Lusofonia
0 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Friday, September 21, 2007 at 8:43 AM.
Desmontando e reconstruindo a ideia de lusofonia, por Mia Couto, autor moçambicano
(com o pretexto de discutir o serviço público de rádio e televisão, o mais consagrado dos escritores moçambicanos da actualidade foi a Lisboa desmontar algumas ideias feitas e preconceitos a propósito de assuntos sérios, como são a língua portuguesa e o conceito de lusofonia)
Há uns dias, em Maputo, deparei com dois jovens sentados no muro da minha empresa e a um deles perguntei o que ele fazia ali. A resposta veio célere:
— Não estou a fazer.
Fiz a mesma pergunta ao outro jovem que me respondeu com a mesma prontidão:
— Eu? Eu estou aqui a ajudar o meu amigo.
Haver alguém que ajuda um outro a não fazer nada é do domínio da mais pura metafísica. Lembro este episódio e penso na habilidade notável que os nossos povos partilham de produzirem este tipo de atitude filosófica. Coexiste em nós, lusófonos, uma certa sabedoria que nos diz que a felicidade se constrói, sim, mas que também se pode ser feliz só por preguiça. O destino, o fado, os deuses: esses são os autores dessa narrativa a que chamamos Vida.
Lembro este episódio para dizer o seguinte: nós não falamos apenas uma mesma língua. Nós sentimos de modo semelhante aquilo que não pode ser dito em língua nenhuma: o peso do Tempo, o sentido da existência, uma certa ideia da eternidade. O vazio do nada é algo que, em português, se preenche do mesmo modo em qualquer indolente muro de qualquer das nossas cidades. É nesse muro que nos sentamos para nos dedicarmos a esse desporto que, na nossa família linguística, é mais popular que o futebol: a saudade do que aconteceu, a lamentação do que podia ter acontecido e o lançar de culpas sobre o que não chegou a suceder.
Quando a lusofonia foi proclamada como um projecto supranacional houve interrogações que foram levantadas. Eu mesmo questionei o sentido desse projecto numa realidade plural em que parte dos seus cidadãos não fala português ou fala português como segunda língua. Evidentemente que eu me posicionava tendo, sobretudo, em conta a realidade do meu país. Não seria justo inventarmos um patamar de cidadania que excluía, à partida, mais de metade dos moçambicanos. A verdade é esta: apenas uma das nações de Moçambique já vive na lusofonia. Apenas parte dos moçambicanos já se reconhecem como falando e sendo falados pela língua portuguesa. Mas também é verdade que toda a grande nação moçambicana encontra no português a sua língua de construção, o idioma que a projecta num corpo unitário e que a torna capaz de viver na modernidade.
Da ideia de lusofonia
Vale a pena, como exercício breve e sumário, relembrar algumas das incompreensões que emergiram no início da nossa constituição em família. Porque motivo, por exemplo, o meu país não parecia abraçar com o mesmo entusiasmo essa proposta de criação de uma comunidade inspirada na língua? O lugar e o papel da língua portuguesa como idioma oficial em Moçambique foram debatidos, em 1962, no primeiro congresso da Frente de Libertação de Moçambique realizado na clandestinidade perto de Dar-es-Salaam. A maior parte das actas — incluindo a decisão de adoptar o português como língua oficial – foram redigidas em inglês.Os quadros com maior formação escolar tinham estudado nos países vizinhos.
O português foi adoptado não como uma herança mas como, talvez, a mais valiosa ferramenta para forjar a unidade da futura nação. Se a adopção do português foi um acto de soberania, já a criação da lusofonia não resultou de iniciativa própria de Moçambique. O projecto lusófono surgiu, afinal, pouco tempo depois daquilo que em Portugal se chamou de "descolonização". Detenho-me na palavra "descolonização" porque ela é um exemplo claro de divergentes modos de ler o passado. O termo "descolonização" é emblemático do que Bernard Shaw disse do inglês: podemos ter uma língua comum para melhor nos desentendermos.
Ainda hoje, para muitos portugueses, o que aconteceu em África foi que Portugal, com o 25 de Abril, aceitou, enfim, descolonizar os territórios africanos. Ora, parece a nós, africanos, que é preciso acertar o sujeito do verbo. Não foi Portugal que descolonizou os países africanos. A descolonização só pode ser feita pelos próprios colonizados. E nós, todos nós, sem excepção, éramos colonizados. Descolonizámo-nos uns aos outros, uns e outros.
Parece um detalhe, coisa de uma simples palavra. E as palavras traduzem modos de pensar.
E esse passado que nos feriu a todos não pode ser superado apenas com apelos ao esquecimento. Não é de esquecer o passado que necessitamos. Mas de o entender.
