somos mais apagados, não fazemos tanto estrondo e ninguém nos vê como um produto apetecível. Um mundo obcecado com o ludismo e com a euforia preferirá sempre o samba ao fado.
Agora, só há uma língua, o português, e parece-me óbvio que alguma coisa anda a falhar.
O acordo ortográfico que Portugal assinou há mais de 15 anos e nunca ratificou tem tudo a ver com esta cisão entre o português e o brasileiro. A forma como o Brasil projecta a língua portuguesa no mundo é, gostemos ou não, incomparavelmente superior à que está ao nosso alcance. Havendo uma língua única, devemos perguntar se será sensato insistir numa divisão desnecessária e complicativa das regras ortográficas dos dois países. É certo que a ortografia é, acima de tudo, uma aprendizagem.
Talvez nenhum acordo ou voluntarismo altere facilmente a maneira como escrevemos.
Acho que quem não se vê a escrever "úmido", "excetuando" ou "ótimo" porque nunca aprendeu a escrever assim, usa um argumento sério. Uma língua faz-se de códigos e normas que se aprendem e se transmitem como dados adquiridos. No entanto, quando se sabe que as actas das reuniões da CPLP são feitas em duas línguas ou que é preciso fazer traduções portuguesas de obras brasileiras só porque nós escrevemos "acção" e eles "ação", a pergunta que fica é qual a racionalidade de tudo isto. O acordo ortográfico não vem salvar, uniformizar ou destruir a língua portuguesa. Até porque a língua portuguesa não precisa de ser salva, nem pode ser destruída. O interesse do acordo é, no essencial, prático.
Continuaremos a dizer "giro" sem que os brasileiros nos percebam, tal como os brasileiros continuarão a falar em "propinas" sem que estejam a referir-se às nossas propinas. Uma língua comum é feita de várias tonalidades.
Pode ser que assim a minha amiga italiana se decida pelo português.' in DN, 13.13.07
É uma visão que me agrada bastante - o Pedro Lomba toca em todos os pontos fulcrais do famoso 'Acordo Ortográfico'. Faz sentido que existam dicionários 'francês-brasileiro'? Não, não faz, apesar de o Brasil ser, claramente, o maior e melhor transportador da língua portuguesa - através da música, da sua expressividade e, claro, através dos seus 175 milhões de brasileiros-a-falar-português.
Não pode haver dúvidas quanto a esta 'superioridade'.
Ora, o que está escrito na opinião aqui publicada, é bastante diferente daquilo que o 'incrível' e 'majestoso' (irmãos à parte, hellas...) Vasco Graça Moura tem vindo a debitar sobre o Acordo (aqui e aqui, mais aqui).
É incrível que se tome a língua portuguesa, hoje em dia, como um argumento 'Português de Portugal' - queria dizer ao Vasco Graça Moura que, infelizmente para ele, todos os outros países lusófonos contribuíram muito mais para o reforço e unidade da língua do que ele imagina. Ao contrário do que se possa pensar, isto é uma 'propriedade e uma qualidade' e não um 'defeito'.
Depois, as questões relacionadas com a vertente economicista da questão são um perfeito disparate, até arrepiam só de pensar (suspeito, e se calhar estou a ser ingénuo ou desinformado, que o Moura tem interesses financeiros na indústria editorial). Fará, porventura, sentido algum, fazerem-se edições duplicadas ('brasileiro' e 'português'), apenas porque não se convencionou o que é, afinal, o português?
É um logro. Até porque o mercado editorial lusófono continua uma fraude - só para exemplificar, o último livro do angolano José Eduardo Agualusa ('As mulheres do meu pai', edição portuguesa), custava, no acto de lançamento aqui em Luanda, 30 dólares americanos! Um roubo.
O mesmo Agualusa dizia, informalmente, que isto do Acordo Ortográfico 'se fosse bem feito, nem dariamos por ela'. Exacto.
Labels: Acordo Ortográfico, Este, Lusofonia, Norte, Oeste, Sul
Interregnos
0 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Wednesday, December 12, 2007 at 6:54 AM.
Ainda a cimeira UE/África
De facto, há coisas que me deixam espantado, por um lado, receoso, por outro. Aqui.
