Eleições
0 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Thursday, December 27, 2007 at 9:52 AM.Angola vai às urnas nos dias 5 e 6 de Setembro de 2008, anunciou o actual Presidente da República, José Eduardo dos Santos.
Após as primeiras e únicas eleições realizadas no já longínquo ano de 1992 (e sem direito a segunda-volta), Angola procura agora acertar o seu processo democrático, de fortalecimento do Estado e das instituições que o representam. Neste sentido, a realização de eleições é fundamental.
JES cumpre com a palavra (mais ou menos, mas enfim, política é isto mesmo) dada aos angolanos e marca a data oficial com, parece-me, a devida distância temporal, até porque grande parte do Registo Eleitoral está cumprido. Agora a bola está do lado dos partidos políticos e do povo angolano.
Espera-se que após a 'fase troglodita', o processo de crescimento e construção deste país entre agora numa fase mais harmoniosa, na busca do desenvolvimento e de mais igualdade e justiça.
(Nota: O 'angolapelosmeusolhos' vai, evidentemente, acompanhar a realização das Eleições Legislativas '08 (as Presidenciais são para 2009) e para isso inaugura-se hoje a secção 'eleições'.)
Interregnos
4 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Sunday, November 11, 2007 at 5:10 AM.
» Angola é, sem dúvida, uma grande terra e um grande paísDipanda*
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A televisão estava ligada, ligada mas com chuva, a mesma chuva que apareceu logo de manhãzinha, logo no dia seguinte. Estava dado o sinal: 'Bom dia Angola', o cacimbo acabou, vem aí aquela água interminável que escorre pelo corpo abaixo, pelos poros entupidos de poeira e pela cara, pelos olhos. No aeroporto, o funcionário da antiga DEFA (hoje SME):
- Agora vai ter de ir à entrevista, siga o meu colega.
- Com certeza - respondi, moralizado, numa típica resposta de brasileiro «artista-da-bola» .
E assim foi. Entrámos na sala e aquele ambiente pouco ventilado, sujo e desorganizado poderia sugerir uma qualquer sala de torturas. Como tinha acabado de chegar um avião de Ponta Negra, estavam três congoleses prostrados em três cadeiras para cada um. Uma senhora, gordíssima, anafada, transpirada e garrida. Esfregava o telemóvel, parecia um aladino. Os outros dois eram mais jovens, malandros, vivos. A ideia que dava é que estavam à espera do avião de volta para o sítio de onde vieram.
(Às tantas, já estavam os três esticados, dormiam - todos abraçados aos haveres, aos tesouros que traziam atrás, provavelmente uma vida inteira num saco de plástico, amarrotado, quase desfiado, quase rasgado).
Em cima de uma das duas mesas, estava literalmente tudo. Malas, pastas, sacos, saquinhos, pessoas, canetas, folhas da imigração (pareciam estar todas amontoadas, «porra, aquele muadiê baralhou esta merda toda - onde estão os papéis de Lisboa?», ouvi às tantas), bolachas, telemóveis. Tudo.
Comigo estava outro patrício - com uma barba «tipo nada», tipo árabe, ruiva e tudo - na mesma situação. Estava para ser entrevistado.
Esperámos Esperámos Esperámos Esperámos,
«meu mano, vai demorar muito?»,
Esperámos. Só.
De repente - um homem normal, estatura normal, chapéu na cabeça, rápido e solto - entra na sala, olha para todos os lados, «está ali o teu mano», e ele nervoso nervoso nervoso, eu estava a sentir a vibração dele parecia uma telenovela,
«meu mano!»,
«Hum, xé, hum, hi» (silêncio silêncio silêncio), e mais do mesmo «hum, hi», mãos a baterem nas costas e os ombros a encaixarem uns nos outros e a pele de galinha e tudo.
A noite corria num ritmo forte de grande calmaria. É mesmo assim. Um ritmo forte de grande calmaria. Repito para não deixar dúvidas. Não pode haver dúvidas numa cidade como Luanda, e os seguranças são a cara das poucas dúvidas. Como se duvida da integridade moral e civilizacional das pessoas, nomeadamente das mais pobres, toca a contratar seguranças. Adiante. Alguém chega apressado e de telemóvel na orelha. Falava com outra pessoa que está naquele prédio colonial, bonito (mas colonial), lá para a banda do Maculusso. Traz qualquer coisa na mão e precisa de subir a um dos apartamentos, mas a porta do edifício, por segurança, está fechada à chave.
