Lusofonia
2 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Thursday, December 13, 2007 at 3:20 AM.
O acordo ortográfico
PORTUGUÊS-BRASILEIRO
por Pedro Lomba
'Hoje em dia as livrarias por essa Europa fora já não têm só dicionários bilingues de português.
Em vez do francês-português ou do italiano-português, a tendência recente é para o francês-brasileiro ou para o italiano-brasileiro. Eu, que gosto muito da literatura e do jornalismo brasileiro, que aprecio a forma como os brasileiros transformaram o português velho e chato que falamos, fico um pouco chocado. Tenho uma amiga italiana que me diz que não está nem quer aprender português; está a aprender brasileiro. E o seu dicionário de bolso confirma-o.
Há com certeza muitas razões para que isto se passe, para que muitos europeus prefiram mentalmente o brasileiro ao português, ao ponto de pensarem que têm de escolher entre um e outro. O Brasil criou uma cultura popular própria, espontânea e festiva, que tem exportado para o resto do mundo com apreciável sucesso. Nós, portugueses, somos mais apagados, não fazemos tanto estrondo e ninguém nos vê como um produto apetecível. Um mundo obcecado com o ludismo e com a euforia preferirá sempre o samba ao fado.
Agora, só há uma língua, o português, e parece-me óbvio que alguma coisa anda a falhar.
O acordo ortográfico que Portugal assinou há mais de 15 anos e nunca ratificou tem tudo a ver com esta cisão entre o português e o brasileiro. A forma como o Brasil projecta a língua portuguesa no mundo é, gostemos ou não, incomparavelmente superior à que está ao nosso alcance. Havendo uma língua única, devemos perguntar se será sensato insistir numa divisão desnecessária e complicativa das regras ortográficas dos dois países. É certo que a ortografia é, acima de tudo, uma aprendizagem.
Talvez nenhum acordo ou voluntarismo altere facilmente a maneira como escrevemos.
Acho que quem não se vê a escrever "úmido", "excetuando" ou "ótimo" porque nunca aprendeu a escrever assim, usa um argumento sério. Uma língua faz-se de códigos e normas que se aprendem e se transmitem como dados adquiridos. No entanto, quando se sabe que as actas das reuniões da CPLP são feitas em duas línguas ou que é preciso fazer traduções portuguesas de obras brasileiras só porque nós escrevemos "acção" e eles "ação", a pergunta que fica é qual a racionalidade de tudo isto. O acordo ortográfico não vem salvar, uniformizar ou destruir a língua portuguesa. Até porque a língua portuguesa não precisa de ser salva, nem pode ser destruída. O interesse do acordo é, no essencial, prático.
Continuaremos a dizer "giro" sem que os brasileiros nos percebam, tal como os brasileiros continuarão a falar em "propinas" sem que estejam a referir-se às nossas propinas. Uma língua comum é feita de várias tonalidades.
Pode ser que assim a minha amiga italiana se decida pelo português.' in DN, 13.13.07
É uma visão que me agrada bastante - o Pedro Lomba toca em todos os pontos fulcrais do famoso 'Acordo Ortográfico'. Faz sentido que existam dicionários 'francês-brasileiro'? Não, não faz, apesar de o Brasil ser, claramente, o maior e melhor transportador da língua portuguesa - através da música, da sua expressividade e, claro, através dos seus 175 milhões de brasileiros-a-falar-português.
Não pode haver dúvidas quanto a esta 'superioridade'.
Ora, o que está escrito na opinião aqui publicada, é bastante diferente daquilo que o 'incrível' e 'majestoso' (irmãos à parte, hellas...) Vasco Graça Moura tem vindo a debitar sobre o Acordo (aqui e aqui, mais aqui).
É incrível que se tome a língua portuguesa, hoje em dia, como um argumento 'Português de Portugal' - queria dizer ao Vasco Graça Moura que, infelizmente para ele, todos os outros países lusófonos contribuíram muito mais para o reforço e unidade da língua do que ele imagina. Ao contrário do que se possa pensar, isto é uma 'propriedade e uma qualidade' e não um 'defeito'.