Este senhor, que eu não conheço, titula o seu artigo de opinião da seguinte forma: 'Se Mugabe mudar um milímetro o ultimato de 1890 está vingado'.
Resumo: isto, a África (especialmente aquela do cliché do pôr-do-sol 'maravilhoso e único', a do continente 'colorido e folclórico como não há igual' e o das 'pessoas alegres, mesmo passando as dificuldades que passam' e, já agora, a dos petróleos e o resto) continua a ser uma coisa para ser discutida entre 'portugueses' e 'ingleses'. Ele tenta dizer, por '1 mais 1, igual a 24', que, pelo facto do Mugabe ter estado presente na cimeira e de ter sido interpelado relativamente à situação no seu país, em contraponto com a ausência declarada (e discriminatória, arrisco) de grandes figuras inglesas, poderia levar a alguma mudança e, dessa forma, comprovar a 'influência' e 'respeito' que os portugueses ainda granjeam em África, ao contrário de outros.
Isto seria, por mais estranho que possa parecer, uma forma de 'vingar' a influência inglesa no fracassado projecto 'tuga', conhecido como 'mapa cor-de-rosa'. Faltam-me adjectivos para classificar tremendo disparate (vá lá, consegui desencantar um).
Pior do que determinadas teorias é constatar que a tónica da relação UE/África continua a ser esta. A de que os 'europeus' deram (e continuam a 'dar', como titulou o 'Correio da Manhã' logo na sexta-feira, dia 7 de Dezembro, ainda a cimeira não tinha arrancado...) muito mais a África do que África deu à Europa e que certas 'vinganças' ainda são possíveis e desejáveis, até porque há uma certa legitimidade neste pensamento, neste processo compensatório, consideram eles. Tristemente ridículo.
A tal postura é visível também no discurso racista/colonialista/imperialista de grande parte dos habitantes daquele continente, que nunca chegaram a compreender que hoje são ricos porque levaram tudo o que quiseram daqui, praticamente sem pagar: e isto inclui, obviamente, uma quantidade astronómica de cérebros, ou seja, para além da pilhagem material, ainda conseguiram deslocar e arrecadar os mais inteligentes e capazes.
Esta estratégia é visível quando, na excelente série de reportagens 'A Guerra' (confesso que só vi dois episódios, incrivelmente bons e com uma abordagem que me agrada bastante), do jornalista Joaquim Furtado, somos informados que 'só poderiam ir à escola os assimilados, reconhecidos administrativamente como tal' - muitos deles acabaram por ir estudar para a 'metrópole' e nunca regressaram à 'banda', obviamente; já Sarkozy, em recente visita ao Benin, perguntava, espantado-mas-orgulhoso: 'como é possível haver em França mais médicos beninenses, do que médicos em todo o Benin?'. Por acaso gostava que tivesse respondido à questão, em vez de a ter formulado.
Sabem do que África precisa e nunca teve? De respeito - pela sua incrível história, pela sua cultura, pelas pessoas que nela habitam. Pelo futuro. Pela soberania conquistada a ferro e fogo. Só.
O resto virá depois.
De facto, há coisas que me deixam espantado, por um lado, receoso, por outro. Aqui.
Este senhor, que eu não conheço, titula o seu artigo de opinião da seguinte forma: 'Se Mugabe mudar um milímetro o ultimato de 1890 está vingado'.
Resumo: isto, a África (especialmente aquela do cliché do pôr-do-sol 'maravilhoso e único', a do continente 'colorido e folclórico como não há igual' e o das 'pessoas alegres, mesmo passando as dificuldades que passam' e, já agora, a dos petróleos e o resto) continua a ser uma coisa para ser discutida entre 'portugueses' e 'ingleses'. Ele tenta dizer, por '1 mais 1, igual a 24', que, pelo facto do Mugabe ter estado presente na cimeira e de ter sido interpelado relativamente à situação no seu país, em contraponto com a ausência declarada (e discriminatória, arrisco) de grandes figuras inglesas, poderia levar a alguma mudança e, dessa forma, comprovar a 'influência' e 'respeito' que os portugueses ainda granjeam em África, ao contrário de outros.
