Norte
2 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Tuesday, September 25, 2007 at 8:59 AM.
Um bocadinho de sensatez nunca fez mal a ninguém (* deixo uma adenda pós-post - é que o João Miguel Tavares anda inspirado e a opinião desta semana também é óptima)
'Quem já não atura elogios ao râguebi levante a mão*
Mais uma palavra elogiosa sobre a selecção portuguesa de râguebi e a sua paixão pela pátria e o seu amadorismo tão profissional e o seu extraordinário esforço e como devemos estar todos tão orgulhosos e como eles são um exemplo para nós - e eu regurgito. A sério. Se os elogios parvos tivessem açúcar estávamos todos diabéticos.
Agradecia que os admiradores do râguebi não me imaginassem já a ser violentamente placado contra um muro de cimento. Juro por todos os santinhos que nada tenho contra a modalidade. Gosto muito de ver os jogos e quase me comovo com a haka neozelandesa. Mas para tudo existe uma medida certa. Sim, os rapazes portugueses são esforçados. Têm o seu mérito. Parecem simpáticos na televisão. Não são dados a peneiras como os tipos do futebol. E cantam o hino nacional com um tal entusiasmo que se Louis Pasteur fosse vivo ainda os vacinava. Mas daí a transformá-los nos maiores heróis da Nação só porque andam num campeonato do mundo a perder os jogos todos (e por muitos) é capaz - digo eu - de ser um bocadinho exagerado.
Dir-me-ão: "Ah, e tal, são amadores, passaram muitos anos a lavar as suas próprias camisolas, e veja onde eles chegaram." Até pode ser. Embora, tendo em conta os estratos sociais de onde vem a maior parte daquela rapaziada, seja bem mais provável que tenha sido a dona Mariazinha ou a menina Svetlana a lavar-lhes a camisola. Mas passemos ao lado das questões de classe, ainda que elas expliquem muita coisa. O certo é que, mesmo tendo em conta os objectivos (modestos) anunciados, a selecção ainda não cumpriu nenhum. Contra a equipa da Escócia os portugueses queriam perder por menos de 30 e encaixaram 56-10. Contra a Nova Zelândia queriam que os All Blacks não chegassem aos 100 pontos e perderam por 108-13. Contra a Itália nem percebi qual era o objectivo e levaram 31-5.
Mas o mais extraordinário é que, percam por quantos perderem, os "lobos" têm sempre garantidas umas festas na cabeça por parte da comunicação social. Título do Público após o 31-5: "Ficou a sensação que era possível derrotar a Itália." Ficou a sensação, ficou. Eu às vezes também tenho a sensação que podia jogar melhor à bola que o Messi. Que podia ser mais esperto que o Bill Gates. E que a Nicole Kidman podia perfeitamente sussurrar-me ao ouvido: "Ao pé de ti, o Tom Cruise é um badameco." São sensações. Não costumo é puxá-las para título de jornal. Mas, de quando em quando, a Pátria dá nisto: elege os seus heróis, fecha as cortinas do pensamento, e chora muito a ouvir o hino nacional. É esquisito. Mas é assim.', João Miguel Tavares, in Diário de Notícias, 25.09.2007
* tenho o braço no ar há bué, até já me dói o sovaco - e estou a milhares de quilómetros da Tuga (diz que são 7000), se estivesse lá em cima já tinha vomitado com estas bestas nacionaleiras.
'Quem já não atura elogios ao râguebi levante a mão*
Mais uma palavra elogiosa sobre a selecção portuguesa de râguebi e a sua paixão pela pátria e o seu amadorismo tão profissional e o seu extraordinário esforço e como devemos estar todos tão orgulhosos e como eles são um exemplo para nós - e eu regurgito. A sério. Se os elogios parvos tivessem açúcar estávamos todos diabéticos.