‘Muanza!’. Primeira vez. ‘Mu-an-zaaa!’. Segunda vez. ‘MUANZA!!!’. Terceira vez. Nada se passou. O tal homem, alto e desengonçado, queixo proeminente, bigode e cabelo risco-ao-lado, tinha procurado e berrado pelo guarda. E nada. O receptor da encomenda, que entretanto tinha descido para a apanhar, denunciou Muanza através da porta-de-ferro-fechada-à-chave, informação logo seguida de um movimento elegante do braço, apontando a direcção justa, junto a dois carros que sempre estacionam naquele lugar. ‘Os guardas devem estar a dormir, encostados naquele carro, mesmo à frente dos caixotes de lixo da Elisal, aqueles ali, cor-de-laranja europeia’. O homem desengonçado avança, e apetece adivinhar o que passava pela cabeça dele, naquele preciso momento em que está a pisar o alcatrão já bem fresco.
Ele olha, de soslaio, para o tal sítio junto ao carro. Sorri para dentro – os guardas estão mesmo ali. São três. Dá dois passos atrás. Vai fazer mesmo o que lhe está a apetecer. ‘PUM!’. A descompostura patronal recebida às 21 horas de uma jornada que terá começado pelas 8 da manhã, e as duas horas que gastou para resolver uma emergência, também ela patronal, deixaram-no assim. Descompensado. Desarranjado. Ele tinha acabado de arrear um pontapé “à Eusébio”, perna direita na bola que se vai enroscar na rede quadrada, esburacadamente quadrada. ‘PUM!’. Eram três caixotes do lixo, que chocaram como três peças de um dominó, aquele jogo apreciado pelos guardas, seguranças e taberneiros. Parecia combinado. ‘PUM! PUM! PUM!’.
No segundo seguinte uma reacção em cadeia revelou a incongruência do acto. Uma cidade segura por seguranças seguros não tem alarmes de três carros a tocar ao mesmo tempo, nem pessoas a correrem para a janela, nem caixotes do lixo pontapeados. Nem luzes a acenderem, de forma sincronizada, em toda a vizinhança. Nem pessoas que dormiam, no posto de trabalho, às 23 horas.
Um dos seguranças saiu disparado do ninho, no sentido contrário ao estrondo dos caixotes. Raspou-se, portanto. Outro, o Jorge, estava agachado por detrás do carro-abrigo, só se via a cabeça, ressuscitada de um sonho bonito que certamente estaria bem longe do Maculusso, da insegurança e de um trabalho mal pago. Muanza deslocava-se para ‘a posição’, como ele gosta de dizer. Camisa aberta, esgrouviado, atordoado por um pontapé Eusebiano, qual guardião depois de apanhar com uma bomba do moçambicano cara adentro. Parecia que ele é que tinha sido atingido, não os caixotes cor-de-laranja europeia.
O homem alto e desengonçado gesticula e promete vingança. Não foi possível ouvir a conversa, mas é fácil imaginá-la. Aliás, Muanza costuma repetir ‘nós não dormimos, estamos bem alerta a noite toda’. Está tudo dito - e agora vamos interromper a conversa. Chegou o jantar e Muanza sai disparado, ‘porque o carro que traz a comida, todos os dias à mesma hora, não vai passar mais’. É justo.
Muanza, figura de cinema
Durante os anos 80 e princípios de 90, em plena guerra MPLA – UNITA, ele andava no mercado Roque Santeiro a comprar imbambas para vender nas Lundas’. ‘Ia no Roque, comprava jeans, ténis, roupa, tudo o que as pessoas precisam, empacotava. Tinha um amigo numa agência de viagem que me levava no Antonov, no russo, o Antonov sabe?, para as províncias, e ia lá vender tudo. Passava vários dias fora, a família ficava em Luanda, fiz algum dinheiro’. Tanto que deu para construir uma ‘casa grande grande’, onde actualmente alberga os oito filhos - ‘eram nove’ -, e a mulher. A mais-velha, moça na casa dos vinte anos, ‘já recebeu a carta do pedido, por isso está para casar’. Esta frase Muanza, agora com 49 anos, diz com orgulho, olho brilhante. ‘Os outro sete estão todos comigo, estudam’, acrescenta.