Isto seria, por mais estranho que possa parecer, uma forma de 'vingar' a influência inglesa no fracassado projecto 'tuga', conhecido como 'mapa cor-de-rosa'. Faltam-me adjectivos para classificar tremendo disparate (vá lá, consegui desencantar um).
Pior do que determinadas teorias é constatar que a tónica da relação UE/África continua a ser esta. A de que os 'europeus' deram (e continuam a 'dar', como titulou o 'Correio da Manhã' logo na sexta-feira, dia 7 de Dezembro, ainda a cimeira não tinha arrancado...) muito mais a África do que África deu à Europa e que certas 'vinganças' ainda são possíveis e desejáveis, até porque há uma certa legitimidade neste pensamento, neste processo compensatório, consideram eles. Tristemente ridículo.
A tal postura é visível também no discurso racista/colonialista/imperialista de grande parte dos habitantes daquele continente, que nunca chegaram a compreender que hoje são ricos porque levaram tudo o que quiseram daqui, praticamente sem pagar: e isto inclui, obviamente, uma quantidade astronómica de cérebros, ou seja, para além da pilhagem material, ainda conseguiram deslocar e arrecadar os mais inteligentes e capazes.
Esta estratégia é visível quando, na excelente série de reportagens 'A Guerra' (confesso que só vi dois episódios, incrivelmente bons e com uma abordagem que me agrada bastante), do jornalista Joaquim Furtado, somos informados que 'só poderiam ir à escola os assimilados, reconhecidos administrativamente como tal' - muitos deles acabaram por ir estudar para a 'metrópole' e nunca regressaram à 'banda', obviamente; já Sarkozy, em recente visita ao Benin, perguntava, espantado-mas-orgulhoso: 'como é possível haver em França mais médicos beninenses, do que médicos em todo o Benin?'. Por acaso gostava que tivesse respondido à questão, em vez de a ter formulado.
Sabem do que África precisa e nunca teve? De respeito - pela sua incrível história, pela sua cultura, pelas pessoas que nela habitam. Pelo futuro. Pela soberania conquistada a ferro e fogo. Só.
O resto virá depois.
Labels: Interregnos, Norte
Interregnos
1 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Thursday, December 06, 2007 at 2:05 AM.
1. A cimeira UE/África e algumas impressões prévias
Como se sabe, no próximo fim-de-semana, 8 e 9 de Dezembro, vai ser realizada a cimeira do Mugabe e do Bro(che).... arrr, não, a cimeira, dizia, UE/África. Assim é que é.
Sobre isto, o 'Correio da Manhã' estampa assim: 'Europa manda chuva de milhões para África'.
Quando as coisas são postas nestes termos, aquilo que parece é que a 'Europa' (os ricos, bem cheirosos e empertigados) vai 'fazer chover' (o que em algumas regiões de África seria bem mais importante do que vinte camiões de milhões de dólares) 'mais uns quantos barris de dinheiro' para 'ajudar' os 'coitadinhos', aqueles que 'a gente vemos todos os dias no jornal da noite'.
Eu diria que perante este paradigma pouco há a discutir. As reuniões vão ser um monólogo Mugabe, Mugabe, Mugabe, entrecortados por dinheiro, dinheiro, dinheiro. Não é uma boa agenda. Primeiro, porque o Mugabe é um pobre coitado, quase sem eira nem beira. Mais cedo ou mais tarde cairá de podre e todos vamos rir e chorar com a degradação a que um país chegou.
Segundo, porque - espanta-me como ainda não se percebeu isto - 'África' (na verdade, só esta maneira de falar de um continente já é altamente redutora, ou será que podemos comparar um 'Marrocos' com um 'Moçambique'? Ou um 'Ruanda' com uma 'África do Sul'? Adiante.) não precisa de dinheiro. Vou repetir: 'África' não precisa de dinheiro. Mais uma vez:
- África não precisa de dinheiro. Pelo menos assim, à toa, tipo puxo o cheque e toma lá 'uma chuva de milhões'. Não, assim não.
Até porque estes valores vêm em que forma? Daquilo que tenho conhecimento, é mais ou menos assim - uma parte em projectos oficiais (leia-se 'linhas de crédito', linhas de 'financiamento para projectos sociais', 'investimento, directo ou indirecto'), outra para financiar a actividade de ONG's e companhia limitada.