De qualquer modo, para Moçambique, o projecto da lusofonia surgiu pouco depois da ruptura colonial. Era natural que houvessem dúvidas. E parecia óbvio que os países africanos não se podiam reclamar da lusofonia do mesmo modo dos portugueses e brasileiros. A maior parte dos africanos ama as suas outras línguas maternas e esperava (e ainda espera) que esses idiomas não sejam votados ao esquecimento ou arrumados naquilo que se chama o património tradicional.
Estamos, pois, perante um processo que necessitou de vencer inércias e superar desconfianças. A falta de confiança, porém, não estava reservada apenas à antiga potência colonizadora. Havia suspeições de parte a parte. Vale a pena recordar aqui uma espécie de "tesourinho deprimente" da nossa história recente. Todos nos lembramos como certos sectores da política portuguesa entraram em pânico com a adesão de Moçambique à Commonwealth. O que se passava? Os moçambicanos haviam traído a sua fidelidade ao idioma luso? As reacções de algumas facções foram de tal modo excessivas que só podiam ser explicadas por um sentimento de perda de um antigo império.
A exemplo da síndrome do marido traído que, não reconhecendo autonomia e maioridade na ex-mulher, sempre se pergunta: com quem é que ela anda agora? Moçambique andaria, assim, com o inglês.
Quem contribuiu com o quê?
Na realidade, as autoridades moçambicanas não mudaram a sua política linguística e o português permaneceu na sua condição de língua oficial e unificadora. Fala-se hoje mais português em Moçambique que se falava na altura da Independência. O Governo moçambicano fez mais pela língua portuguesa que séculos de colonização. Mas não o fez por causa de um projecto chamado "lusofonia". Nem o fez para demonstrar nada aos outros ou para lançar culpas ao antigo colonizador. Fê-lo pelo seu próprio interesse nacional, pela defesa da coesão interna, pela construção da sua própria interioridade.
Há poucos dias a televisão moçambicana contou a história de dois jovens aliciados na província de Nampula para virem trabalhar em Maputo. Era um triste exemplo das novas redes de trabalho escravo. Os jovens foram, sem o saber, transferidos para a Suazilândia onde foram mantidos numa espécie de cativeiro. Os contactos com a gente local estavam limitados: os jovens falavam apenas a sua língua (e-makua) e não entendiam uma palavra de seswati. Até que um dia, junto ao rio onde lavavam roupa, escutaram um grupo de jovens falando em português. Foi então que entenderam onde estavam e, ali mesmo em português, planearam a sua fuga para Moçambique.
Este episódio parece isolado e circunstancial, mas ele traduz o quanto a língua portuguesa nos serve como cartão de identidade numa realidade linguística tão dispersa e fragmentada. Esta é a ironia da História e do modo como ela baralha os destinos: sabemos quem somos e onde estamos por via de um idioma que, antes, parecia ser dos outros e vinha de fora. Demorei-me a relembrar algumas das ressalvas e receios que ainda recentemente se colocavam sobre o assunto da lusofonia. Ora, hoje, eu creio que há que ter uma postura prática, voltada para a construção de soluções. Agora, é preciso e é urgente desenharmos acções que afirmem a nossa individualidade num mundo globalizado.
Passaram-se anos e não podemos prolongar eternamente os debates sobre a nossa própria existência. Não temos senão duas alternativas: ou ficamos no muro da retórica ou descemos para o chão da realidade, mesmo aceitando que essa realidade se diz no plural. Teremos a comunidade que entendermos ser a nossa e aquela que melhor nos servir. Basta que a façamos.
As paredes que já edificámos
Felizmente, nós já estamos a realizar esse exercício construtivo. Em muitos terrenos, nós já não somos mais os amigos sentados no muro da metafísica. Em muitas áreas, já fizemos descer a enxada sobre a terra. Uma dessas áreas foi exactamente a da comunicação social, e mais particularmente, da rádio e da televisão. Na sala da minha casa em Maputo, no rádio do meu carro quando circulo pelo meu país, eu vou sendo sujeito e objecto dessa construção. Centenas de milhares de moçambicanos vão-se inventando parceiros desta entidade feita sem pais nem filhos, desta família que se quer feita só de irmãos.
Por essa razão, por todo esse empenho, eu quero congratular os fazedores deste grande fórum de trocas de alma e cultura. Todos os nossos países estão a transbordar de consultores e assessores que nos vêm dizer como fazer. Mas há poucos que têm as mãos sujas-de-terra e que podem dizer: vejam, eu fiz, eu semeei, plantei e colhi. Um dos mais emblemáticos estereótipos de África é a imagem da fogueira nocturna, em volta da qual os mais velhos contam histórias. Pois, de alguma maneira, a Rádio e a Televisão que aqui festejamos hoje se converteram nessas fogueiras que aconchegam as almas e encenam para nós a ilusão de que o mundo todo se senta no mesmo pátio da nossa aldeia.
