Interregnos
0 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Wednesday, December 12, 2007 at 6:54 AM.
Ainda a cimeira UE/África
De facto, há coisas que me deixam espantado, por um lado, receoso, por outro. Aqui.
Este senhor, que eu não conheço, titula o seu artigo de opinião da seguinte forma: 'Se Mugabe mudar um milímetro o ultimato de 1890 está vingado'.
Resumo: isto, a África (especialmente aquela do cliché do pôr-do-sol 'maravilhoso e único', a do continente 'colorido e folclórico como não há igual' e o das 'pessoas alegres, mesmo passando as dificuldades que passam' e, já agora, a dos petróleos e o resto) continua a ser uma coisa para ser discutida entre 'portugueses' e 'ingleses'. Ele tenta dizer, por '1 mais 1, igual a 24', que, pelo facto do Mugabe ter estado presente na cimeira e de ter sido interpelado relativamente à situação no seu país, em contraponto com a ausência declarada (e discriminatória, arrisco) de grandes figuras inglesas, poderia levar a alguma mudança e, dessa forma, comprovar a 'influência' e 'respeito' que os portugueses ainda granjeam em África, ao contrário de outros.
Isto seria, por mais estranho que possa parecer, uma forma de 'vingar' a influência inglesa no fracassado projecto 'tuga', conhecido como 'mapa cor-de-rosa'. Faltam-me adjectivos para classificar tremendo disparate (vá lá, consegui desencantar um).
Pior do que determinadas teorias é constatar que a tónica da relação UE/África continua a ser esta. A de que os 'europeus' deram (e continuam a 'dar', como titulou o 'Correio da Manhã' logo na sexta-feira, dia 7 de Dezembro, ainda a cimeira não tinha arrancado...) muito mais a África do que África deu à Europa e que certas 'vinganças' ainda são possíveis e desejáveis, até porque há uma certa legitimidade neste pensamento, neste processo compensatório, consideram eles. Tristemente ridículo.
A tal postura é visível também no discurso racista/colonialista/imperialista de grande parte dos habitantes daquele continente, que nunca chegaram a compreender que hoje são ricos porque levaram tudo o que quiseram daqui, praticamente sem pagar: e isto inclui, obviamente, uma quantidade astronómica de cérebros, ou seja, para além da pilhagem material, ainda conseguiram deslocar e arrecadar os mais inteligentes e capazes.
Esta estratégia é visível quando, na excelente série de reportagens 'A Guerra' (confesso que só vi dois episódios, incrivelmente bons e com uma abordagem que me agrada bastante), do jornalista Joaquim Furtado, somos informados que 'só poderiam ir à escola os assimilados, reconhecidos administrativamente como tal' - muitos deles acabaram por ir estudar para a 'metrópole' e nunca regressaram à 'banda', obviamente; já Sarkozy, em recente visita ao Benin, perguntava, espantado-mas-orgulhoso: 'como é possível haver em França mais médicos beninenses, do que médicos em todo o Benin?'. Por acaso gostava que tivesse respondido à questão, em vez de a ter formulado.
Sabem do que África precisa e nunca teve? De respeito - pela sua incrível história, pela sua cultura, pelas pessoas que nela habitam. Pelo futuro. Pela soberania conquistada a ferro e fogo. Só.
O resto virá depois.
De facto, há coisas que me deixam espantado, por um lado, receoso, por outro. Aqui.
Este senhor, que eu não conheço, titula o seu artigo de opinião da seguinte forma: 'Se Mugabe mudar um milímetro o ultimato de 1890 está vingado'.
Resumo: isto, a África (especialmente aquela do cliché do pôr-do-sol 'maravilhoso e único', a do continente 'colorido e folclórico como não há igual' e o das 'pessoas alegres, mesmo passando as dificuldades que passam' e, já agora, a dos petróleos e o resto) continua a ser uma coisa para ser discutida entre 'portugueses' e 'ingleses'. Ele tenta dizer, por '1 mais 1, igual a 24', que, pelo facto do Mugabe ter estado presente na cimeira e de ter sido interpelado relativamente à situação no seu país, em contraponto com a ausência declarada (e discriminatória, arrisco) de grandes figuras inglesas, poderia levar a alguma mudança e, dessa forma, comprovar a 'influência' e 'respeito' que os portugueses ainda granjeam em África, ao contrário de outros.
Isto seria, por mais estranho que possa parecer, uma forma de 'vingar' a influência inglesa no fracassado projecto 'tuga', conhecido como 'mapa cor-de-rosa'. Faltam-me adjectivos para classificar tremendo disparate (vá lá, consegui desencantar um).
Pior do que determinadas teorias é constatar que a tónica da relação UE/África continua a ser esta. A de que os 'europeus' deram (e continuam a 'dar', como titulou o 'Correio da Manhã' logo na sexta-feira, dia 7 de Dezembro, ainda a cimeira não tinha arrancado...) muito mais a África do que África deu à Europa e que certas 'vinganças' ainda são possíveis e desejáveis, até porque há uma certa legitimidade neste pensamento, neste processo compensatório, consideram eles. Tristemente ridículo.
A tal postura é visível também no discurso racista/colonialista/imperialista de grande parte dos habitantes daquele continente, que nunca chegaram a compreender que hoje são ricos porque levaram tudo o que quiseram daqui, praticamente sem pagar: e isto inclui, obviamente, uma quantidade astronómica de cérebros, ou seja, para além da pilhagem material, ainda conseguiram deslocar e arrecadar os mais inteligentes e capazes.
Esta estratégia é visível quando, na excelente série de reportagens 'A Guerra' (confesso que só vi dois episódios, incrivelmente bons e com uma abordagem que me agrada bastante), do jornalista Joaquim Furtado, somos informados que 'só poderiam ir à escola os assimilados, reconhecidos administrativamente como tal' - muitos deles acabaram por ir estudar para a 'metrópole' e nunca regressaram à 'banda', obviamente; já Sarkozy, em recente visita ao Benin, perguntava, espantado-mas-orgulhoso: 'como é possível haver em França mais médicos beninenses, do que médicos em todo o Benin?'. Por acaso gostava que tivesse respondido à questão, em vez de a ter formulado.
Sabem do que África precisa e nunca teve? De respeito - pela sua incrível história, pela sua cultura, pelas pessoas que nela habitam. Pelo futuro. Pela soberania conquistada a ferro e fogo. Só.
O resto virá depois.
Labels: Interregnos, Norte

0 Responses to “Interregnos”
Post a Comment