Tem andado doente e por isso perdeu muitos quilos nos últimos dois meses. Em caso de necessidade, não terá arcaboiço para lutar com qualquer ladrão, mesmo que ele seja o brasileiro-brega-anão, aquele, “comé?”, o Nelson Ned. É, nem o Nelson Ned perdia um braço de ferro com o tio Muanza dos dias de hoje. ‘Estou com febre tifóide e paludismo. Mas já me estou a tratar. No final do tratamento vou estar normal. São 94 comprimidos’, explica, com os óculos de haste dourada empoleirados e enviesados, à direita, na sobrancelha, à esquerda, na menina-do-olho, excitado e confiante, agora que a patroa lhe tinha dado dinheiro para a consulta.
Muanza e Jorge são guardas do mesmo prédio, mas de pessoas diferentes. O dia-a-dia deles submete-se a uma rotina quase non-sense. De manhã, cada um deve dizer uns cinquenta e cinco ‘bom dia, sim’. É o trabalho deles, dizer ‘ok, bom dia, sim’. (Pelo meio ouve-se um rádio, jibóia-se e trocam-se ideias). De tarde, o calor aperta e o exercício é deveras estimulante – encontrar a melhor sombra ‘para descansar depois do funje’, como diz Muanza. Passam do passeio oposto à entrada do prédio, para depois se sentarem debaixo da pala da entrada do prédio, para finalizarem o dia nas arcadas junto da galeria comercial. Chega a noite e aqui é fácil – pitar e dormir.
Então e os ladrões? ‘Estou aqui como segurança há 5 anos e só por uma vez houve maka com bandido’, começa por dizer Jorge, o mais experiente de todos. ‘Fui o primeiro guarda daqui’, repete de forma profundamente concisa e, até certo ponto, orgulhosa, olho bem aberto na cara redonda e marcada pelo tempo, pelas peripécias de uma vida pouco fácil. ‘Naquele dia havia umas motas grandes dentro do prédio, os bandidos quiseram entrar’. Desconseguiram. Jorge chamou a polícia e depois de muita discussão eles desapareceram.
Como quase todos os guardas da cidade (digamos melhor, ‘como quase todos os homens da cidade’) Muanza e Jorge têm um passado ligado à guerra e à vida militar. ‘Ah, eu estive no mato mesmo, com as FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola), sei ver bem longe um bandido – se tem arma ou se vem com intenção de roubar, eu já estou a vê-lo’, afirma Jorge. Muanza é mais tranquilo e da guerra só fala dos ‘6 anos passados no Lubango, a lutar contra os sul-africanos. Eles só atacavam com aviação, sabia disso? As bomba saiam do cú do avião cá para baixo!, os cubanos tinham radares e binóculos, foram a nossa salvação’.
Muanza, alegoria anti-bandido
Jorge vive na Estalagem, pouco antes de Viana, subúrbio desenfreado de Luanda. Lá é que estão os bandidos. ‘Ah, tem muito bandido mesmo, ainda ontem bateram na minha porta – querem levar tudo, aparelho, rádio, antena, dinheiro. Ainda há os seguranças que parecem bandidos, a própria polícia também é bandida e nas áreas difíceis nunca aparece, não gira e não vê nada, nunca’.
Manuel, 33 anos, é guarda de uma pastelaria que não tem cadeiras, nem mesas, nem bolos, nem Cuca, sequer. Ainda não abriu, mas já tem segurança. É no Alvalade, uma das zonas nobres de Luanda. Em frente à pastelaria tem uma casa, de um qualquer general que possui uma gazela fechada no quintal. Se calhar foi o mesmo que o ameaçou quando estava de serviço num condomínio privado, perto da Samba.
- Sai da frente senão vou-te bater e levar na unidade. Abre o portão!
- Senhor, todas as pessoas que queiram entrar têm de se identificar. De seguida eu vou perguntar à pessoa a quem se dirige, para saber se o conhece, se está à sua espera. Só depois pode subir.
- O quê?! Você não sabe quem eu sou?
- Não meu senhor, não sei.
Manuel foi obrigado a telefonar para o administrador do prédio, e foi ele que resolveu o problema. ‘Quando o general bazou, me deu uma olhada! Xé!’. Tem dois filhos e mora para a banda do Morro Bento, zona sul da cidade. ‘Ah, lá é Centro de Bandidagem mesmo, celular?, eh!, é bom para bandido’. Na ‘posição’ em que se encontra, lá no Alvalade, o dia passa-o como todos os outros seguranças da cidade. ‘Ok, bom dia, sim’. ‘Ya, boa tarde, sim’. ‘Obrigado, obrigado’. Sentado numa cadeira de plástico branco, daquelas bem agradáveis numa esplanada virada para o mar.