Depois, as questões relacionadas com a vertente economicista da questão são um perfeito disparate, até arrepiam só de pensar (suspeito, e se calhar estou a ser ingénuo ou desinformado, que o Moura tem interesses financeiros na indústria editorial). Fará, porventura, sentido algum, fazerem-se edições duplicadas ('brasileiro' e 'português'), apenas porque não se convencionou o que é, afinal, o português?
É um logro. Até porque o mercado editorial lusófono continua uma fraude - só para exemplificar, o último livro do angolano José Eduardo Agualusa ('As mulheres do meu pai', edição portuguesa), custava, no acto de lançamento aqui em Luanda, 30 dólares americanos! Um roubo.
O mesmo Agualusa dizia, informalmente, que isto do Acordo Ortográfico 'se fosse bem feito, nem dariamos por ela'. Exacto.
PORTUGUÊS-BRASILEIRO
por Pedro Lomba
'Hoje em dia as livrarias por essa Europa fora já não têm só dicionários bilingues de português.
Em vez do francês-português ou do italiano-português, a tendência recente é para o francês-brasileiro ou para o italiano-brasileiro. Eu, que gosto muito da literatura e do jornalismo brasileiro, que aprecio a forma como os brasileiros transformaram o português velho e chato que falamos, fico um pouco chocado. Tenho uma amiga italiana que me diz que não está nem quer aprender português; está a aprender brasileiro. E o seu dicionário de bolso confirma-o.
Há com certeza muitas razões para que isto se passe, para que muitos europeus prefiram mentalmente o brasileiro ao português, ao ponto de pensarem que têm de escolher entre um e outro. O Brasil criou uma cultura popular própria, espontânea e festiva, que tem exportado para o resto do mundo com apreciável sucesso. Nós, portugueses, somos mais apagados, não fazemos tanto estrondo e ninguém nos vê como um produto apetecível. Um mundo obcecado com o ludismo e com a euforia preferirá sempre o samba ao fado.
Agora, só há uma língua, o português, e parece-me óbvio que alguma coisa anda a falhar.
O acordo ortográfico que Portugal assinou há mais de 15 anos e nunca ratificou tem tudo a ver com esta cisão entre o português e o brasileiro. A forma como o Brasil projecta a língua portuguesa no mundo é, gostemos ou não, incomparavelmente superior à que está ao nosso alcance. Havendo uma língua única, devemos perguntar se será sensato insistir numa divisão desnecessária e complicativa das regras ortográficas dos dois países. É certo que a ortografia é, acima de tudo, uma aprendizagem.
Talvez nenhum acordo ou voluntarismo altere facilmente a maneira como escrevemos.
Acho que quem não se vê a escrever "úmido", "excetuando" ou "ótimo" porque nunca aprendeu a escrever assim, usa um argumento sério. Uma língua faz-se de códigos e normas que se aprendem e se transmitem como dados adquiridos. No entanto, quando se sabe que as actas das reuniões da CPLP são feitas em duas línguas ou que é preciso fazer traduções portuguesas de obras brasileiras só porque nós escrevemos "acção" e eles "ação", a pergunta que fica é qual a racionalidade de tudo isto. O acordo ortográfico não vem salvar, uniformizar ou destruir a língua portuguesa. Até porque a língua portuguesa não precisa de ser salva, nem pode ser destruída. O interesse do acordo é, no essencial, prático.
Continuaremos a dizer "giro" sem que os brasileiros nos percebam, tal como os brasileiros continuarão a falar em "propinas" sem que estejam a referir-se às nossas propinas. Uma língua comum é feita de várias tonalidades.
Pode ser que assim a minha amiga italiana se decida pelo português.' in DN, 13.13.07
É uma visão que me agrada bastante - o Pedro Lomba toca em todos os pontos fulcrais do famoso 'Acordo Ortográfico'. Faz sentido que existam dicionários 'francês-brasileiro'? Não, não faz, apesar de o Brasil ser, claramente, o maior e melhor transportador da língua portuguesa - através da música, da sua expressividade e, claro, através dos seus 175 milhões de brasileiros-a-falar-português.