Agradecia que os admiradores do râguebi não me imaginassem já a ser violentamente placado contra um muro de cimento. Juro por todos os santinhos que nada tenho contra a modalidade. Gosto muito de ver os jogos e quase me comovo com a haka neozelandesa. Mas para tudo existe uma medida certa. Sim, os rapazes portugueses são esforçados. Têm o seu mérito. Parecem simpáticos na televisão. Não são dados a peneiras como os tipos do futebol. E cantam o hino nacional com um tal entusiasmo que se Louis Pasteur fosse vivo ainda os vacinava. Mas daí a transformá-los nos maiores heróis da Nação só porque andam num campeonato do mundo a perder os jogos todos (e por muitos) é capaz - digo eu - de ser um bocadinho exagerado.
Dir-me-ão: "Ah, e tal, são amadores, passaram muitos anos a lavar as suas próprias camisolas, e veja onde eles chegaram." Até pode ser. Embora, tendo em conta os estratos sociais de onde vem a maior parte daquela rapaziada, seja bem mais provável que tenha sido a dona Mariazinha ou a menina Svetlana a lavar-lhes a camisola. Mas passemos ao lado das questões de classe, ainda que elas expliquem muita coisa. O certo é que, mesmo tendo em conta os objectivos (modestos) anunciados, a selecção ainda não cumpriu nenhum. Contra a equipa da Escócia os portugueses queriam perder por menos de 30 e encaixaram 56-10. Contra a Nova Zelândia queriam que os All Blacks não chegassem aos 100 pontos e perderam por 108-13. Contra a Itália nem percebi qual era o objectivo e levaram 31-5.
Mas o mais extraordinário é que, percam por quantos perderem, os "lobos" têm sempre garantidas umas festas na cabeça por parte da comunicação social. Título do Público após o 31-5: "Ficou a sensação que era possível derrotar a Itália." Ficou a sensação, ficou. Eu às vezes também tenho a sensação que podia jogar melhor à bola que o Messi. Que podia ser mais esperto que o Bill Gates. E que a Nicole Kidman podia perfeitamente sussurrar-me ao ouvido: "Ao pé de ti, o Tom Cruise é um badameco." São sensações. Não costumo é puxá-las para título de jornal. Mas, de quando em quando, a Pátria dá nisto: elege os seus heróis, fecha as cortinas do pensamento, e chora muito a ouvir o hino nacional. É esquisito. Mas é assim.', João Miguel Tavares, in Diário de Notícias, 25.09.2007
* tenho o braço no ar há bué, até já me dói o sovaco - e estou a milhares de quilómetros da Tuga (diz que são 7000), se estivesse lá em cima já tinha vomitado com estas bestas nacionaleiras.
Interregnos
3 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Wednesday, May 23, 2007 at 8:13 AM.
Puto Klinnsmann
No meio da rua empoeirada um puto chutava uma bola, pequena. Curiosamente, o esférico apresentava-se com a palavra “Portugal” inscrita em tons dourados num fundo bordeaux, quase tinto-alentejano.
Um puto de 3, não, talvez 4 anos, chutava-a contra a parede e deixava-a rebolar, ora para os meus pés, ora para aquelas águas paradas, verdes e mal-lavadas. E repetia o gesto, sempre.
“Como te chamas?”, perguntei a determinada altura.
“Klinnsmann”, respondeu. As sílabas conseguiram esvoaçar aquele espaço curto, o espaço deixado pela falta de dois dentes, de certa forma envergonhadas por um nome de proveniência insegura. Klinnsmann – avançado alto, rápido, espadaúdo. Foi artilheiro, durante anos-a-fio, de uma águia real alemã, vencedora e quase inesquecível pela vontade e pela organização. Nunca pela sua beleza - mas, digamos assim, o futebol não é como as mulheres. Para ser bom não precisa de ser bonito. Não, não precisa.
“Klinnsmann?!, e sabes quem era esse senhor?”
“Era um alemão, jogador de futebol”, diz de forma escondida mas assertiva, num estilo larga-me-da-mão-porque-já me-perguntaram-isso-vezes-a-mais.
O cenário, claro, é africano, puro e duro. Sensorialmente forte e capaz de desregular o melhor dos relógios suíços, pela sua intensidade mística mas, sobretudo, pela força cultural de um continente velho. Literalmente velho.