No Maculusso a luz passou de baça e amarelada, quase chinesa, para a ausência total. Está escuro. O trânsito desapareceu, as pessoas também, apenas alguns jovens escorregam Luanda fora, noite fora, Cucas fora. Por volta das zero horas os dois únicos carros que circulavam nas imediações da Liga Africana beijaram-se. Boca com boca, violentos, quase loucamente apaixonados. Apaixonados demais – deu bronca, deu estoiro e travões a fazerem de reco-reco e chapa com chapa. Vermelha contra cinzenta.
- Não diz porra, tá a ouvir? Ele tem a culpa, e da próxima vez que este jovem disser porra eu vou-lhe dar!, berra um dos condutores na direcção de um daqueles mirones que logo surgem debaixo das pedras, quais lagartos à espera da presa ideal.
Os intervenientes e os ‘lagartos’ discutiram, gritaram, a energia da rede foi e voltou, apareceu a polícia. Bazaram, voltaram todos e voltaram a bazar. Fizeram barulho, ameaçaram-se. Muanza nem se mexeu. Continua enroscado nele mesmo, posição fetal, junto dos carros estacionados em frente aos caixotes cor-de-laranja europeia, provavelmente a sonhar com o dia do casamento da filha mais-velha.
(nota: este texto é uma 'reportagem' - não ficcionado, portanto)
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Músicas da banda
0 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Tuesday, April 24, 2007 at 6:33 PM.
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Savana, verde e amarela Inspiração Expiração Transpiração; Beleza Corrupção Energia e água (ou falta dela) Maka Kumbu Mambo Kimbo Camba Maiuia no Cazenga, na Mutamba, no São Paulo e no Sambizanga (e o Makulusso sempre a bater). Praia de Sangano, Cabo Ledo, Restinga do Lobito.
Benguela.
Rio Kwanza, Rio Cavaco, Rio Dande, Rio Keve.
A beleza das pessoas e a falta de dignidade de outras. O esforço de algumas, contra a ignorância de outras. Os que se levantam, todos os dias, às 4 da manhã, contra os que faltam ao trabalho, dia sim dia sim.
A Cuca, a Super Bock (é GTI!), Os Lambas e as outras cervejas todas.
Voltarei em breve (mas enquanto não acontecer, o blogue, salvo motivo de força maior, estará de baixa).
Norte & Sul
7 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Monday, March 05, 2007 at 8:12 AM.

Esquecem-se "eles" que, tal qual as outras pessoas todas (lá está, as "pessoas", sempre elas), são mortais e vão morrer. Mais dia menos dia. Em vez de aproveitarem uma ocasião única - já são multimilionários, poderosos, empresários... e velhos - de ficar na história de um país (de um continente, do Mundo, até) potencialmente rico, mas que é perniciosamente pobre. Não.
Preferem ter medo até do chão que pisam, preferem não dar espaço ao debate e à cultura da informação pela informação, preferem agrilhoar os partidos políticos (e consta que são mais de 30, revelador de uma vontade de participação cívica dificilmente vista noutro qualquer país) num esquema de toma-lá-dinheiro-mas-não-façam-muito-barulho-senão-...
Curiosamente, na Tuga, mesmo dia, mesma hora. Um misto de saloios, provincianos e radicais de extrema-direita faziam as figuras que podemos constatar numa das imagens supra. Mas, pergunto eu, que devo ser burro: não há vergonha?
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Interregnos
2 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Monday, February 19, 2007 at 6:40 AM.

A Televisão Pública de Angola (TPA) está a transmitir as primeiras "épocas" de duas (excelentes, excelentes, excelentes) séries altamente cultivadas por um número grande de pessoas.
"Os Sopranos" e "Sete Palmos de Terra", sábados e domingos, respectivamente.
Ora, isto é uma pedrada num Oceano (com "O" grande) de algum obscurantismo no que diz respeito ao acesso a certas e determinadas produções, televisivas ou cinematográficas, por parte dos angolanos.
Será que esta situção caricatura a mudança que se deseja, numa sociedade fechada como tem sido a angolana?