Não pode haver dúvidas quanto a esta 'superioridade'.
Ora, o que está escrito na opinião aqui publicada, é bastante diferente daquilo que o 'incrível' e 'majestoso' (irmãos à parte, hellas...) Vasco Graça Moura tem vindo a debitar sobre o Acordo (aqui e aqui, mais aqui).
É incrível que se tome a língua portuguesa, hoje em dia, como um argumento 'Português de Portugal' - queria dizer ao Vasco Graça Moura que, infelizmente para ele, todos os outros países lusófonos contribuíram muito mais para o reforço e unidade da língua do que ele imagina. Ao contrário do que se possa pensar, isto é uma 'propriedade e uma qualidade' e não um 'defeito'.
Depois, as questões relacionadas com a vertente economicista da questão são um perfeito disparate, até arrepiam só de pensar (suspeito, e se calhar estou a ser ingénuo ou desinformado, que o Moura tem interesses financeiros na indústria editorial). Fará, porventura, sentido algum, fazerem-se edições duplicadas ('brasileiro' e 'português'), apenas porque não se convencionou o que é, afinal, o português?
É um logro. Até porque o mercado editorial lusófono continua uma fraude - só para exemplificar, o último livro do angolano José Eduardo Agualusa ('As mulheres do meu pai', edição portuguesa), custava, no acto de lançamento aqui em Luanda, 30 dólares americanos! Um roubo.
O mesmo Agualusa dizia, informalmente, que isto do Acordo Ortográfico 'se fosse bem feito, nem dariamos por ela'. Exacto.
Labels: Acordo Ortográfico, Este, Lusofonia, Norte, Oeste, Sul

É uma reflexao muito Interessante! ainda ha pouco tempo lia um livro de um realizador de televisao brasileiro que viveu nao sei quantos anos em Portugal. Ele dizia: "nao entendo que lingua é essa, a do brasileiro. Minha mae sempre me dizia: garoto, voce fala portugues!"
De facto, segundo ele, a primeira vez que ouviu falar na lingua brasileira foi em Portugal.
Somos nos os portugueses que em grande parte das vezes queremos afastar o portugues de portugal do portugues do brasil. Comigo mesmo que costumo ter cuidado com estas coisas isso passou-se varias vezes. "Ah?! falas brasileiro?! é diferente..." tentanto explicar diferenças tao obvias como um sotaque a quem nao atinge outras diferenças como as q vao do fado ao samba.
E tanto nos quisemos separar que, depois, ver um dicionario de "brasileiro-frances" é como uma facada no coraçao.
Creio que é urgente reconhecer a universalidade do portugues, bem mais do que a sua localizaçao original.
Essa politica tem sido a seguida por paises com grandes comunidades linguisticas (por isso nao entramos o dicionario brasileiro-senegales). nao me esqueco do meu exame de nivel superior do cervantes, onde o texto era em castelhano de espanha e a parte auditiva era castelhano do méxico. Nas expressoes sairam outras de argentina ou galiza. Ou seja, uma lingua universal! Um elo de ligaçao entre povos. Nao de divisao como tentamos ha tanto tempo.
Grande Gomes.
Espero q estejas bem.
Estaras em Portugal no Natal?
Abraço
Kata
Boa contribuição e grande exemplo daquilo que é necessário (e faz sentido) fazer. Não sei se leste uma apresentação do Mia Couto sobre o tema que aqui publiquei.
Se não leste, no marcador 'lusofonia' vais encontrá-la. Está excelentemente escrita e extremamente bem pensada.
De resto, Kata, por aqui está tudo 'a bater' e o Natal vai ser por estas bandas mesmo.
E tu? Como vai Barcelona? E a tua vida por aí? Espero que esteja tudo óptimo.
Grande abraço.