Angola, pelos meus olhos

Na "banda", de coração e língua afiada: considerações, dissertações e opiniões sopradas debaixo do Sahara


Lusofonia

Sugestões, por Mia Couto, autor moçambicano (continuação da intervenção anterior)

Primeira sugestão — Concertar agendas nacionais e supranacionais

Os países africanos estão ainda a construir a sua própria lusofonia. Queremos que essa agenda nacional seja respeitada, e que outros programas se articulem em harmonia com esta construção interna. Todos sabemos que este edifício da lusofonia dentro dos nossos países é um assunto extremamente sensível exactamente porque tem a ver com a construção das nossas próprias identidades nacionais. É verdade que não podemos pedir que o nosso projecto comum fique à espera que se cumpram os programas de cada um. Mas podemos cuidar que a lusofonia supra-nacional se desenhe sem atropelar essas agendas nacionais.

Isso implica a existência de um fórum de consulta permanente para a definição e avaliação da programação das nossas estações comuns. Deve ser dito que somos todos vítimas da mesma lógica de governação, que coloca a prioridade nos assuntos económicos e relega para mais tarde as questões culturais e linguísticas. Deve ser dito ainda que, muitas vezes, falta nas nossas políticas domésticas coragem para defender interesses nacionais e não apenas conveniências políticas de ocasião.

Segunda sugestão — Respeitar individualidades

Os lusófonos são pensados e falados do seguinte modo: Portugal, Brasil e os PALOP. Surgimos como um triângulo com vértices um no Brasil, um em Portugal e um terceiro em África. Ora, os países africanos não são um bloco homogéneo que se possa tratar de modo tão redutor e simplificado. Não se pode conceber como uma única entidade os 5 países africanos que mantêm, entre si, diferenças culturais sensíveis. As nações lusófonas não são um triângulo, mas uma constelação em que cada um tem a sua própria individualidade. O respeito pela individualidade, contudo, não nasce de apelos nem de acusações. O respeito conquista-se. Em lugar da retórica política fácil espera-se que sejamos capazes de produzir obra que os outros reconheçam e admirem.

Terceira sugestão — Abandonar o apelo ao coitadismo

Nós, os africanos, devemos abandonar uma atitude apelativa, ficando à espera que outras nos recompensem de injustiças passadas. A energia que costumamos colocar nessa apelação deve ser investida na criação de alternativas e na produção da nossa própria riqueza. Reclamamos que a língua não tem dono e que a lusofonia é de todos nós, mas ficamos à espera que seja Portugal ou o Brasil a tomar a iniciativa. Escusamo-nos na falta de recursos, mas nem sempre usamos os primeiros grandes recursos que são a originalidade e a imaginação.

Quarta sugestão — Aplicar princípios de laicidade

A programação radiofónica e televisiva, por vezes se esquece de uma simples verdade: não somos uma população exclusivamente católica. E necessitamos respeitar a pluralidade religiosa do espaço lusófono. A nossa identidade linguística deve coexistir com outras identidades que nos tornam múltiplos e plurais. É urgente discutirmos, em conjunto, como aplicar nos órgãos de comunicação social os princípios de laicidade que caracterizam os nossos Estados.

Quinta sugestão — Evitar uma identidade refúgio

Ao escutar o noticiário das cadeias lusófonas eu noto o seguinte: existem notícias dos nossos países que abrem noticiários, mas que são insufladas de injustificada importância. São novidades de paróquia e dominam um noticiário que secundariza aquilo que de importante e actual está ocorrendo no mundo. As declarações de um coordenador de uma quase inexistente ONG podem abrir o noticiário no mesmo dia em que temas cruciais estão a estremecer o mundo. Não temos que fazer da lusofonia uma toca, um refúgio. Necessitamos, sim, de um instrumento para nos trocarmos com as outras comunidades linguísticas.

Importantes movimentos de pensamento inovador estão a ocorrer em diversas regiões do continente africano. Nós estamos cegos e surdos.

Literatura de grande qualidade está a surgir em África. Essa literatura só está a ser divulgada na Europa e na América.