Haverá melhor forma do que financiar os 'Mugabes'? Não me parece. O que me parece, sinceramente, é que estes dinheiros estão a comprar outros interesses, interesses económicos, claro. Porque se é verdade que a Europa envia 'uma chuva de milhões' para 'África', também é uma verdade verdadinha que 'África' envia, só em petróleo, por exemplo, uma chuva de barris... por dia. Chuva que entra direitinha nos bolsos dos 'Mugabes' em forma de dólar. Não é?
2. As ONG's
Eu também tinha um sonho - ir percorrer o mundo 'para ajudar alguém'. Assim.
Uma coisa bonita, faz-nos sentir importantes, bonitos e profilácticos. E hipócritas, talvez - de repente, mesmo mesmo, agora, não me consigo recordar de um projecto estruturante e que tenha deixado marcas profundas num bairro, numa vila, numa cidade angolana. Recordo-me da 'missão católica' no Dondo (os 'Salesianos' do Dondo), ao Kwanza-sul, por exemplo, onde para além da Escola primária e do 'ATL' (entre entre aspas), têm ainda um Instituto Médio de Formação. Uma obra de décadas, de dificuldades e de muita persistência.
Agora, ONG's financiadas por dinheiros estrangeiros, nada (recordo-me também do trabalho da ONG angolana 'Omunga', no Lobito, que tem desenvolvido actividades interessantes; como é evidente, estes rapazes são perseguidos, não têm dinheiro, uma série de dificuldades; posso falar também da 'Mãos livres', do activista angolano Luiz Araújo, que enfrenta, com certeza, os mesmíssimos problemas).
O que eu vejo é estes rapazes e raparigas 'das ONG's' a viverem, muitas das vezes, à grande e à francesa, fechados em círculos viciosos de trabalho e de boa vida - quando me disseram que estes 'ajudantes' ganham à volta de 3 mil dólares por mês, com casa, comida e roupa lavada (pode chegar aos 12 mil dólares!), espantei-me. Arrepiei-me. Pior: muitas das vezes não fazem realmente nada.
Resumidamente - a maior parte das tais ONG's são um grande tacho para uma série de pessoas e de países. São um antro de dinheiro e de energias mal gastas. Muitas das vezes limitam de forma clara a actividade de associações cívicas e ONG's nacionais, que, na maior parte das vezes, conhecem o terreno, as pessoas, as dificuldades e, mais do que isso, podem fazer um trabalho contínuo e mais profundo - ao contrário das ditas 'ONG's', que montam uma plataforma giratória de pessoal estrangeiro, não contratam practicamente 'nacionais' nenhuns (tirando motoristas, lavadeiras e secretárias, claro) e que, ao fim de um determinado tempo, fecham a tenda e bazam.
Pelo meio, há organizações que desenvolvem, claramente, actividades políticas ou politizadas, muitas vezes sem terem competência nem autorização para tal. Outros, querem fazer 'negócio': para mim, aqueles anormais-pedófilos-criminosos que queriam levar 100 e tal miúdos do Chade em direcção a França, podiam ser queimados na fogueira. E se calhar era pouco.
Como se sabe, no próximo fim-de-semana, 8 e 9 de Dezembro, vai ser realizada a cimeira do Mugabe e do Bro(che).... arrr, não, a cimeira, dizia, UE/África. Assim é que é.
Sobre isto, o 'Correio da Manhã' estampa assim: 'Europa manda chuva de milhões para África'.
Quando as coisas são postas nestes termos, aquilo que parece é que a 'Europa' (os ricos, bem cheirosos e empertigados) vai 'fazer chover' (o que em algumas regiões de África seria bem mais importante do que vinte camiões de milhões de dólares) 'mais uns quantos barris de dinheiro' para 'ajudar' os 'coitadinhos', aqueles que 'a gente vemos todos os dias no jornal da noite'.
Eu diria que perante este paradigma pouco há a discutir. As reuniões vão ser um monólogo Mugabe, Mugabe, Mugabe, entrecortados por dinheiro, dinheiro, dinheiro. Não é uma boa agenda. Primeiro, porque o Mugabe é um pobre coitado, quase sem eira nem beira. Mais cedo ou mais tarde cairá de podre e todos vamos rir e chorar com a degradação a que um país chegou.