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4 de Fevereiro
Angola assinala hoje, dia 4 de Fevereiro, mais um aniversário sobre o início da Luta Armada de Libertação Nacional, que culminou com a proclamação da Independência do país, a 11 de Novembro de 1975. O feito de Fevereiro de 1961 "foi o produto da afirmação da consciência nacionalista e patriótica dos angolanos, contra a recusa, pelo regime colonial português, das propostas oficiais que lhe haviam sido apresentadas”. in Jornal de Angola

Chuva em Luanda, 22.01.2007
«Estas são algumas imagens dos efeitos das chuvas em Luanda, há uma semana.
Enquanto aqui morreram quase cem pessoas, milhares ficaram desalojadas, Luanda transformou-se numa ilha, pontes cairam, estradas foram engolidas, as comunicações ficaram (e continuam) intermitentes, crianças desapareceram, a cólera reaparece em força, etc, etc, etc, aí reinava a ignorância sobre o que por cá se passava.
É nestas alturas que um gajo reafirma aquela certeza que, para Portugal, Angola, este "país irmão", não passa de uma máquina de fazer dinheiro. O resto é pretalhada.»

Candongar
Andar Viver Cheirar - umas vezes a rosas, outras é uma catingada que até doi a fossa nasal - «Samba 2 Samba 2» Rapidez Eficácia !!! Espanto 50 Kwanzas Calor, muito calor «Mano, saio ali na clínica, ya?» Africanizar «Sãpalo Sãpalo» Mulheres bonitas feias crianças altos magros velhos novos amputados esclerosados Pretos, brancos poucos Trabalhar «Porra meu kota, porqué não avançaste?, o sinal estava a cair...».
Viajar de candongueiro é tudo isso. E talvez mais um bocadinho assim. À falta de viatura própria, «vamos de candongueiro». Bora.
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Angola - um país com futuro?
Paul Collier, economista e director do Centro para o Estudo das Economias Africanas da Universidade de Oxford. (mais biografia aqui)
Esteve em Angola durante o mês de Junho de 2006. Apontou caminhos, realçou expectativas e destacou possíveis engulhos. Não teve medo e pôs o dedo em feridas difíceis de contornar.
Percam 20 minutos (podem ser 10 agora e 10 depois). Aqui. É uma ordem.
Acácias rubras. Em Benguela elas estão por toda a parte. São árvores, mas de tamanho médio, tipo arbusto (desculpem a imprecisão mas de botânico ainda tenho pouco), pintadas por rebentos vermelhos. Daí as "rubras". Adiante - porque que isto não interessa para nada.
Esta cidade fez-me entrar num registo mais pessoal, familiar, genético. Podem chamar-lhe tudo. Até "mixuruca".
Mas permitam-me abrir parênteses, se faz favor. Conhecida como a "Capital da Mestiçagem", a sede da província de Benguela é diferente das demais. Plana mas "direccionada" para o mar, estendida no espaço mas pequena (deve rondar os 300 mil habitantes). Glamorosa. Agrada pelo traço largo das avenidas, pela familiariedade dos trajectos e pela Casa do Benfica de Benguela.
É madrugada de 25 de Dezembro de 2006 e as tradições, aqui, são para manter: os benguelenses circulam pela rua (Esburacadas? Sim, todas, porque raio seria diferente das demais? Mesmo assim, "eles" fazem questão de nos lembrar que estão «Ao serviço do Povo Angolano». Rua sim rua não. Enfim, para se "fazer" política é preciso ter uma certa lata), mas sem luzes chinesas, botas de snowboard ou "playstations". Cirandam, só. Convivem. Natal? Talvez, mas para melhor. Fecho parênteses.
É fácil. Mãe, tia, avó, tio-avô, bisavô. Todos naturais de Benguela. 26 anos de histórias e tertúlias e mais memórias e raízes e tudo isso. A Caota, "A Geração da Utopia" e o comandante-"Pepeteliano"-que-hibernou-para-os-lados-da-Caotinha, a Baía Azul, o Tan-Tan, o Colégio das Madres, a casa «da bi-vó», «do José Canalha», «do Sr. Vilas» e a «do Tio Fernando». Muitos destes locais fizeram parte da minha memória colectiva e de uma curiosidade familiar sugestivamente próxima.
É intrigante pensar que, apesar de tudo, nunca me disseram: - «Para chegar a Benguela é necessário passar pela Kanjala, atenção!». Aka, que canalhas. Sim, tenho "as cruzes" (não só mas também) traumatizadas.
Agora, o prazer de ter passado cinco dias em Benguela, finalmente!, esse ninguém me tira. Nem a (prostituta! da) Kanjala. Para a próxima talvez vá de avião, não sei. Mas vou.