A música africana de qualidade que não nasce nos nossos 5 países deve entrar nas nossas estações e contagiar a nossa própria produção musical. Se não fizermos, seremos lusófonos, sim, mas seremos uma ilha pobre e autista.

Sexta sugestão — Uma ideia folclórica do que somos quando estamos fora

Os programas que fazemos para os nossos cidadãos na diáspora quase sempre se fundamentam numa ideia folclórica dos nossos que estão fora. Os nossos cidadãos que vivem fora das suas fronteiras nacionais nem sempre se reconhecem no reviver dos ranchos folclóricos e na repetição sem qualquer imaginação daquilo que se entende por cultura tradicional. Posso-vos assegurar: as comunidades portuguesas em Moçambique e as comunidades moçambicanas em Portugal estão muito distantes desse estereótipo de gente conservadora, envelhecida em redor da evocação da saudade.

E porque não pensarmos em criar, para além de emissões para as comunidades no mundo, porque não criarmos, dizia, uma estação para o mundo? Porquê não pensarmos em ter uma Televisão e uma Rádio da Lusofonia que, a exemplo da BBC e da CNN, produzissem informação de referência sobre os nossos países? Imagino as dificuldades práticas de implementar tal projecto, mas a verdade é que não temos sequer ousadia de o pensarmos e de o sonharmos.

Num mundo americanizado e dominado pelo idioma inglês, a lusofonia deve ser um pólo de diversidade criativa, não apenas no plano linguístico mas cultural, político e filosófico. A nossa força não se traduz apenas na quantidade de falantes espalhados pelo mundo. Seremos fortes apenas se produzirmos um pensamento próprio, original e interventivo.

O território do futuro

Voltemos aos jovens que se entreajudavam para não fazer nada e que, nessa ausência de tarefa, se iam saindo até muito bem. Pois essas mesmas personagens poderiam tecer entre eles o seguinte diálogo:

— É muito cedo para fazermos qualquer coisa, diria o primeiro.

— E esperamos até quando? Perguntaria o segundo.

E o primeiro responderia:

— Esperamos até que seja demasiado tarde.

Temos um modo estranho de lidar com a realidade, como se o real fosse um contrabando a transportar para territórios que não são nossos. Um dos territórios a que nos habituamos que não fosse nunca nosso é o futuro. Os outros, de outras línguas, parecem sentir-se mais à vontade nesse lado de lá do tempo. Tanto nos disseram que éramos pequenos para ter presente que acabamos por encarar o futuro com suspeição. Contentamo-nos com viver de desbotadas memórias de um passado longínquo: é verdade que não podemos criar história fora do passado.

Mas não podemos é fazer do passado a nossa História. Falo da dificuldade de nos projectarmos no Tempo porque aquilo que nos traz aqui hoje — a lusofonia – existe no futuro para ser pensado ontem e produzido hoje.

A lusofonia é algo estranho, pois é um ser que existe para nascer. A lusofonia é qualquer coisa que já é nosso, mas que parece ainda não nos pertencer a todos por igual. De uma criatura assim seria mais fácil dizer mal e lançar suspeições. O projecto da lusofonia tem essa enorme desvantagem de ser preciso fazer qualquer coisa e de nos empurrar para fora desse invisível muro onde descansamos existências e lançamos culpas sobre os outros.

O debate sobre o que somos e seremos deve prosseguir. Mas será no que fizermos que nos converteremos realmente numa comunidade capaz de propor discursos inovadores e introduzir mudanças. Dizemos que a língua portuguesa não é apenas dos portugueses. E acreditamos que isso seja a manifestação de uma intenção política, de uma vontade adoptada. Mas não se trata de intenção ou vontade.

Trata-se de uma questão histórica: há séculos que a língua portuguesa é também africana. O que seria do idioma português se não tivesse beneficiado das contribuições linguísticas dos árabes que ocuparam e viveram na Península Ibérica? Esses árabes ajudaram a tecer este grande tapete onde se deitam as nossas almas. Esses árabes são africanos, tanto como nós, os que habitamos mais a Sul. Há séculos que o idioma lusitano é um filho mestiço de namoros feitos entre as duas margens do Mediterrâneo.