(com o pretexto de discutir o serviço público de rádio e televisão, o mais consagrado dos escritores moçambicanos da actualidade foi a Lisboa desmontar algumas ideias feitas e preconceitos a propósito de assuntos sérios, como são a língua portuguesa e o conceito de lusofonia)
Há uns dias, em Maputo, deparei com dois jovens sentados no muro da minha empresa e a um deles perguntei o que ele fazia ali. A resposta veio célere:
— Não estou a fazer.
Fiz a mesma pergunta ao outro jovem que me respondeu com a mesma prontidão:
— Eu? Eu estou aqui a ajudar o meu amigo.
Haver alguém que ajuda um outro a não fazer nada é do domínio da mais pura metafísica. Lembro este episódio e penso na habilidade notável que os nossos povos partilham de produzirem este tipo de atitude filosófica. Coexiste em nós, lusófonos, uma certa sabedoria que nos diz que a felicidade se constrói, sim, mas que também se pode ser feliz só por preguiça. O destino, o fado, os deuses: esses são os autores dessa narrativa a que chamamos Vida.
Lembro este episódio para dizer o seguinte: nós não falamos apenas uma mesma língua. Nós sentimos de modo semelhante aquilo que não pode ser dito em língua nenhuma: o peso do Tempo, o sentido da existência, uma certa ideia da eternidade. O vazio do nada é algo que, em português, se preenche do mesmo modo em qualquer indolente muro de qualquer das nossas cidades. É nesse muro que nos sentamos para nos dedicarmos a esse desporto que, na nossa família linguística, é mais popular que o futebol: a saudade do que aconteceu, a lamentação do que podia ter acontecido e o lançar de culpas sobre o que não chegou a suceder.
Quando a lusofonia foi proclamada como um projecto supranacional houve interrogações que foram levantadas. Eu mesmo questionei o sentido desse projecto numa realidade plural em que parte dos seus cidadãos não fala português ou fala português como segunda língua. Evidentemente que eu me posicionava tendo, sobretudo, em conta a realidade do meu país. Não seria justo inventarmos um patamar de cidadania que excluía, à partida, mais de metade dos moçambicanos. A verdade é esta: apenas uma das nações de Moçambique já vive na lusofonia. Apenas parte dos moçambicanos já se reconhecem como falando e sendo falados pela língua portuguesa. Mas também é verdade que toda a grande nação moçambicana encontra no português a sua língua de construção, o idioma que a projecta num corpo unitário e que a torna capaz de viver na modernidade.
Da ideia de lusofonia
Vale a pena, como exercício breve e sumário, relembrar algumas das incompreensões que emergiram no início da nossa constituição em família. Porque motivo, por exemplo, o meu país não parecia abraçar com o mesmo entusiasmo essa proposta de criação de uma comunidade inspirada na língua? O lugar e o papel da língua portuguesa como idioma oficial em Moçambique foram debatidos, em 1962, no primeiro congresso da Frente de Libertação de Moçambique realizado na clandestinidade perto de Dar-es-Salaam. A maior parte das actas — incluindo a decisão de adoptar o português como língua oficial – foram redigidas em inglês.Os quadros com maior formação escolar tinham estudado nos países vizinhos.
O português foi adoptado não como uma herança mas como, talvez, a mais valiosa ferramenta para forjar a unidade da futura nação. Se a adopção do português foi um acto de soberania, já a criação da lusofonia não resultou de iniciativa própria de Moçambique. O projecto lusófono surgiu, afinal, pouco tempo depois daquilo que em Portugal se chamou de "descolonização". Detenho-me na palavra "descolonização" porque ela é um exemplo claro de divergentes modos de ler o passado. O termo "descolonização" é emblemático do que Bernard Shaw disse do inglês: podemos ter uma língua comum para melhor nos desentendermos.
Ainda hoje, para muitos portugueses, o que aconteceu em África foi que Portugal, com o 25 de Abril, aceitou, enfim, descolonizar os territórios africanos. Ora, parece a nós, africanos, que é preciso acertar o sujeito do verbo. Não foi Portugal que descolonizou os países africanos. A descolonização só pode ser feita pelos próprios colonizados. E nós, todos nós, sem excepção, éramos colonizados. Descolonizámo-nos uns aos outros, uns e outros.
Parece um detalhe, coisa de uma simples palavra. E as palavras traduzem modos de pensar.
E esse passado que nos feriu a todos não pode ser superado apenas com apelos ao esquecimento. Não é de esquecer o passado que necessitamos. Mas de o entender.