Segundo, porque - espanta-me como ainda não se percebeu isto - 'África' (na verdade, só esta maneira de falar de um continente já é altamente redutora, ou será que podemos comparar um 'Marrocos' com um 'Moçambique'? Ou um 'Ruanda' com uma 'África do Sul'? Adiante.) não precisa de dinheiro. Vou repetir: 'África' não precisa de dinheiro. Mais uma vez:
- África não precisa de dinheiro. Pelo menos assim, à toa, tipo puxo o cheque e toma lá 'uma chuva de milhões'. Não, assim não.
Até porque estes valores vêm em que forma? Daquilo que tenho conhecimento, é mais ou menos assim - uma parte em projectos oficiais (leia-se 'linhas de crédito', linhas de 'financiamento para projectos sociais', 'investimento, directo ou indirecto'), outra para financiar a actividade de ONG's e companhia limitada.
Haverá melhor forma do que financiar os 'Mugabes'? Não me parece. O que me parece, sinceramente, é que estes dinheiros estão a comprar outros interesses, interesses económicos, claro. Porque se é verdade que a Europa envia 'uma chuva de milhões' para 'África', também é uma verdade verdadinha que 'África' envia, só em petróleo, por exemplo, uma chuva de barris... por dia. Chuva que entra direitinha nos bolsos dos 'Mugabes' em forma de dólar. Não é?
2. As ONG's
Eu também tinha um sonho - ir percorrer o mundo 'para ajudar alguém'. Assim.
Uma coisa bonita, faz-nos sentir importantes, bonitos e profilácticos. E hipócritas, talvez - de repente, mesmo mesmo, agora, não me consigo recordar de um projecto estruturante e que tenha deixado marcas profundas num bairro, numa vila, numa cidade angolana. Recordo-me da 'missão católica' no Dondo (os 'Salesianos' do Dondo), ao Kwanza-sul, por exemplo, onde para além da Escola primária e do 'ATL' (entre entre aspas), têm ainda um Instituto Médio de Formação. Uma obra de décadas, de dificuldades e de muita persistência.
Agora, ONG's financiadas por dinheiros estrangeiros, nada (recordo-me também do trabalho da ONG angolana 'Omunga', no Lobito, que tem desenvolvido actividades interessantes; como é evidente, estes rapazes são perseguidos, não têm dinheiro, uma série de dificuldades; posso falar também da 'Mãos livres', do activista angolano Luiz Araújo, que enfrenta, com certeza, os mesmíssimos problemas).
O que eu vejo é estes rapazes e raparigas 'das ONG's' a viverem, muitas das vezes, à grande e à francesa, fechados em círculos viciosos de trabalho e de boa vida - quando me disseram que estes 'ajudantes' ganham à volta de 3 mil dólares por mês, com casa, comida e roupa lavada (pode chegar aos 12 mil dólares!), espantei-me. Arrepiei-me. Pior: muitas das vezes não fazem realmente nada.
Resumidamente - a maior parte das tais ONG's são um grande tacho para uma série de pessoas e de países. São um antro de dinheiro e de energias mal gastas. Muitas das vezes limitam de forma clara a actividade de associações cívicas e ONG's nacionais, que, na maior parte das vezes, conhecem o terreno, as pessoas, as dificuldades e, mais do que isso, podem fazer um trabalho contínuo e mais profundo - ao contrário das ditas 'ONG's', que montam uma plataforma giratória de pessoal estrangeiro, não contratam practicamente 'nacionais' nenhuns (tirando motoristas, lavadeiras e secretárias, claro) e que, ao fim de um determinado tempo, fecham a tenda e bazam.
Pelo meio, há organizações que desenvolvem, claramente, actividades políticas ou politizadas, muitas vezes sem terem competência nem autorização para tal. Outros, querem fazer 'negócio': para mim, aqueles anormais-pedófilos-criminosos que queriam levar 100 e tal miúdos do Chade em direcção a França, podiam ser queimados na fogueira. E se calhar era pouco.
Labels: Interregnos