Nota: tenho registos audiovisuais desta jornada. Eu sei que já sabem, desta vez não é para pedir desculpas. É só para desabafar: epá, puta da máquina, foda-se!
Interregnos
0 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Tuesday, January 02, 2007 at 3:53 PM.«O surgimento do Belas Shopping representa bem este momento [económico], já que um shopping é o maior símbolo de desenvolvimento e modernidade para uma cidade.» in Angola Acontece
Se assim for, estamos mal.
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A cidade do Lobito, situada na província de Benguela, a cerca de 30 km da capital provincial (que é Benguela, precisamente) e a uns 500, 550 km da capital do país, Luanda, poderia ser a metáfora que define Angola.
Vejamos, então - e vou ter de começar pelos aspectos negativos, que ainda hoje apertam a minha garganta. Já dói e tudo.
Mas dói ainda mais ver uma cidade linda com as ruas todas partidas, sem alcatrão e sem vias de circulação dignas; dói inspirar aquela mistela de pó, CO2 e lixo; dói ver uma recolha de resíduos que classificaria de inexistente, com toda uma panóplia de cheiros e doenças adjacentes; dói entrar na cidade e ver aqueles musseques cheios de pessoas (sim, também são pessoas, não parece mas são) que vivem sem um pingo de respeito - a sua condição passou a ser de extra-terrestres, nem os animais mais perigosos são colocados num jardim zoológico sem água, luz e esgotos.
Confesso a minha depressão quando pude observar com "olhos de ver" aquela paisagem desoladora - o mar, a Restinga e o porto do Lobito, no mesmo plano visual dos musseques, das pessoas (sim, também são pessoas, não parece mas são) e daquela água fétida e podre e assassinada que descia a ladeira... É perturbador da minha saúde mental.
Mas não deixa de ser uma vergonha - a cidade que poderia ser tudo e não é nada. O país que poderia ser tudo e não é nada.
Lobito é Angola. (Arrisco.) Agora batam-me se quiserem.
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Já com cinco horas de caminho no corpo, aproxima-se a famosa Kanjala. Digamos que é famosa pelas razões menos boas para um automobilista de origens europeias: são cerca de 70 km de troço destruído (não, não é o mesmo que esburacado), irritante, exasperante. O pó é tipo post-it - fino, pequeno e cola-se em toda a superfície disponível, seja ela de grande ou pequena dimensão. A coluna vertebral, entretanto, já assumiu uma postura naturalmente serpenteada. Juntemos pimenta a esta festa: o troço faz-se, ainda por cima em dia de estreia, quando a noite já está velha. Nem Carlos Sainz rasparia as mãos de contente.
Minto: a determinada altura do caminho (enfim, há que nomear aquela "coisa"), num kimbo pequeno mas com cerveja, um pastor - a Kanjala é uma zona alta e húmida, fértil e boa para a pecuária -, com certeza inebriado por uma qualquer música, dançava de forma frenética abraçado ao seu cajado. Contente. Enquanto isso, camiões, ligeiros, jipes e quejandos continuavam uma jornada que não parecia ter fim. Afinal tinha: ao fim de duas horas e qualquer coisa, lá estava ele, o Fim. Se Deus existe, deve ser, com certeza, o fim da Kanjala.
Neste caso até teve a denominação de "Operação Sprite" - uma barricada policial ordenava a paragem de quase todas as viaturas. As palavras de ordem eram "Boas Festas" e "Gasosa" (daí a "Operação Sprite"). Simpáticos, estes agentes "de Deus", não é? Depois de uma viagem desgastante ainda nos desejam boas festas e oferecem gasosa.
Mentira. Como a língua portuguesa é traiçoeira e mal-tratada, os termos referidos, em Angola, significam kumbu, dinheiro, graveto, pasta. Passámos sem dar (nem receber) troco.
O destino era a cidade do Lobito, primeiro, e depois, à laia de destino final, Benguela.
Fiquem com os números, então: cerca de 10 horas de viagem; 600 km por estradas esburacadas, "achinesadas" (são eles que se preparam para reparar todo o trajecto), estrupiadas; dezenas de paisagens deslumbrantes; 10 horas de sono no dia seguinte.
Sobre as cidades do Lobito e Benguela, outras postas de seguirão.
Nota: devido a problemas técnicos ainda por apurar, não é possível publicar a Foto Reportagem do evento. Espero poder fazê-lo nos próximos dias.
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