De qualquer modo, para Moçambique, o projecto da lusofonia surgiu pouco depois da ruptura colonial. Era natural que houvessem dúvidas. E parecia óbvio que os países africanos não se podiam reclamar da lusofonia do mesmo modo dos portugueses e brasileiros. A maior parte dos africanos ama as suas outras línguas maternas e esperava (e ainda espera) que esses idiomas não sejam votados ao esquecimento ou arrumados naquilo que se chama o património tradicional.
Estamos, pois, perante um processo que necessitou de vencer inércias e superar desconfianças. A falta de confiança, porém, não estava reservada apenas à antiga potência colonizadora. Havia suspeições de parte a parte. Vale a pena recordar aqui uma espécie de "tesourinho deprimente" da nossa história recente. Todos nos lembramos como certos sectores da política portuguesa entraram em pânico com a adesão de Moçambique à Commonwealth. O que se passava? Os moçambicanos haviam traído a sua fidelidade ao idioma luso? As reacções de algumas facções foram de tal modo excessivas que só podiam ser explicadas por um sentimento de perda de um antigo império.
A exemplo da síndrome do marido traído que, não reconhecendo autonomia e maioridade na ex-mulher, sempre se pergunta: com quem é que ela anda agora? Moçambique andaria, assim, com o inglês.
Quem contribuiu com o quê?
Na realidade, as autoridades moçambicanas não mudaram a sua política linguística e o português permaneceu na sua condição de língua oficial e unificadora. Fala-se hoje mais português em Moçambique que se falava na altura da Independência. O Governo moçambicano fez mais pela língua portuguesa que séculos de colonização. Mas não o fez por causa de um projecto chamado "lusofonia". Nem o fez para demonstrar nada aos outros ou para lançar culpas ao antigo colonizador. Fê-lo pelo seu próprio interesse nacional, pela defesa da coesão interna, pela construção da sua própria interioridade.
Há poucos dias a televisão moçambicana contou a história de dois jovens aliciados na província de Nampula para virem trabalhar em Maputo. Era um triste exemplo das novas redes de trabalho escravo. Os jovens foram, sem o saber, transferidos para a Suazilândia onde foram mantidos numa espécie de cativeiro. Os contactos com a gente local estavam limitados: os jovens falavam apenas a sua língua (e-makua) e não entendiam uma palavra de seswati. Até que um dia, junto ao rio onde lavavam roupa, escutaram um grupo de jovens falando em português. Foi então que entenderam onde estavam e, ali mesmo em português, planearam a sua fuga para Moçambique.
Este episódio parece isolado e circunstancial, mas ele traduz o quanto a língua portuguesa nos serve como cartão de identidade numa realidade linguística tão dispersa e fragmentada. Esta é a ironia da História e do modo como ela baralha os destinos: sabemos quem somos e onde estamos por via de um idioma que, antes, parecia ser dos outros e vinha de fora. Demorei-me a relembrar algumas das ressalvas e receios que ainda recentemente se colocavam sobre o assunto da lusofonia. Ora, hoje, eu creio que há que ter uma postura prática, voltada para a construção de soluções. Agora, é preciso e é urgente desenharmos acções que afirmem a nossa individualidade num mundo globalizado.
Passaram-se anos e não podemos prolongar eternamente os debates sobre a nossa própria existência. Não temos senão duas alternativas: ou ficamos no muro da retórica ou descemos para o chão da realidade, mesmo aceitando que essa realidade se diz no plural. Teremos a comunidade que entendermos ser a nossa e aquela que melhor nos servir. Basta que a façamos.
As paredes que já edificámos
Felizmente, nós já estamos a realizar esse exercício construtivo. Em muitos terrenos, nós já não somos mais os amigos sentados no muro da metafísica. Em muitas áreas, já fizemos descer a enxada sobre a terra. Uma dessas áreas foi exactamente a da comunicação social, e mais particularmente, da rádio e da televisão. Na sala da minha casa em Maputo, no rádio do meu carro quando circulo pelo meu país, eu vou sendo sujeito e objecto dessa construção. Centenas de milhares de moçambicanos vão-se inventando parceiros desta entidade feita sem pais nem filhos, desta família que se quer feita só de irmãos.
Por essa razão, por todo esse empenho, eu quero congratular os fazedores deste grande fórum de trocas de alma e cultura. Todos os nossos países estão a transbordar de consultores e assessores que nos vêm dizer como fazer. Mas há poucos que têm as mãos sujas-de-terra e que podem dizer: vejam, eu fiz, eu semeei, plantei e colhi. Um dos mais emblemáticos estereótipos de África é a imagem da fogueira nocturna, em volta da qual os mais velhos contam histórias. Pois, de alguma maneira, a Rádio e a Televisão que aqui festejamos hoje se converteram nessas fogueiras que aconchegam as almas e encenam para nós a ilusão de que o mundo todo se senta no mesmo pátio da nossa aldeia.

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