Interregnos
3 Comments Published by Edson Arantes do Nascimento on Wednesday, May 23, 2007 at 8:13 AM.
Puto Klinnsmann
No meio da rua empoeirada um puto chutava uma bola, pequena. Curiosamente, o esférico apresentava-se com a palavra “Portugal” inscrita em tons dourados num fundo bordeaux, quase tinto-alentejano.
Um puto de 3, não, talvez 4 anos, chutava-a contra a parede e deixava-a rebolar, ora para os meus pés, ora para aquelas águas paradas, verdes e mal-lavadas. E repetia o gesto, sempre.
“Como te chamas?”, perguntei a determinada altura.
“Klinnsmann”, respondeu. As sílabas conseguiram esvoaçar aquele espaço curto, o espaço deixado pela falta de dois dentes, de certa forma envergonhadas por um nome de proveniência insegura. Klinnsmann – avançado alto, rápido, espadaúdo. Foi artilheiro, durante anos-a-fio, de uma águia real alemã, vencedora e quase inesquecível pela vontade e pela organização. Nunca pela sua beleza - mas, digamos assim, o futebol não é como as mulheres. Para ser bom não precisa de ser bonito. Não, não precisa.
“Klinnsmann?!, e sabes quem era esse senhor?”
“Era um alemão, jogador de futebol”, diz de forma escondida mas assertiva, num estilo larga-me-da-mão-porque-já me-perguntaram-isso-vezes-a-mais.
O cenário, claro, é africano, puro e duro. Sensorialmente forte e capaz de desregular o melhor dos relógios suíços, pela sua intensidade mística mas, sobretudo, pela força cultural de um continente velho. Literalmente velho.
O puto despede-se com um acenar, levantando os dedos, abanando-os na direcção desejada. Quase a lembrar o Klinnsmann mais-velho depois de destroçar um Benfica de trazer-por-casa, numa noite fria e impessoal, típica de uma Munique que puto Klinnsmann desconhece, longínqua e inimaginável.
(História forjada num atelier de escrita criativa/reportagem dirigido pela Marta Lança, jornalista, editora e “aspirante a escritora” e pela Susana Moreira Marques, jornalista do Público, actualmente sediada em Londres.
Deixo-vos a questão que dava vida ao exercício: esta história, será ficção ou realidade?
Fico a aguardar as respostas na caixa de comentários.)
No meio da rua empoeirada um puto chutava uma bola, pequena. Curiosamente, o esférico apresentava-se com a palavra “Portugal” inscrita em tons dourados num fundo bordeaux, quase tinto-alentejano.
Um puto de 3, não, talvez 4 anos, chutava-a contra a parede e deixava-a rebolar, ora para os meus pés, ora para aquelas águas paradas, verdes e mal-lavadas. E repetia o gesto, sempre.
“Como te chamas?”, perguntei a determinada altura.
“Klinnsmann”, respondeu. As sílabas conseguiram esvoaçar aquele espaço curto, o espaço deixado pela falta de dois dentes, de certa forma envergonhadas por um nome de proveniência insegura. Klinnsmann – avançado alto, rápido, espadaúdo. Foi artilheiro, durante anos-a-fio, de uma águia real alemã, vencedora e quase inesquecível pela vontade e pela organização. Nunca pela sua beleza - mas, digamos assim, o futebol não é como as mulheres. Para ser bom não precisa de ser bonito. Não, não precisa.
“Klinnsmann?!, e sabes quem era esse senhor?”
“Era um alemão, jogador de futebol”, diz de forma escondida mas assertiva, num estilo larga-me-da-mão-porque-já me-perguntaram-isso-vezes-a-mais.
O cenário, claro, é africano, puro e duro. Sensorialmente forte e capaz de desregular o melhor dos relógios suíços, pela sua intensidade mística mas, sobretudo, pela força cultural de um continente velho. Literalmente velho.
O puto despede-se com um acenar, levantando os dedos, abanando-os na direcção desejada. Quase a lembrar o Klinnsmann mais-velho depois de destroçar um Benfica de trazer-por-casa, numa noite fria e impessoal, típica de uma Munique que puto Klinnsmann desconhece, longínqua e inimaginável.
(História forjada num atelier de escrita criativa/reportagem dirigido pela Marta Lança, jornalista, editora e “aspirante a escritora” e pela Susana Moreira Marques, jornalista do Público, actualmente sediada em Londres.
Deixo-vos a questão que dava vida ao exercício: esta história, será ficção ou realidade?
Fico a aguardar as respostas na caixa de comentários.)
Labels: Cultos, Interregnos, Pessoas

Não sei responder se esta pequena história será ficção ou realidade.
Mas isso é o que menos interessa após ler um naco de prosa como este - belo, inspirado e que consegue concentrar em poucas palavras um mundo complexo. Parabéns.
Se é ficção, ou realidade ... não interessa o que é!
O que realmente interessa é que o mundo é bonito, simples e pequeno.
Se conheces a Marta Lança, manda-he um beijinho do Pedro e do Fred Ágoas.
Abraço
Se acham que não interessa saber se é verdadeiro ou não, muito bem, não vos vou 'cortar o barato'.
PWFH, é verdade, conheço a Marta Lança. Ela está em Luanda faz dois anos, mas vai bazar em Julho para Lisboa. Os cumprimentos serão entregues.
Abraços.