O puto despede-se com um acenar, levantando os dedos, abanando-os na direcção desejada. Quase a lembrar o Klinnsmann mais-velho depois de destroçar um Benfica de trazer-por-casa, numa noite fria e impessoal, típica de uma Munique que puto Klinnsmann desconhece, longínqua e inimaginável.
(História forjada num atelier de escrita criativa/reportagem dirigido pela Marta Lança, jornalista, editora e “aspirante a escritora” e pela Susana Moreira Marques, jornalista do Público, actualmente sediada em Londres.
Deixo-vos a questão que dava vida ao exercício: esta história, será ficção ou realidade?
Fico a aguardar as respostas na caixa de comentários.)
No meio da rua empoeirada um puto chutava uma bola, pequena. Curiosamente, o esférico apresentava-se com a palavra “Portugal” inscrita em tons dourados num fundo bordeaux, quase tinto-alentejano.
Um puto de 3, não, talvez 4 anos, chutava-a contra a parede e deixava-a rebolar, ora para os meus pés, ora para aquelas águas paradas, verdes e mal-lavadas. E repetia o gesto, sempre.
“Como te chamas?”, perguntei a determinada altura.
“Klinnsmann”, respondeu. As sílabas conseguiram esvoaçar aquele espaço curto, o espaço deixado pela falta de dois dentes, de certa forma envergonhadas por um nome de proveniência insegura. Klinnsmann – avançado alto, rápido, espadaúdo. Foi artilheiro, durante anos-a-fio, de uma águia real alemã, vencedora e quase inesquecível pela vontade e pela organização. Nunca pela sua beleza - mas, digamos assim, o futebol não é como as mulheres. Para ser bom não precisa de ser bonito. Não, não precisa.
“Klinnsmann?!, e sabes quem era esse senhor?”
“Era um alemão, jogador de futebol”, diz de forma escondida mas assertiva, num estilo larga-me-da-mão-porque-já me-perguntaram-isso-vezes-a-mais.
O cenário, claro, é africano, puro e duro. Sensorialmente forte e capaz de desregular o melhor dos relógios suíços, pela sua intensidade mística mas, sobretudo, pela força cultural de um continente velho. Literalmente velho.
O puto despede-se com um acenar, levantando os dedos, abanando-os na direcção desejada. Quase a lembrar o Klinnsmann mais-velho depois de destroçar um Benfica de trazer-por-casa, numa noite fria e impessoal, típica de uma Munique que puto Klinnsmann desconhece, longínqua e inimaginável.
(História forjada num atelier de escrita criativa/reportagem dirigido pela Marta Lança, jornalista, editora e “aspirante a escritora” e pela Susana Moreira Marques, jornalista do Público, actualmente sediada em Londres.
Deixo-vos a questão que dava vida ao exercício: esta história, será ficção ou realidade?
Fico a aguardar as respostas na caixa de comentários.)
Labels: Cultos, Interregnos, Pessoas
Interregnos
2 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Monday, February 19, 2007 at 6:40 AM.
Surpresa

A Televisão Pública de Angola (TPA) está a transmitir as primeiras "épocas" de duas (excelentes, excelentes, excelentes) séries altamente cultivadas por um número grande de pessoas.
"Os Sopranos" e "Sete Palmos de Terra", sábados e domingos, respectivamente.
Ora, isto é uma pedrada num Oceano (com "O" grande) de algum obscurantismo no que diz respeito ao acesso a certas e determinadas produções, televisivas ou cinematográficas, por parte dos angolanos.
Será que esta situção caricatura a mudança que se deseja, numa sociedade fechada como tem sido a angolana?

A Televisão Pública de Angola (TPA) está a transmitir as primeiras "épocas" de duas (excelentes, excelentes, excelentes) séries altamente cultivadas por um número grande de pessoas.
"Os Sopranos" e "Sete Palmos de Terra", sábados e domingos, respectivamente.
Ora, isto é uma pedrada num Oceano (com "O" grande) de algum obscurantismo no que diz respeito ao acesso a certas e determinadas produções, televisivas ou cinematográficas, por parte dos angolanos.
Será que esta situção caricatura a mudança que se deseja, numa sociedade fechada como tem sido a angolana?
Labels: Cultos, Interregnos, País, TV