E mesmo se nos quisermos abster à influência das línguas bantus nascidas depois do tempo das caravelas: há quanto tempo palavras como minhoca, cambada e candonga e tantas outras se instalaram na língua portuguesa?

Pois eu vos digo, tomando apenas um exemplo: a palavra minhoca instalou-se no século XVI e hoje a maior parte dos portugueses nem sequer suspeita da sua origem longínqua.

Meus amigos, a verdade é a seguinte: a lusofonia não começou hoje.

A nossa língua comum foi construída por laços antigos, tão antigos que por vezes lhes perdemos o rasto.

De uma vez por todas, superemos receios e fantasmas. De uma vez por todas namoremos o futuro para que ele se enamore de nós.

(Estes dois textos são, quase exactamente, os textos que andam a azucrinar os meus neurónios nas últimas semanas, meses, talvez. Era isto que gostaria de ter escrito sobre a 'lusofonia'. Ordeno!, sinceramente, que TODOS mas mesmo TODOS aqueles que visitam este blogue, sejam 'lusófonos' ou não, contribuam para uma discussão que, parece-me, ainda está por fazer.

O que é, para vocês, essa coisa de 'lusofonia'? Identificam-se com o que o Mia Couto escreveu? Alguma vez se debruçaram sobre este tema?

Digam-me, porque estou louco por saber.

A minha sugestão começa pelo principio - como nos dicionários que consultei não encontrei (priberam.pt à parte) nem o termo 'lusofonia', nem o termo 'lusófono', sugiro a imediata - e obrigatória! - entrada destes termos em todos os dicionários de Língua Portuguesa.)

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2 Responses to “Lusofonia”

  1. # Blogger Hugo Rocha Pereira

    Edson, em 1� lugar o meu agradecimento por teres compartilhado connosco este artigo, muito interessante e inquietador. A lusofonia � sobretudo, isso, a comunh�o de uma l�ngua, ou melhor, a partilha na constru�o de uma linguagem escrita e falada. Esta constru�o, como bem refere o cientista-escritor (ou escritor- cientista?), � uma din�mica esp�cio-temporal, vem de tr�s e projecta-se no futuro, encontrando em Portugal n�o mais que a sua sede, raiz que cresce e se desenvolve, principalmente, pelo Brasil e pelos Palop, cada pa�s contribuindo com a sua viv�ncia para a riqueza criada pela diversidade.
    p.s. - quanto � tua sugest�o, � perfeitamente inacredit�vel que o termo 'lusofonia' n�o conste dos dicion�rios de l�ngua portuguesa - os respons�veis est�o mais preocupados com os dossi�s e os blogues...  

  2. # Blogger Edson Arantes do Nascimento

    Bom comentário HR. E, já agora, obrigado por comentares - eu juro que não faço ideia quantas pessoas visitam este blogue. Suspeito que sejam algumas, ainda assim.

    E, apesar do meu (arriscado) repto, só tu é que quiseste acrescentar alguma coisa. E talvez seja isso que falte - a vontade de 'querer acrescentar alguma coisa', ou seja, para mim, este é um assunto muito pouco falado, pouco discutido. Mesmo a nível 'oficial'.

    Parece-me que é um assunto interessante e importante e que merecia uma maior e mais concreta atenção por parte de todos nós.

    O conceito de 'Lusofonia' tem um potencial incrível, mas que tem sido desbaratado por uma falta de estratégia comum que acaba por dificultar.

    E estou a referir-me, apenas, a uma estratégia cultural, mais do que política (cada país é soberano e assim será) ou económica (estes assuntos de 'dinheiros' não se compadecem com sentimentalismos).

    Gosto, por exemplo, de uma das sugestões do Mia Couto: a criação de uma agência de notícias lusófona, que pudesse influenciar agendas e aproximar a informação relevante e de referência produzida em português.  

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