Só os olhos podem contar boas histórias
Aqueles pedaços de terra juntos e duros, avençados de outras paragens, quando estão juntos podem ter todas as formas. É uma verdade, verdadeira. Descarregam-nas, atiram-nas umas contra as outras, transportam-nas quilómetros e quilómetros de um lado para o outro, atrás de mais formas e novas ideias. São pedras, pedrinhas, pedronas esmigalhadas uma e outra vez, sempre. Imagino uns tractores grandes, ou bulldozers ou quê, rodas altas e perigosas, a estilhaçar brita em enormes desejos do homem e da sua legítima procura por algo feliz – e daí surgem estradas e casas de pedra e, enfim, algumas pessoas e histórias que se alimentam de uma fonte de informação e riqueza.
Naquela capital africana, naquela Luanda que parece o que não tem parecença, que parece aquilo que nunca se viu, que parece uma cidade. Naquela Luanda, dizia, há uma rotunda com umas senhoras em bronze (ou será ferro?) e uns canteiros ajardinados e pedras, claro, alguém já viu algum jardim sem pedras? (Até pode haver uns quantos sem flores, sem relva, sem estátuas em ferro – ou será bronze? -, agora, sem pedras, pequenas, largas, em forma de cubo, não me lembro de nenhum.) E depois, em frente a esta rotunda há um prédio alto e cheio de antenas, rádio, televisão, satélites, e pessoas que parecem antenas, captam tudo, vendem tudo, fazem tudo.
O ramalhete é composto por partículas que são classificadas como ‘cliché’ (mais à frente voltaremos a este assunto) – o ‘lixo’, a ‘poeira’, as águas ‘verdejantes-e-paradas’, as ‘Cucas amarelas e deslocadas’ no ‘chão quente de África’: o melhor de tudo é que, do cimo do tal prédio a vista é, com certeza, a melhor para o ‘melhor pôr-do-sol do Mundo’, segundo dizem os especialistas em ‘pores-do-sol’. O de África, claro. Permitam-me abrir parêntesis. Escrevi este parágrafo porque me apeteceu, apesar de desconfiar da sua validade poético-artística-inspiradora. Estou no meu direito. Fecho parêntesis.
Como esta história não pretende ser um cliché, nem um lugar-comum (até porque Luanda não é comum a nada, talvez seja por isso que é bonita), vou contar aquilo que realmente interessa.
Um homem, chinês, talvez 30 anos, estava sentado, de perna traçada, no cume de 3 metros de brita-em-forma-triângulo. Sozinho, no meio de uma urbe desenfreada que, às 18 horas de todos os dias ‘menos domingo’, faz aquilo que fazem as pessoas ditas normais: regressa a casa. A cidade regressa a casa. Tinha um ar sonhador mas apenas observava, sintético, suspenso. Ele, enquanto personagem daquele quadro, pintado a óleo mascarrado e besuntado pelo calor numa tela imperfeita, olhava. Apenas.
Aqueles pedaços de terra juntos e duros, avençados de outras paragens, quando estão juntos podem ter todas as formas. É uma verdade, verdadeira. Descarregam-nas, atiram-nas umas contra as outras, transportam-nas quilómetros e quilómetros de um lado para o outro, atrás de mais formas e novas ideias. São pedras, pedrinhas, pedronas esmigalhadas uma e outra vez, sempre. Imagino uns tractores grandes, ou bulldozers ou quê, rodas altas e perigosas, a estilhaçar brita em enormes desejos do homem e da sua legítima procura por algo feliz – e daí surgem estradas e casas de pedra e, enfim, algumas pessoas e histórias que se alimentam de uma fonte de informação e riqueza.
Naquela capital africana, naquela Luanda que parece o que não tem parecença, que parece aquilo que nunca se viu, que parece uma cidade. Naquela Luanda, dizia, há uma rotunda com umas senhoras em bronze (ou será ferro?) e uns canteiros ajardinados e pedras, claro, alguém já viu algum jardim sem pedras? (Até pode haver uns quantos sem flores, sem relva, sem estátuas em ferro – ou será bronze? -, agora, sem pedras, pequenas, largas, em forma de cubo, não me lembro de nenhum.) E depois, em frente a esta rotunda há um prédio alto e cheio de antenas, rádio, televisão, satélites, e pessoas que parecem antenas, captam tudo, vendem tudo, fazem tudo.
O ramalhete é composto por partículas que são classificadas como ‘cliché’ (mais à frente voltaremos a este assunto) – o ‘lixo’, a ‘poeira’, as águas ‘verdejantes-e-paradas’, as ‘Cucas amarelas e deslocadas’ no ‘chão quente de África’: o melhor de tudo é que, do cimo do tal prédio a vista é, com certeza, a melhor para o ‘melhor pôr-do-sol do Mundo’, segundo dizem os especialistas em ‘pores-do-sol’. O de África, claro. Permitam-me abrir parêntesis. Escrevi este parágrafo porque me apeteceu, apesar de desconfiar da sua validade poético-artística-inspiradora. Estou no meu direito. Fecho parêntesis.
Como esta história não pretende ser um cliché, nem um lugar-comum (até porque Luanda não é comum a nada, talvez seja por isso que é bonita), vou contar aquilo que realmente interessa.
Um homem, chinês, talvez 30 anos, estava sentado, de perna traçada, no cume de 3 metros de brita-em-forma-triângulo. Sozinho, no meio de uma urbe desenfreada que, às 18 horas de todos os dias ‘menos domingo’, faz aquilo que fazem as pessoas ditas normais: regressa a casa. A cidade regressa a casa. Tinha um ar sonhador mas apenas observava, sintético, suspenso. Ele, enquanto personagem daquele quadro, pintado a óleo mascarrado e besuntado pelo calor numa tela imperfeita, olhava. Apenas.
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